09 abril 2015

gatilho









Fito as mãos. Linhas e curvas de calo nenhum. No céu pardo de fim da tarde, pássaros trafegam em busca de um lugar para passar a noite. Pássaros descansam tanto quanto voam. Duas lagartixas lutam por um sapo. Persigo a luta, enquanto o rádio exige minha atenção. Não dou ouvidos. Quero música. E, se possível, outro trago de um cálice que nunca irá me calar. Ou irá? Um homem corta os galhos de uma árvore que despenca no fim da rua. A vida é nua. Rima estúpida. Eu costumava adorar cartas e isto não é segredo. É remendo. Algo que digo para a conversa não talhar. Cruzo as pernas em gesto exuberante. Tão prepotente quanto entediante, ele se torna ruína de um tempo no qual vivemos juntos. Fala de sexo. A sanguessuga conta mais do que escuta. Elogios ao vapor da pele. Esfriei há tempos. De concubina crônica, me tornei santa. Monossilábica e apartada, roupa separada para lavagem a seco. Quebro o gelo e falo da crise. Quantas virão? Ainda lembro, ele diz. Acostumados aos cães que ladram, estamos cansados. Admitimos. Anoitece e o mesmo teor de frieza me aquece. Uma dor vazia de motivo se acumula em nossas retinas. Não temos vergonha. Temos algum dinheiro que não pagará por nossa indelicada mania de fingimento. Sem ar, eu puxo o gatilho. Pergunto, de súbito, o que mais o incomoda. Ele faz listas. Governo, falta de fé, frustração e medo. E afirma, em voz alta, que se isto não nos afeta, logo nos afetará. Ele ri, e com as mãos entre os joelhos, unidas em prece, admite o quanto sente medo. E é neste momento único que entendo. Além de recíprocos, somos grotescos. Choramos pelo fim para valorizar o começo.










Nota


Escrever um blog em tempos de e-book, twitter e facebook é como ser vegetariano em terra de carnívoros. É preciso ser muito insistente. Coisa que não sou. No entanto, de vez em quando, me desobedeço. Aos leitores do afeto literário, aviso que tenho estado mais voltada ao silêncio (me refiro ao escrever em silêncio). Escrevo todos os dias. Como sou antiga (do tipo que ainda prefere o manuscrito), tenho escrito histórias que me pedem mais tempo para reler e editar. Algumas talvez eu publique. Outras irão para o limbo. Para o meu próprio esquecimento. No mais, publicarei vez ou outra. Como hoje, por exemplo. Algo simples, ameno e de amor, que fala disto e daquilo e que, por mais real que me venha, é ficção.


(agradeço sempre)









4 comentários:

Anônimo disse...

Tamborilando com os nós dos dedos. Enquanto o barulho se faz o zumbido some.

Cinthia Maria Bezerra disse...

Sempre valendo a pena...

Thanx

Luis Eme disse...

eu é que agradeço, Letícia. :)

Bruno Oliveira disse...

Interessante: eu também escrevo à mão antes de publicar algo no meu blog. Curto pacas ferir uma folha em branco com a minha caneta esferográfica. E sempre é bom te ler, mesmo que tu demores um pouquinho pra aparecer. :)