12 dezembro 2015

o princípio







Segurando a cintura de Virgínia, com as mãos de não tocar muito, ele admitiu estar distante. Olhou pela janela, que a vista era muito bonita para ser perdida, soltou o ar que prendia, virando o rosto para que a mulher não percebesse seu desânimo. Você está deprimido? Não estou deprimido. Não tenho tempo para estar deprimido. Seria até pecado estar deprimido. Não tenho motivos. Virgínia recuou do beijo que daria, pensando que, talvez, beijar não fosse a melhor resposta para o amante que se lamentava. Sentiu que não queria ajudá-lo. Não há cura para isto que sinto, Virgínia. Já me dei por vencido. Ela perguntou, em tom de quem não se preocupa, o que seria isto que ele sentia e que, tão convencido, declarava não haver cura. Não sei. É como comer muitos doces, saborear todos e, no fim das contas, não sentir mais o doce. Pois o doce, comido em excesso, perdeu o sentido. Sua essência. O doce tornou-se outra coisa. E não me pergunte o que seria o doce, pois não sei sabotar respostas. Vou acabar ferindo você, Virgínia. Então, não me diga, respondeu a mulher, ao se levantar da cama e caminhar em direção à janela. O dia está bonito. Que tal passearmos? Há uma padaria perto daqui. Estive lá dia desses e gostei. Não quer conhecer o lugar? Ele franziu o cenho e, nem um pouco acanhado, disse que todo lugar era igual. É isto, Virgínia. Esta padaria da qual você me conta é igual a qualquer padaria. Você é quem a está tornando diferente porque a enxerga diferente. A diferença está no seu modo de ver. Virgínia balançou a cabeça, como se fizesse ironia do que ele havia dito, e acendeu um cigarro. Entendo o que diz dos doces. É como este cigarro. Já fumei tantos que não há sentido algum. No entanto, continuo fumando. Devo ser burra mesmo. Errando em cima do erro. Apagando o que já foi apagado. Não é burrice, Virgínia. É busca. Você está buscando sentir. Embora não admita, você se sente como eu. Estamos dormentes. A mulher concordou e largou a questão:

─ E o que faremos, então?

Ele sorriu e disse:

─ Nada. Ficaremos na cama a olhar pela janela. O dia continuará bonito. A padaria será um destino ainda não cumprido. E não pense que isto é desperdício de vida. É apenas o princípio.










2 comentários:

Luis Eme disse...

O dia podia estar bonito até no quarto, mas não com esses dois que inventaste, Letícia. :)

Luis disse...

Anda ficar na cama.

Chega-me. Se lá estiver a cintura e o olhar.