02 agosto 2015

pura alma









Não sei mais como intitular-me. Perdi identidade. Perdi razão. Mas algo ainda me arde, tão vasto fogo bruto em piedade. Ainda me arde o coração.

(...)




Cancelei assinatura da TV a cabo. Não raro faço tais coisas para sentir necessidade de tê-las novamente. Tudo me cansa imensamente. Até o que não faço. Joana dobra os lençóis e cuida para que cada ponta se encontre. Joana não gosta de desorganização. De que forma, me pergunto, ela pôde ter se acomodado a um homem como eu? Ou não terá se acomodado? Ela trama coisas. É isto. Joana está tramando contra mim. Eu prevejo. Ela me obedece hoje para, amanhã, dar-me a mordida última, o filete de fel que faz secar o amor e o contentamento. Estou salvo, presumo. Não sinto nenhum dos dois. Nem amo, nem vislumbro. Eu ordenho. Joana é boa com as coisas de cama. Acaso esteja a fingir, é atriz. Eu aplaudo a mulher que tenho. Eu colaboro com suas intenções. Participo. Já pequei tanto por este mundo miudo que sequer irei me queixar se algo sair errado. Aliás, tudo está errado. Minha vida está fora de linha. Eu não deveria estar aqui. Perdi tempo apostando em cavalos que perdi. Cavalos coroados de vaidade e vento. Tudo se vai. Acredito que aniquilei todos os meus sonhos quando decidi me tornar funcionário público. Se bem que isto não é algo que se decida por si só. Você é empurrado, pela grande enxurrada de gente, e acaba que nem eu, no fim. É o afunilamento que leva o homem a tomar decisões que o diminuam. Eu leio livros de história e faço recortes de imagens aleatórias. Imagens de homens indo à caça, fazendo nada, transeuntes de um tempo que passou. Não idolatro ninguém. Deste pecado não morro, nem mato. Talvez eu tenha admirado, em abundante júbilo, um amigo que meu pai costumava levar para o jantar de domingo. Esqueci seu nome. Era fraco de corpo, mas a boca era um enxame de coisas incomuns. Foi com ele que aprendi e fumar charutos e tratar mulheres com vigor e romantismo. Ele também me ajudou a entender da política, a engrenagem que organiza homens em diversas filas. Devo estar na fila dos desqualificados. Não sirvo para muita coisa. Sirvo somente para me abster de cumprir minhas obrigações. De resto, sou quase feliz. Bebo e durmo muito. Meu alimento é fastioso, pois perdi a vontade de comer. Vejo dezenas de famintos e, ainda assim, reclamo do prato que encho. Mas preciso deixar claro o que farei. Ela chegará às cinco. Depois, irá tomar banho e, toda cheirosa de lavanda, vai preparar nosso jantar. Tomaremos água e suco de uva. O hábito que vicia. Colocarei os comprimidos, que já estão socados e previamente moídos, no copo do suco que ela sorverá. Alegremente e entediada. Em menos de dois minutos, Joana se sentirá mal. Seus olhos estarão arregalados, seu corpo convulso tombará e sua beleza velha estará, para sempre, congelada. Morta. Eu limparei a cena, deixarei o corpo na poltrona, em posição de quem toma chá e se diverte, e sairei para respirar ar puro nas ruas de clima congelante. Em última tentativa de sentir culpa, olharei a lua e talvez eu cante uma serenata qualquer.

─ O senhor está certo disto?

─ Muito certo de tudo. Quantas ave-marias devo rezar?

─ Nenhuma.

O padre, que ouvia de dentro do confessionário, enxuga com um tecido opaco a testa que sua, e diz ao confesso que se vá. E com Deus, por todo o caminho. O homem vai, segue tranquilo seu plano e canta serenata na rua larga, ritmado cântico, em harmonia com o latido dos cães.









2 comentários:

Luis Eme disse...

O mundo está de tal forma louco, que já nem as "boas de cama" escapam, à fúria dos desalmados...

tintanobolso disse...

Arder é bom. E de facto, cancelando a TV Cabo sabe-se por que arde.