14 outubro 2015

o sorriso de getúlio







Não esqueço o sorriso de Getúlio. Todo orgulhoso, após me beijar na rodoviária, indo para São Paulo, cheio de planos. Sequer me perguntou o que eu planejava. Decidiu por mim o que eu não decido nunca. Não me atrevo a planejar. Gosto do minuto no qual se acende a vontade, o ímpeto, a necessidade do mergulho. Partiu Getúlio, e eu fiquei. Estancada na plataforma B eu observei o ônibus tomar distância. O ruim foi não ter a mínima ideia de qual seria a janela em que ele, supostamente, estaria acenando para mim. Resolvi, de cara boa, acenar ao vento. Parada, acenando e sentindo saudade de véspera, fiquei. Voltei para casa e me desfiz de tudo que era de Getúlio. Do livro mais fino a mala mais pesada, juntei tudo e deixei na calçada, na esperança de que alguém passasse e levasse o que eu não queria mais. Getúlio decidiu e eu deveria decidir também. Não gosto de quem parte para preparar futuro que a ninguém pertence. Adeus, Getúlio! Descanse em paz. Dias se passaram e me senti livre. Parecia que amor era coisa que nunca tivesse sentido. Parecia que minha solidão era de sempre. Passeava pelas ruas e me sentia toda só. Isto não me feria. Me feria mais o sorriso de despedida. Recebi cartas que não ousei abrir. A cada quinze dias, um envelope caía em minhas mãos. A letra de Getúlio quase transmitia seu olhar, sua voz, seu brando modo de me fazer curva para que, sobre mim, se movesse. Nestas horas, surgia saudade. No entanto, eu me esgueirava pela vida em busca de não sentir coisa alguma. Conheci homens. Não me envolvi. Fingi. Coisa fácil de fazer. Basta que se olhe e tente não se deixar enxergar. Fingia tanto a dormência de meus sentidos que nenhum homem me fez cativa. Me acostumei a encenação. Passei tempos desta forma, deixando agir por fora o que não existia por dentro. Eu estava feliz na indiferença de meu distanciamento. E tão logo as cartas deixaram de chegar, Getúlio começou a sumir. A cada instante, uma parte. O esquecimento é como linha pontilhada. Faz desvanecer a imagem. Não havia mais Getúlio em canto algum de mim. Até o dia em que me surgiu uma mulher que eu nunca tinha visto antes. Ela me falou dele. Me perguntou se eu gostaria de vê-lo. Eu, afastada que estava da ideia de Getúlio voltar, acreditei que não faria diferença. Decidi ir a seu encontro. Sequer sabia que ele estava de volta. Getúlio estava de volta. Quase me alegrei. Segui a mulher em seu carro alaranjado gasto. Eu dirigia cantando. Em voz baixa. O carro da mulher parou em frente a um prédio. Ela se aproximou de mim e me pediu para acompanhá-la. Olhei meu rosto no retrovisor. Eu estava bela. Queria estar bonita para Getúlio. Entramos no prédio e subimos dois lances de escada. A mulher trocou algumas palavras com um senhor de cabelos muito grisalhos. Me pareceu ter um acordo entre eles. Ela se voltou para mim e, com um gesto, me levou a segui-la. Ao chegarmos a uma porta de madeira bruta e escurecida, a mulher disse algo que não entendi. Eu me sentia alterada. Excitação e curiosidade. Medo e saudade. Tudo havia retornado. Ao abrir a porta, Getúlio estava lindo. De terno bem vestido, cabelo crescido, e, nos lábios, um repuxo de sorriso, semelhante ao que vi ao me despedir na rodoviária. Me aproximei e sorri de volta. Muito calma. Beijei seus lábios e, ao me distanciar em direção à porta, a mulher me indagou se eu não iria acompanhar o funeral. Olhei para o corpo de Getúlio, adormecido em um sono que não se acorda, e me despedi da mulher. Desci as escadas e voltei para o carro. Dirigi por duas horas. Eu cantava. Eu chorava manso. Lembrei-me das cartas que não li e das coisas das quais me desfiz. Ao entrar em casa, me despi. Deitada em minha cama, olhava para o teto. Anestesiada pelo cansaço da espera, adormeci. Getúlio, enfim, havia se tornado história. Era página última de livro. Era a voz calada e embalsamada do amor que senti.










3 comentários:

Luis Eme disse...

E assim se "mata" um amor...

(Olá Letícia!)

Não chegou carta, mas chegou "posta". :)

abraço

A Escafandrista disse...

Texto lindo, Le. não esperava esse final.

Thomaz Ribeiro disse...

É difícil realmente entender o que se passa na cabeça de qualquer pessoa. Por aí estão tantas pessoas a destruir mundos inteiros dentro de sua cabeça. Se é verdade que o tempo passa, então tudo que está nele vai junto.