02 maio 2015

letra escarlate








Clássico da Literatura. A letra Escarlate. Hawthorne. Li quando cursava Letras. Entre uma aula e outra, eu me isolava de tudo, sentava em um daqueles bancos cercados de gatos da Praça da Alegria, e lia. Só. Depois disso, eu voltava para a sala de aula (ou não), ouvia algumas teorias, redigia resenhas e olhava pela janela. Hoje, após ter me formado professora, ainda olho pela janela. E o que vejo é o trem que passa. Vejo pessoas cruzarem os trilhos sujos a caminho do trabalho e alguns adolescentes ficam lá, sentados perto da estação de trem como quem espera nada. Algumas pessoas simplesmente não esperam nada. E isto é comum. Talvez seja proteção. Ou excesso de ignorância. Não sei. Por falar em esperar, prometi livros a um amigo que mora em Portugal. Ainda não enviei. Isto me enche de culpa. Porém, também me faz sentir bem. Pois é motivo para continuar acreditando que terei algo para fazer amanhã. Ou depois. Dizem que livro é como filho. Eu digo que não. Livro não precisa de abraço, de amor, de colo, de comida, de casa, de plano de saúde, de escola, de roupa, de sapato, de conversa, de luz acesa noite inteira para que monstros não surjam no quarto em que dorme o filho. Livro precisa de leitor que, por sua vez, precisa das mesmas coisas das quais um filho precisa. Logo, leitor é como filho. Não gosto de dizer que pari um livro. Embora muitos se refiram a escritos desta forma, dizendo que pariu filho e que ele já está na praça, prefiro dizer que livro é livro. Coisa de se ler. E sempre que o abrimos, encaramos conceitos. Livro bom, livro ruim, livro escrito por homem, livro escrito por mulher. São muitos. Por esta razão, talvez seja preciso largar a ideia primária de conceito e abrir um livro como quem abre um baú à espera de algum segredo. Esqueça o gênero. Estou pagando pecados por ter nascido mulher e, mais que tudo, por escrever. Não sou Hester Prynne (longe de mim querer ser), mas me assemelho. Carrego um cartaz que diz: autora de livros. No entanto, preciso me defender e dizer que vou ao banheiro todos os dias, sinto remorso, não vivo com a cabeça na lua e fico doente. Sou humana. Parece antigo tocar neste assunto, mas acontece. Há tanto machismo na literatura quanto nas ruas nas quais transitam belas moças de saia curta. É isto. Hoje eu só queria dizer estas palavras. E outras. Porém, prefiro guardá-las. Feliz e acontecida, enfrentando meus dragões, escrevo com o mesmo afeto com o qual beijo, desenfreada de amor.