05 março 2015

química azul









Trânsito engarrafado, acidente e óbito. Cedo da manhã, o corpo anseia por sono. Mas não dorme. Caminha e respira o pulmão carbono. Trinta e três ele não diria. Automotivos, homens cobrem suas caras e mulheres deixam que seus corpos sejam vistos. Ancas, cinturas, sutiãs que acobertam seios. Nos pés, sandálias anatomicamente incorretas no trânsito parado da cidade desperta. O sol arde em chuva que não encharca e caminhões lapidam no asfalto suas marcas. Com dizeres de Deus e Cruz em suas placas, caminhões lascam a estrada. Ainda é tempo de voltar para casa. Mas o corpo não pode desertar. Segue cansado o fluxo engarrafado da cidade, garrafa de mensagens tontas. Nada diz o prédio de luxo que esconde, em pequenos embrulhos, o que não quis o homem de ontem no jantar de quinta. Sorri a mulher que cata lata ao lado das grandes edificações. Sorri de prazer por encontrar tesouro que ninguém irá cobrar em imposto, em jornal, em dívida. Pais e mães observam seus filhos atravessarem a rua, entrarem na escola e sumirem, para todo alívio, atrás de grade que não é prisão. Mas aparenta. As aparências estão em tudo. Do menino sujo ao velho asseado, que transfere a ninguém sua longevidade, as aparências esboçam, da cidade, seu sorriso de dentes quebrados ou clareados por química azul. Mas há flores na cidade que tranca o corpo dentro da trama lógica de existir. E são elas, somente as flores, que fazem o corpo persistir.











2 comentários:

Luis Eme disse...

muitas vezes são...

são a âncora que nos faz continuar a lutar contra o outro lado da vida, Letícia.

Germano Viana Xavier disse...

Lógica insana dos compassos.