14 junho 2015

ponto cego









É correria demais. Vou deixar a palavra correr sem que eu pense sobre todas as coisas. Vou deixar solta a corrente que trava, de tal maneira, a gente que sou. Prisioneira de espaço comum.






Eu tenho uma agenda na qual só escrevo quando vou ao médico. Faço isto para fatiar o que penso. Para não causar confusão, muito embora escrever seja um ato confuso de observação e silêncio. Mas, voltando. Consultório médico tem algo de partida e chegada. Sempre que vou a uma consulta, sinto que algo novo está para me visitar. Algo que, às vezes, vem de outras pessoas e não somente de mim. Semana passada (não uso datas para não prender a narrativa em um canto único), fui ao médico e tive a chance de sentar-me ao lado de um moça muito agradável em seus modos e sorriso. Percebi que ela estava aflita e ansiosa à espera do resultado do exame que havia feito. Mas, mesmo assim, trocou algumas palavras comigo. Falamos da novela que estava passando na TV. Falamos dos atores. Das atrizes. Elogiamos cortes de cabelo, roupas e criticamos a programação para crianças. Questionamos a maneira como notícias abusam da tristeza alheia e também do tom sarcástico que alguns apresentadores possuem ao noticiarem acerca de política. A recepcionista do local também entrou na conversa. De repente, a novela não era mais novela. Era nossa vida, com seus altos e baixos, com suas cenas sem graça e seus amores opacos. Amor é sempre um tema que rende (tanto em conversa quanto em escrito). Falamos muito, a moça que esperava o exame, a recepcionista e eu. Admito que meus pensamentos estavam presos em mim mesma. Eu estava um pouco tensa por estar ali. Eu falava com outras pessoas, mas me deixava flutuar para minha bolha de preocupações excêntricas. Era como estar presa. E a conversa continuou até o momento em que a moça de sorriso calmo recebeu seu exame, disse até logo e partiu. Continuei conversando com a recepcionista, falando disto e daquilo, quando outra paciente se voltou para mim e perguntou se a moça que acabara de sair aparentava estar triste. Eu disse que não. A mulher continuou sua fala e disse que a moça de sorriso calmo estava preocupada porque o médico não havia conseguido ouvir os batimentos cardíacos do bebê que ela estava esperando. Neste momento, minha bolha de excentricidades se rompeu em pequenas partículas de vergonha e compaixão. É preciso ser o outro, pensei. De vez em quando.








08 junho 2015

das horas displicentes









Laço de fita


Percebi que estava tão atenta em ser nó que cheguei a me perder. Profunda e difusa, eu nunca fui muito boa em me compreender mesmo. Sequer me espantei com a descoberta. Ao passar por uma vastidão de acontecimentos, fui me deixando ser nó. Doida que não se entende. Eu me vesti nó de marinheiro, pois não queria ser vista. Muito menos comprometida com o entendimento alheio. Respondia tudo de forma ágil ou irônica para fugir de todo questionamento. Eu quis ser difícil, complicada, inegavelmente esfinge. Porém, foi nesta tentativa de ser nó que ninguém desata, que me percebi laço. E de fita. Daquele que enfeita de forma ingênua os cabelos da menina.




Teodora


Teodora está feliz. Toquem os sinos. Teodora está sorrindo. Mesmo que seu pequeno corpo esteja rígido e sem vida, Teodora continua. Entendam. Somente agora, que não mais se move, Teodora gesticula.




Das horas displicentes


Em um pequeno saco de lixo, as cartas. Rasguei todas elas noite passada. Sexo para complementar dieta. Visão turva. Cega de luz ao dia. Deixo-me ir e vir. E sem convite, pois sou elite. Vendo-me por tão pouco. Acredite. Boca cheia de novidades simples. Sou loja e mudei a cor das vitrines. Atriz que muda o cenário para mudar amor. Camaleão de cores várias. Tão leve quanto o peso da navalha estou. O corpo ancorado ao meu. Eu não sou seu, ele diz. O brinquedo grita. O sorriso, de uma alvura malvada, me enche de pensamentos. Uma tatuagem lhe enfeita o braço. Tão belo o diabo. E muito embora isto entre nós não faça o menor sentido, ao menos poderemos dizer o quanto o desenho ficou bonito.