08 novembro 2015

brinquedo de corda











Concordo com você. Eu também não gostaria de me ver assim, tão calma e complacente, tão viva e tão calada, mascando chiclete sem conversas absurdas para jogar fora. Seria enjoativa a imagem que de mim agora é estandarte. À primeira vista, não preciso ser consertada. Sequer julgo a vida em minha velha forma contrariada de me revoltar. Estou plena flor de primavera, brotando em cantos que só a mim pertencem. Digo que estou transformada. Não sou mais como costumava. A esfomeada que comia apressada, que tapava o sol com peneiras, hoje se alegra ao ver a chuva molhar a terra e minha cara de paz que não se anuncia, pois nada é preciso declarar. Concordo de verdade. Tornei-me tédio e obviedade, e você não iria querer me olhar. Pois quando eu era tormento e suicídio, o espetáculo era digno de aplauso. Eu despertava obscenidades para doar carne aos homens de vaidade exposta e falso pudor. Eu era circo e festa cheia de gente que sorria enquanto se apunhalava. Tão inconstante quanto encrencada, eu era brinquedo de corda que assumia o risco da desobediência para merecer amor como misericórdia. E eu ainda mentia ao dizer que amava e me cuidava. Eu era uma praga de tão ruim. Em clara sinceridade, admito ser mais divertido vislumbrar o caos a observar lago tranquilo. Por isto, concordo com você. Eu também não gostaria de me ver assim, tão feita de silêncio e riso, de rubores precisos e horas para meditar. No entanto, discordo apenas em um ponto. Não me deixo enganar por minha falta de urgência. Pois na pandora em qual me guardo há segredos e mistérios vastos que sua face não iria conter. Eu entendo você que, nesta hora, de provocar o erro para esmerar o drama, não sente falta da conversa pacífica que teríamos, dos beijos santos e das mãos unidas que nos bastariam. Eu também me deixaria sofrer. Eu teria agido exatamente como você.