28 janeiro 2015

vitalícia









Chorando por amor? Faça não. Chore pela conta de luz, que veio estourada de consumo algum. Ou chore pelas criancinhas. Mas cada um tem seus motivos. Cada um chora pelo que lhe dói. Cada um é um sujeito egoísta, que lambe as mãos dos que lhe podem trazer benefício. Votei errado e agora pago. Quanto? Tudo. É um assalto. Lágrima seca no canto dos olhos. Na tevê, big brother não faz efeito. Mas há quem acredite que a tenda do circo é verdadeira, e não mero artifício para imbecilizar sentidos. Não assisto. Do controle remoto, faço uso vitalício. Pulo canais em busca de algo que afague. Alma cansada e mente irada. Padeço de raiva. Minha ira, esta que explode, é benevolente. Cura até dor de dente. Acredite. De ambíguo, estou até o talo de minha paciência. Leio tudo e ainda duvido. Ou creio. Use o verbo que quiser. Vejo pessoas cultas, muito mais que extraordinárias, citarem ancestrais em seus círculos. Pessoas que adoram o passado, mas que enchem de produtos dietéticos suas geladeiras. Barroco, Rococó — Espie só como esta técnica lhe cai bem. Romantismo que não liberta. Ostracismo que causa inveja. Esta é a dieta. Falam em bibliotecas para escolas, mas veja bem para quem escrevem. Concursos, críticos, anarquistas conversadores do século retrasado. De All Star e jeans rasgados eles marcham. E em mim ainda habitam sorridentes as duas velhinhas fofoqueiras que falam mal de todos mesmo que estejam de joelhos dentro da santa igreja. 










23 janeiro 2015

misérias mínimas









O perfeccionista é o último a lavar as mãos.

(Flora Conduta)






Virginia Woolf está me matando. De página em página, caio em receios mais tensos que meus desejos intrigados. Perco peso e senso de direção quando leio Ao Farol, narrativa cujos personagens morrem e renascem ao ir e vir de barcos e ondas que o tempo engole. Lily Briscoe já envelheceu e rejuvenesceu mais de muitas vezes. Na contracapa alguém diz que se trata de uma obra super prima da literatura. O super é meu. O resto, é coisa de editora. Não sei de todas as coisas, mas, das poucas que sei, me atrevo a dizer que sei muito. E digo, com a cara de pau típica com a qual atravesso a rua, que estou estranha. Aranha de vulva vulgar. Trapaceio o medo ao arrancar da ferida sua casca. Esta é a dor. Enfrente-a. Não curto oblíquos e canso muito fácil de gente que fala muito. Outro dia, em um hotel, fugi da camareira. Percebi que ela iria entrar em alguma conversa. Talvez falasse dos filhos, da família, do gás de cozinha. E a culpa foi toda minha. A mulher estava séria e calada, até que eu, a impostora de mim mesma, abri meu sorriso de gentilezas. Este é o perigo. Não quer ouvir, tente não falar. Burra! A camareira fez seu trato com a linguagem falada e narrou parte de seu dia. Eu a ouvi como quem espera por um ônibus enquanto conversa com algum estranho. Usei muito sim e muito eu entendo. Só que, de verdade, eu não entendo nada. Não sei de misérias mínimas e pouco me adentro no máximo das aflições. Vou rasteira em tudo que vivo. Pois, de uns tempos pra cá, nos profundos eu não respiro. E quanto ao livro, irei terminar.












16 janeiro 2015

sol, névoa e algum verão









Verão. Faz sol. Mais que chuva. E venho por meio deste (texto?) falar de um livro. Ano passado estive ausente de minhas crônicas porque senti necessidade de escrever algo que se alargasse em tamanho. Embora existam contos mais longos que novelas ou outros gêneros textuais, eu quis escrever um romance. Talvez eu tenha sido atacada pela vaidade máxima que se apodera de alguns autores. Ou talvez tenha sido por uma vontade simples; como ir ao cinema ou molhar as plantas. É isto. Eu escrevi um romance porque senti vontade de molhar as plantas. A diferença está na elaboração da tarefa. Mas não irei falar sobre escrever romances ou dar dicas e cometer o pecado de dizer que foi fácil ou difícil. Apenas foi. Por alguns dias, me sentei por duas horas ou mais, e me deixei levar por uma história simples, mas que precisava ser contada. Um personagem crescia diante do outro, um conflito surgia a cada passo em que eu me deixava contar o que estava para acontecer. Não foi truque de mágica ou genialidade. Eu quis contar a história que intitulei de Sol e Névoa. E, em minha busca incansável por disciplina, pois sinto dificuldade extrema de seguir comandos ou regras, precisei, para escrever este livro, camuflar minha própria preguiça e deixar que enunciados fluíssem, que o enredo se estendesse além de minha vontade de cortá-lo (por pressa e imaturidade como autora). Então, foi em 2014. Surgiram personagens e tentei, com todo cuidado, moldá-los ao que a história pedia. Mas será que história pede alguma coisa? Será que escrever é mais ato mecânico do que intuitivo? Estas perguntas me perseguem. Porém, não mais que a vontade de escrever e criar, no íntimo de nossos dias, algo que seja lido. Não escrevo para mim mesma. Escrevo para um leitor, que pode ou não gostar do que lê. Mas é só desta forma que o círculo se completa. Só molhamos as plantas que existem. Comparação estranha esta. Mas é isto. Sol e Névoa é romance de beijo na boca e canções. O enredo ocorre assim como correm os dias. Não há terceiras intenções. Mas há segundas, que só virão à tona ao virar das páginas, sob o desassossego admirável de cada linha.






Sol e Névoa, romance publicado em 2015, pela Editora Penalux.
Autora: Letícia Palmeira (uma mulher comum)

Caso queira saber mais do escrito, clique AQUI.
Para adquirir o livro, há o site da editora.







Aos leitores e amigos, minha gratidão.
Sempre.