03 julho 2015

carta de amor








Já tentou escrever sem a estúpida pretensão de ser lido? Eu nunca me atrevi. Mas hoje abandono o remo. E não premedito alvo ou sacrifício. Como o padre que prega a culpa no pecado alheio, eu escrevo. Que se danem o começo, o fim e o meio. 







Olá. Sou eu. Sei que não irá receber tal carta, pois eu não a enviarei. Já fiz isto outras vezes. É um bom exercício para o silêncio. Escrever sem a obrigatoriedade da leitura do outro é como andar nu. Então, falo aos quatro ventos tudo o que preciso. De primeira, já com a voz rouca de tão calada, digo que meu amor voltou. Não sabia que isto acontecia até sofrer tal efeito. Amor volta com o tempo. Ou talvez eu nunca o tenha deixado de sentir. Eu simplesmente escondi. É até fácil. Ensino como fiz. Fingi estar muito ocupada, trabalhando sem pausa, cheia de contratempos, e tudo isso para evitar a convivência. Você, com suas músicas e delinquências, que sequer combinam com a idade, me causavam náuseas náuticas de um amor singular. Toda aquela história de que eu poderia ter dado minha vida em troca da sua... é tudo verdade. Embora eu nunca tenha dito, fica aqui em escrito. Eu teria dado minha vida. Porém, como eu já deixei exposto, fugi. Aliás, fingi. Peito amigo de fazer chorar mágoa. Eu era isto. E também as mãos que tocavam as suas em tempos de miséria. Quando você não tinha ninguém ao seu lado, eu estava lá para assoprar as velas. Era mais que amor isto. Era suicídio. Me mantive estátua de fazer sombra para que o sol queimasse brando sua têmpora. Escondi bilhetes que eu escrevia, na inquietação de todo dia; eu queria que você os lesse. E depois não queria mais. Eu me afogava de vergonha. Pois, não havia espaço para o que eu sentia em suas agonias de ir e vir em busca de pessoas que não mereciam sua atenção. Mas quem sou eu para medir isto? Talvez merecessem. Talvez fossem boa gente as pessoas. E, mais que talvez, seja você o Judas por quem tanto lamentei. Havia mais que espaço em mim para seus braços e coisas. Havia mesa pronta. Havia, em minha boca, que é doce de toda melodia, voz e quietude para todo o tempo. Havia roupa pronta para viagem acaso você precisasse. Havia olhar sincero de companheirismo e cuidado mais que atento. Eu me deixava ir em seu andar altivo de quem se sente completo. Mas, que no fundo, não estava completo em nada. Você estava sempre aos cacos. Eu apenas apoiava sua mentira de dizer que estava bem sozinho, com seus egos múltiplos e masculinos. Eu ria de achar engraçada a forma como você se perdia. E, tanto quanto ria, também chorava quando você se despedia, dizendo que voltava. A gente quase sempre espera. No entanto, de súbito nos vem o dia de deixar de esperar. Não que eu tenha me cansado. Entenda. Eu ainda o aceitaria. De verdade. Toda pronta e afetuosa. Mas acredito que eu tenha perdido o jeito pra essa coisa de amar sujeito que não sabe de si, nem do mundo que o abarca. Ainda amo com toda glória e raiva. E deixo aqui, em tinta azul, o que sinto e não demonstro. O que enxergo e não aponto. Do final o ameno ponto.












6 comentários:

Germano Viana Xavier disse...

Belíssimo, Branca.

Ingrid disse...

e como já o fiz também!
escritos a nunca serem lidos..
ótimo!
Beijinhos.

Luis Eme disse...

Que carta de amor tão sincera, daquelas que se chegassem ao destinatário o deixava lavado em lágrimas, por muito dustraído que fosse. :)

abração Letícia

Camila Rodrigues disse...

Nossa!!! Lindos escritos.

Anônimo disse...

O amor de verdade. Sem vírgulas e com muita aceitaçao.
camilla tebet

Marcelo R. Rezende disse...

Gosto de cartas porque elas sempre alcançam alguém (nem sempre quem deveriam, mas elas chegam) e isso é lindo.
Muito tempo que não te visitava, minha linda.

Beijaço!