12 abril 2015

aos domingos








Tentarei escrever aos domingos. Digo que tentarei, pois escrever é sempre uma tentativa. Ou talvez seja um ato meramente impulsivo. Uma vontade de ser visto. Que seja. Acordo e dou de cara com a política nos ouvidos. Não posso dizer que não me importo. Eu me importo. E de uma forma tão imensa que sequer opino. Tenho medo de dar com a língua nos dentes. Estamos em tempos de perseguição. Tudo o que você diz pode e será usado contra você. E ainda falam em ditadura militar. Meu país é barco náufrago. Percebi isto ao fazer as unhas. A cada unha pintada, uma dor pacífica se instalava em mim. Eu convivo com ela sempre. Uma dor que não é aguda ou grave. É dor. Vejo cenas na TV. Reclamo muito dos canais. Porém, não me desato deles. Sou a pior viciada que há. Não acredito na rede globo e também não acredito naqueles que gritam contra ela. Para mim, é tudo vontade de chamar atenção. Neste tempo, de barcos náufragos, todos querem atenção para si. Talvez, por esta razão, tantas pessoas morem sozinhas em apartamentos lotados de móveis sem uso. Eu tenho um aparador que não apara nada. Não moro em apartamento, mas tenho coisas das quais não faço uso devido. Tenho um baú no qual eu guardo um abajur de cúpula marrom. Veja só. Um baú deveria comportar muitas coisas. No entanto, o meu só comporta um abajur. O baú e o abajur. A escuridão e a luz. Eu deveria usar o baú para guardar outras coisas e dar uma chance de existência ao abajur. Ou talvez eu devesse dá-lo de presente. Tome este abajur. Faça com que ele exista. Mas não. Mantenho o objeto estagnado dentro de um baú. Sou desumana com todas as coisas. Aliás, há um exceção. Eu não sou desumana com meu filho. E ele não é coisa. Ele é nome e pessoa. Do ventre, minha obra de arte. Acerca do pai? Não gosto de citar meus segredos. São meus. E a ninguém darei a chance de conhecê-los.











09 abril 2015

gatilho









Fito as mãos. Linhas e curvas de calo nenhum. No céu pardo de fim da tarde, pássaros trafegam em busca de um lugar para passar a noite. Pássaros descansam tanto quanto voam. Duas lagartixas lutam por um sapo. Persigo a luta, enquanto o rádio exige minha atenção. Não dou ouvidos. Quero música. E, se possível, outro trago de um cálice que nunca irá me calar. Ou irá? Um homem corta os galhos de uma árvore que despenca no fim da rua. A vida é nua. Rima estúpida. Eu costumava adorar cartas e isto não é segredo. É remendo. Algo que digo para a conversa não talhar. Cruzo as pernas em gesto exuberante. Tão prepotente quanto entediante, ele se torna ruína de um tempo no qual vivemos juntos. Fala de sexo. A sanguessuga conta mais do que escuta. Elogios ao vapor da pele. Esfriei há tempos. De concubina crônica, me tornei santa. Monossilábica e apartada, roupa separada para lavagem a seco. Quebro o gelo e falo da crise. Quantas virão? Ainda lembro, ele diz. Acostumados aos cães que ladram, estamos cansados. Admitimos. Anoitece e o mesmo teor de frieza me aquece. Uma dor vazia de motivo se acumula em nossas retinas. Não temos vergonha. Temos algum dinheiro que não pagará por nossa indelicada mania de fingimento. Sem ar, eu puxo o gatilho. Pergunto, de súbito, o que mais o incomoda. Ele faz listas. Governo, falta de fé, frustração e medo. E afirma, em voz alta, que se isto não nos afeta, logo nos afetará. Ele ri, e com as mãos entre os joelhos, unidas em prece, admite o quanto sente medo. E é neste momento único que entendo. Além de recíprocos, somos grotescos. Choramos pelo fim para valorizar o começo.










Nota


Escrever um blog em tempos de e-book, twitter e facebook é como ser vegetariano em terra de carnívoros. É preciso ser muito insistente. Coisa que não sou. No entanto, de vez em quando, me desobedeço. Aos leitores do afeto literário, aviso que tenho estado mais voltada ao silêncio (me refiro ao escrever em silêncio). Escrevo todos os dias. Como sou antiga (do tipo que ainda prefere o manuscrito), tenho escrito histórias que me pedem mais tempo para reler e editar. Algumas talvez eu publique. Outras irão para o limbo. Para o meu próprio esquecimento. No mais, publicarei vez ou outra. Como hoje, por exemplo. Algo simples, ameno e de amor, que fala disto e daquilo e que, por mais real que me venha, é ficção.


(agradeço sempre)