13 dezembro 2015

a olho nu







De uma coisa tenho certeza:
Que bom estar errada em algum momento!
Esta é a liberdade maior. 




Dizem que publicar livro é como ter um filho. Bem, eu nunca concordei com isto. Mas devo admitir que, sempre que alguém chega pra mim e diz que este ou aquele é meu melhor livro, sinto tristeza pelos outros filhos. Não consigo ditar favoritos. É tudo livro. Também não posso afirmar isto. Pois há responsabilidade demais no ato de escrever. Seja o gênero que for, escrever é exposição, é julgamento, é tratar de assuntos que podem ou não ser levados a sério. Escrever é mais que contar história. Diante destas pequenas descobertas que fiz, e sequer tenho consciência se elas são de verdade ou apenas criação minha, passei a pisar em ovos. Eu me prendi. Falo pouco para não ser vista. A gente se expõe quando escreve. Não há outra conversa. A não ser que se trate o escrito de forma tão técnica, que o humano desapareça. Eu nunca vi isto em autor algum. Muito embora conheça poucos autores em pessoa, dos que sei, eu os vejo caminhando em seus livros. Ora uma pessoa que passa no cenário, ora uma sentença ou espasmo, ora uma situação vivida. Estão quase todos ali, acordados e tímidos. Ou exibidos. Há sempre o outro lado da história, na qual o autor se deixa a olho nu. Quando me pedem conselhos sobre escrever, algo que raramente ocorre, digo apenas que se escreva. Porque não sei mesmo o que dizer. Antes eu julgava saber. Eu aconselhava tudo, desde a forma de adestrar palavra, ao tema que se abordava, eu dizia minhas bobagens. Hoje eu não digo muita coisa. Elogio quando gosto de algo que leio e, quando não gosto, elogio do mesmo jeito. Quem sou eu para julgar? Tenho visto tanta vaidade entre escritores que já pensei em mudar de rumo. Pois, embora eu seja vaidosa, não tenho tato para me achar diferente, a máxima eloquente, a voz maior dentre os vulgares. Há tanto grito no meio literário que qualquer suspiro pode ser considerado feio, mal escrito, coisa de metido que nunca escreveu. Não é fácil ser escritor. Aliás, não deveria mesmo ser. Autores se encarregam disto. De riso na boca, tão engolidores de espadas, estão sempre certos. Sempre eretos e dignos. Autores estão sempre com a razão. E fazem propaganda do que escrevem como se fosse horário nobre da televisão. Meu conselho a quem escreve? Sinceramente? Cuidado com os degraus ao pisar e não olhar para o chão.









12 dezembro 2015

o princípio







Segurando a cintura de Virgínia, com as mãos de não tocar muito, ele admitiu estar distante. Olhou pela janela, que a vista era muito bonita para ser perdida, soltou o ar que prendia, virando o rosto para que a mulher não percebesse seu desânimo. Você está deprimido? Não estou deprimido. Não tenho tempo para estar deprimido. Seria até pecado estar deprimido. Não tenho motivos. Virgínia recuou do beijo que daria, pensando que, talvez, beijar não fosse a melhor resposta para o amante que se lamentava. Sentiu que não queria ajudá-lo. Não há cura para isto que sinto, Virgínia. Já me dei por vencido. Ela perguntou, em tom de quem não se preocupa, o que seria isto que ele sentia e que, tão convencido, declarava não haver cura. Não sei. É como comer muitos doces, saborear todos e, no fim das contas, não sentir mais o doce. Pois o doce, comido em excesso, perdeu o sentido. Sua essência. O doce tornou-se outra coisa. E não me pergunte o que seria o doce, pois não sei sabotar respostas. Vou acabar ferindo você, Virgínia. Então, não me diga, respondeu a mulher, ao se levantar da cama e caminhar em direção à janela. O dia está bonito. Que tal passearmos? Há uma padaria perto daqui. Estive lá dia desses e gostei. Não quer conhecer o lugar? Ele franziu o cenho e, nem um pouco acanhado, disse que todo lugar era igual. É isto, Virgínia. Esta padaria da qual você me conta é igual a qualquer padaria. Você é quem a está tornando diferente porque a enxerga diferente. A diferença está no seu modo de ver. Virgínia balançou a cabeça, como se fizesse ironia do que ele havia dito, e acendeu um cigarro. Entendo o que diz dos doces. É como este cigarro. Já fumei tantos que não há sentido algum. No entanto, continuo fumando. Devo ser burra mesmo. Errando em cima do erro. Apagando o que já foi apagado. Não é burrice, Virgínia. É busca. Você está buscando sentir. Embora não admita, você se sente como eu. Estamos dormentes. A mulher concordou e largou a questão:

─ E o que faremos, então?

Ele sorriu e disse:

─ Nada. Ficaremos na cama a olhar pela janela. O dia continuará bonito. A padaria será um destino ainda não cumprido. E não pense que isto é desperdício de vida. É apenas o princípio.










03 dezembro 2015

interminável assédio







Às vezes, nos preocupamos tanto em dar satisfações que nos esquecemos de nos satisfazer. Vou escrever curto. Como um surto. Roubo do acaso. Coisa que se quer dizer, mas que nunca se diz. Deixei de acreditar nisto. Nesta coisa de inferno astral. Agora só acredito em números exatos e palavras escritas, que não são fugidias, visto suas dimensões no papel. País em crise e dizem: há golpe. De direita ou esquerda? E quando daremos a outra face? Pergunto ao homem que pressiona botões no elevador. São estes os diálogos mais verdadeiros. Estes que são ausentes de interesse ou vaidade. Toda coisa dita sem ensaio é a coisa real e explícita. O homem desce. O elevador fica vazio. Somente eu e o espelho nos observamos. Lembro-me do amor que sentia. Amor por tudo. Hoje, não sinto. O sol secou o sentido de meus afetos. Chego, enfim, ao andar que é destino, assino papéis e que bobagem me importar com o que sinto. E ainda há esta mania de relatar minha vida para estranhos. Eu começo, sentada em poltrona vermelha, e muito besta acreditando que irei mentir. Primeiro digo que respeito a faixa de pedestres. E acrescento: respeito pessoas também. Não todas, ouso admitir. Respeito pessoas que mal conheço. E, quanto as que conheço, juro amor e nunca apareço. Um lenço para fingir que se está chorando. Tão ruim quanto remédio obrigatório, em gotas, me faço suportar. Disto eu me acerto. Entende? Destes problemas que escondo. Me acerto ─ em cheio. Meu delito maior, me acredite, é dizer que tenho tempo, quando, de fato, nem relógios eu aguento. O despertador é o único que está sempre correto. Ele me sacode da cama. Tão enérgico. É interminável o assédio. Eu acordo como quem morre. Nua e deplorável. Egoísta e esgotada. Na contramão da obediência. Exploro e analiso segredos alheios, e me darei ao favor de usá-los em meu próximo ato. Jogarei tudo fora em conversas que nada rendem. Como estas conversas que travamos em elevadores ou coletivos, para passar o tempo que passa. Conversas que nada me fazem sentir. Será esta a inquietude que assalta todos? Se meus amigos sofrem? Amigos se refazem. Amigos são efêmeros. Amigos? À merda. Sou bastante gentil e pago tudo em dia. Mesmo quando meu humor é ácido bactericida, sou alegrinha flor cheia de vida. E minha vingança nunca é tardia. O único passo em falso é a preguiça. De resto, sou mera ilustração de cartilha.