19 julho 2015

imaginários







Talvez seja isto. Querer tanto algo e, ao perceber que não se poder possuir, este algo se torne seu. Em algum lugar que ninguém possa descobrir, você o possui. Em sonho. Em imaginário. Você possui algo. O alvo que causou noites de insônia, depressões, arrepios e dormência nas mãos. Apenas ter. E sentir-se vitorioso. No silêncio e solidão. Você, ao lado daquilo que possui. Já não se pode ter conversas sinceras com ninguém, pois todos sabem o que dizer. Todos respondem. Todos dizem o que pensam. Ninguém se atreve a calar a boca. E isto é perigoso. O silêncio da resposta não vinda é o que nos faz alimentar nossa curiosidade, nossa busca por aprendizagem. Há tempos não ouço Eu Não Sei como resposta. Se digo algo de política, recebo resposta. Se menciono coisas sobre astrologia, recebo respostas agudas, sejam de crítica, sejam de mera constatação. Todos sabem de tudo. Falam muito de apocalipse, de guerras, de crimes, de sexo, de escolha, de filho e adoção. Todos dizem tudo e me pergunto: o que mais me resta fazer se todas as respostas já existem? Estou a ver navios. Porque admito que não saber da metade das coisas que os outros sabem. Respondo: Não sei. E o olhar medonho se forma na cara da criatura que me escuta. Percebo o quanto sou ingênua por não saber. E tanto me orgulho. Dizer que não se sabe de algo é como carregar peso algum. Vejo o clima que está se formando. A Europa se expande em mapa na parede do quarto. Não entendo as linhas que cruzam países. São invisíveis. Assim como é invisível o assunto do qual nada digo a respeito. Porém, ele existe. Nada posso contra isto. As unhas crescidas demais e os cabelos lavados em água quente. Não há poema que liberte mais do que o silêncio. E dois comprimidos à noite para dormir tal qual um anjo delinquente. Por gentileza, vide o verso de meus labores antecedentes.










03 julho 2015

carta de amor








Já tentou escrever sem a estúpida pretensão de ser lido? Eu nunca me atrevi. Mas hoje abandono o remo. E não premedito alvo ou sacrifício. Como o padre que prega a culpa no pecado alheio, eu escrevo. Que se danem o começo, o fim e o meio. 







Olá. Sou eu. Sei que não irá receber tal carta, pois eu não a enviarei. Já fiz isto outras vezes. É um bom exercício para o silêncio. Escrever sem a obrigatoriedade da leitura do outro é como andar nu. Então, falo aos quatro ventos tudo o que preciso. De primeira, já com a voz rouca de tão calada, digo que meu amor voltou. Não sabia que isto acontecia até sofrer tal efeito. Amor volta com o tempo. Ou talvez eu nunca o tenha deixado de sentir. Eu simplesmente escondi. É até fácil. Ensino como fiz. Fingi estar muito ocupada, trabalhando sem pausa, cheia de contratempos, e tudo isso para evitar a convivência. Você, com suas músicas e delinquências, que sequer combinam com a idade, me causavam náuseas náuticas de um amor singular. Toda aquela história de que eu poderia ter dado minha vida em troca da sua... é tudo verdade. Embora eu nunca tenha dito, fica aqui em escrito. Eu teria dado minha vida. Porém, como eu já deixei exposto, fugi. Aliás, fingi. Peito amigo de fazer chorar mágoa. Eu era isto. E também as mãos que tocavam as suas em tempos de miséria. Quando você não tinha ninguém ao seu lado, eu estava lá para assoprar as velas. Era mais que amor isto. Era suicídio. Me mantive estátua de fazer sombra para que o sol queimasse brando sua têmpora. Escondi bilhetes que eu escrevia, na inquietação de todo dia; eu queria que você os lesse. E depois não queria mais. Eu me afogava de vergonha. Pois, não havia espaço para o que eu sentia em suas agonias de ir e vir em busca de pessoas que não mereciam sua atenção. Mas quem sou eu para medir isto? Talvez merecessem. Talvez fossem boa gente as pessoas. E, mais que talvez, seja você o Judas por quem tanto lamentei. Havia mais que espaço em mim para seus braços e coisas. Havia mesa pronta. Havia, em minha boca, que é doce de toda melodia, voz e quietude para todo o tempo. Havia roupa pronta para viagem acaso você precisasse. Havia olhar sincero de companheirismo e cuidado mais que atento. Eu me deixava ir em seu andar altivo de quem se sente completo. Mas, que no fundo, não estava completo em nada. Você estava sempre aos cacos. Eu apenas apoiava sua mentira de dizer que estava bem sozinho, com seus egos múltiplos e masculinos. Eu ria de achar engraçada a forma como você se perdia. E, tanto quanto ria, também chorava quando você se despedia, dizendo que voltava. A gente quase sempre espera. No entanto, de súbito nos vem o dia de deixar de esperar. Não que eu tenha me cansado. Entenda. Eu ainda o aceitaria. De verdade. Toda pronta e afetuosa. Mas acredito que eu tenha perdido o jeito pra essa coisa de amar sujeito que não sabe de si, nem do mundo que o abarca. Ainda amo com toda glória e raiva. E deixo aqui, em tinta azul, o que sinto e não demonstro. O que enxergo e não aponto. Do final o ameno ponto.