31 dezembro 2016

a véspera do passado








Lembra quando era véspera de ano novo e a gente escrevia carta pedindo coisa boa para o ano que viria? Eu lembro bem. Tinha o costume de escrever carta e listar meus planos. E era sempre no último dia do ano. Depois de escrita a carta, eu a guardava em um lugar secreto. Minha ingenuidade era a coisa mais bonita do mundo. À noite, em ritual, fazíamos festa em família. Às vezes era bom. Às vezes era ruim. Havia tempo bom de festa boa, no qual todo mundo estava em harmonia. Mas família, como se sabe, é artefato complicado. Há farpas e faíscas. Quando as festas eram boas havia sempre alguém que bebia demais, outro alguém que prometia que iria se casar no ano novo e a gente passava a noite em claro. Era muito bom. As crianças todas na rua, as casas abertas. Tudo iluminado. Ninguém sentia medo. Ninguém se sentia mal. Mas será que estou certa? Era mesmo tudo perfeito assim? Não sei dizer. Mas acredito que era essa a vida no passado. Todo mundo mais feliz. Hoje a gente está com medo demais. Hoje a gente está ferido e encolhido. Tanto que, falar em esperança e tempo novo, parece coisa de gente boba. E eu tenho medo de parecer boba. Por isso finjo que não acredito em coisas boas. Por isso digo que tanto faz se estiver feliz ou triste. Tenho tanto medo de parecer boba que minto ao dizer que não acredito em recomeços. Mas quer saber? Sou boba mesmo. E a prova disso está nas palavras nas quais me deixo ver. 





Feliz Ano Novo!

(Com amor)







Imagem

25 dezembro 2016

observatório









Coloquei, de enfeite, um boneco de Papai Noel em cima do aparelho de som. Boneco de pano. Não faz nada. Nem emite sons quando pressiono seu peito. Algumas pessoas são assim. Não emitem sons. E por vontade própria. Porém, quando emitem, Meu Deus, como teria sido melhor se tivessem ficado caladas! Voz não é coisa de todo mundo. Nem palavra. Gesticule, na dúvida. Mas não fale nada se for para dizer bobagem ou estragar festa que não é sua. O boneco do Papai Noel é elegante. Ele não me atrapalha a vida. Ele não se mete comigo e eu não me meto com ele. Isso é respeito. Companheirismo que em casamento se dá. Tento respeitar todo mundo. Tanto os conhecidos, quanto os inapropriados que surgem. Elogio quando acredito ser preciso o fino tom. E minha crítica, embora digam ser ácida, vive de chá de camomila e florais. Minha crítica tem 40 anos nas costas, nos dedos, olhos e corpo inteiro. Ela sabe se comportar. O ruim ocorre quando ela decide agir por conta própria e sai falando a torto e direito. Quando me acontece de perder controle de minha crítica, me tranco. Volto ao aquário. Fico de cara colada no vidro, o peixe colorido, observando o mundo vulgar. Assim como o boneco de pano que enfeita a caixa de som, quando me excedo, viro enfeite. E ajo conforme demanda. Não esbravejo e não causo encrenca. Quando preciso calar, escrevo.









04 dezembro 2016

pedra polida












O vizinho bate à porta. Deveria me sentir grata por ter onde morar. Por ter um teto que me cubra. Calo. Sorrio para o homem que aparenta ter a idade de meu pai. Fui educada e polida de tal forma que não destrato ninguém. Agradeço até pontapé. O homem reclama da árvore.

— Percebe como está soltando folhas?

Respondo sorridente. E guardo para mim a segunda opinião. A verdade que é minha. Pois não me importam as folhas que caem da árvore. Minhas preocupações são outras. Mas nada explicarei ao vizinho que aparenta ter a idade de meu pai. Invento uma desculpa e digo que cuidarei de podar a coitada da planta presa pelo concreto que cerca o jardim.

— A senhora há de entender.

Entendo tudo. Porém, não digo. Tenho preguiça de dizer o que penso. Por isso, escrevo. E não diria ao vizinho que estava ocupada escrevendo. O homem, que aparenta ter a idade de meu pai, não entenderia a importância de escrever. Não há importância em escrever. Que inútil, diria o vizinho. E eu concordaria. Tenho mania de concordar com o que discordo.

— Espero que tome providências!

Tomarei vinho. Isso sim. E ficarei sob a árvore, me deixando tocar pelas folhas que caem. Me deixarei quieta, sentindo o áspero de cada folha em minha pele de mulher educada e polida que agradece até pontapé. Eu deveria mesmo ser grata por ter ainda as mãos livres e a honrosa permissão para escrever.














29 novembro 2016

o agudo do isolamento








Bom dia! Cigarro aceso e xícara de café. Tudo faz mal. Inclusive, não fazer nada. Então, façamos! Vamos jogar a culpa no outro? Já decidi. Eu vou bancar existencialismo quando, para ser sincera, sou mais prática que um carteiro, pulando casas para adiantar o trabalho dos Correios. Estive ocupada organizando uma antologia de contos escritos por mulheres paraibanas. O título da obra é Ventre Urbano. Saboreio o resultado de dois meses de trabalho, de correria, de catar espaço na grande galeria de eventos. Tudo acontece a seu tempo. Logo, eu me aconteço. Este é o meu tempo. Perdoe meu silêncio. O agudo do isolamento. Mas confirmo que, cara a cara, converso mais que velha solitária ao rever amigos. Ou velho. Solitários não tem gênero. O que lhes coloca em uma só categoria é a solidão, seja por escolha, seja por falta dela. Não me compadeço dos solitários.

São felizardos.

Até certo ponto.

Tudo tem limite.

O mundo continua me roubando horas. Culpa minha porque permito. Eu poderia ficar inerte e deixar a vida acontecer sem que minhas mãos tratem de moldar a argila que nos fragmenta. Porém, sou intrometida. Estou metida em tudo até o pescoço. Falo, exagero, calo, subtraio, exijo, disfarço. Sigo sedenta por água que falta. Mas se está em falta, entenda, eu não deveria ficar sedenta. Deveria, de verdade, tratar das coisas que posso. Tirar poeira dos retratos, escrever histórias, amenizar meus dramas e congelar amores até que eu esteja pronta para vivê-los. Mas quer saber? Eu vivo tudo. Minha alma racional faz planos que curto, engulo e solto. Sempre a favor do vento.








Aos interessados na antologia Ventre Urbano, cliquem na capa!
Em breve, publicarei algo sobre a antologia.





31 outubro 2016

fúria









Para qual batalha
me preparam os homens despojados?
Qual embate infeliz
irá manchar minhas mãos?

A solidão,
antes perversa a me espiar,
agora é meu desejo
todo feito de amor platônico.

Por que dizem me amar
estes que pretendem masculinizar-se
entre minhas pernas?
Mal sabem!
para estar comigo é preciso
Ódio e Fúria.
Oposto ao cio.

Nada quero das larvas últimas
que alimentam-se de velhas histórias.
Quero o avesso.
O jovem.
E, muito embora não me cause gestação,
é deste amor indiferente que vivo.

Das plásticas palavras
de um discurso bem tecido,
Retiro lustro.
Engulo lixo.
Faço de mim estátua célebre
para a qual deixarei
Minha sombra e memória do que me é ausente.

Pergunto novamente!

Para qual batalha
me preparam os homens despojados?
E por que está a me presentear com flores
O gigante mercenário?





15 outubro 2016

margem










Não quero a obrigação tardia. Hoje, movida de vida e boca a boca, quero o encontro das mãos e pernas. Nada erótico. Quero a profundida do beijo eterno dos cinco minutos passados.

Eu me rendo.

Eu me entrego.

Justo é o passar das horas e minhas esperanças transitam líquidas pelos ponteiros do relógio. Amo com a fome de um pássaro que come aos poucos. Devorada de alegria, me acerto com minhas mágoas intranquilas. Sonolentas, conversam entre si. Eu lhes permito existir. Porém, não lhes permito o palco de meu ser. Não sou mulher de vitórias. Sou simples como a fé que guia os pés dos romeiros que buscam libertação para o sofrimento alheio. Estou sempre à margem da história.












05 outubro 2016

naipe de amantes







Deus


Deus veio me visitar. Sentou-se e esperou que eu lhe contasse algo. Esperou que eu lhe pedisse graças. Porém, ajoelhada como estava, eu apenas o admirei. Em silêncio. Apaixonada.




Sacerdotisa


Sempre acreditei que tivesse poderes de mudar minha vida. Dona de si, eu andava altiva. Até o dia em que ele surgiu. O tal, belo e frequente em minha cama, fez de mim o que a carne não esconde. Eu o amava tanto que pouco me importavam frio e fome. Eu estava inteira. Eu engolia o homem.




Arlequina


Nem era dia dos namorados. Era dia de nada. Comprei presente e o esperei, maquiada, bela e equina. Ao entrar, sorrindo e sem hesitar, ele me questionou: onde é o baile a fantasia?













23 agosto 2016

marluce inquieta












Decidida. Encho a cara de cachaça, caio na rua, beijo lixo e traça e, desapontada, irei à igreja me confessar. Cheia de culpa de nada, pois o mundo é quem me oferece o pecado; o que faço é aceitar. Não sou de negar o fel, o mel, nem as delícias que se expõem aos olhos de minha feição. Direi ao padre, através do cortinado, que apenas matei e roubei porque sou vítima do excesso, do trem possesso que viaja e traga passageiros como boca de engolir cigarro, à baforada o vício indiscreto. Levarei foto de Antônio, o amor que me engoliu, e exaltarei suas habilidades náuticas de tanto que mergulhou em mim. Contarei a história tim-tim por tim-tim. E não esquecerei, prometo, de falar mal de todo aquele que me recusou ouvido. Pois não é segredo que conversa honesta é meu artifício para escapar ilesa do medo e da solidão que se faz próspera em horas inquietas. Na verdade, minha conversa é com deus. Só ele entende o que não precisa entender. E quando abro meu verbo e conto meus pecados, deus ri de gargalhar, e já me revelou em sonho que, de todas as suas crias, sou uma das mais perversas. A fera que se alimenta de si, sou Marluce, e não sofro receios. Meu propósito é viver. Não me basta existir.





17 agosto 2016

embrionária








Faz tempo. Faz sol. Faz noite. Só espero que não se faça o fim entre nós.

(Flora Conduta)





Ouvindo uma canção, enquanto o Brasil tenta ganhar em competição olímpica. A gente só quer ganhar. Perder é coisa de quem não luta. Lembro, de novo, da Elizabeth Bishop e sua Arte de Perder. Eu perco sempre. Já estou acostumada e não me assusto. Perco o trem, perco a hora, perco a chance. Porém, para minha sorte, o tempo me traz boas coisas de volta. O trem passará todo dia. Horas se repetem. E a despeito de meu descuido com minha saúde, ainda estou viva. E sorridente. Já estive muito triste e por muito tempo. Motivo? Amor, eu acho. Já amei tanta gente que não conto para não me tornar deselegante. Amor é confidencial. E quem ama, de verdade, quase não o diz. Duvide sempre do amor em exposição. É ouro falso. E não leve muito a sério meus conselhos. Não sou boa em aconselhar. Sou boa em calar. Isso sim é o meu pleno ato de respirar. Calo porque preciso. Volto ao mundo das coisas que foram esquecidas. De minhas memórias. De meus infortúnios. De minhas vitórias. Eu venço e não convenço ninguém a me aplaudir. Aplauso forçado é feito voto de cabresto. Não presta. Nem serve de pretexto. E segue nossa guerra. Feita de risos e caminhadas. Não me sinto velha, nem jovem. Estou na flor da idade. No botão. E de mim brotará o que, da essência, mais me enriquece. O silêncio que antecede a explosão.








You can't start a fire
You can't start a fire without a spark

(Bruce Springsteen)









21 junho 2016

a obscena necessidade do verbo








Ocorreu a vontade de escrever e, com ela, o tempo de se deixar devota da escrita. Em 2014 comecei a elaborar o que se tornaria a obscena necessidade do verbo (Penalux - 2016). O escrito mais curto que publico. Curto e de muitas mãos. O original passou por diversas leituras e revisões. Sou dessas que escreve e pede a amigos apreciação. No tempo em que surgiu o manuscrito, nada era certo. Eu não sabia se o publicaria. Eu não sabia se queria publicar. Eu sabia apenas que precisava escrever. E, quando terminei, que fechei o caderno no qual o escrevi, pensei em deixá-lo quieto. Porém, em 2015, decidi reler e fazer com que fosse visto. A preocupação inicial era o gênero. Não é conto. Não é romance. Não é coisa alguma. Será? Minha análise é o próprio livro. Tentei, com unhas e palavras, dar voz a uma personagem que me perseguia por tempos. Lucélia não podia calar. E muito embora não fale com voz marcada, em a obscena necessidade do verbo, Lucélia está desperta. Em poucas páginas que me fizeram, por vários dias, tão cativa quanto curiosa, há coisas com as quais gosto de trabalhar. Coisas miúdas. Coisas esquecidas. Poeira sob o tapete que, por teimosia, sacudo e entrego ao tempo.



É isso.
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13 maio 2016

lacônica








Não recuso o perigo de falar.

(Cícero)





Eu adoraria saber escrever poesia. Talvez, sem muita ousadia, relatasse, e de forma lírica, a agonia e os aborrecimentos que me cercam. Mas, como não escrevo poesia, parto em prosa a decifrar o que não cabe em folha de jornal. Vivo em um país que não entendo. Desde a infância, quando me fiz aprendiz de história, eu soube de caravelas e homens que conquistaram terras e índios. Na escola, quando havia prova, a resposta era certeira. Quem descobriu o Brasil? Pedro Alvares Cabral, professora. Em uníssono. Com a idade e as ações tempestivas de querer conhecer mais de mim, descobri que índios foram mortos e não houve descoberta alguma. O território foi encontrado. E o império, além de colonizar a terra e domesticar nativos com seus dogmas religiosos, dela extraiu riquezas. Como boa inerte que sempre fui, aceitei a explicação. Sempre aceito. E muito embora o nó na garganta prevaleça, mantenho a etiqueta. Faço questão de não abrir a boca para questionar. Lembro do tempo em que gritavam pelas ruas. Todos queriam eleições. Era bonito ver palanque cheio de artista. Era tanta gente comemorando. Vieram as diretas e, com elas, a esperança que é frágil das pernas. Não consegue cruzar multidões. Por anos vivi ao lado de pessoas que acreditavam que havia um partido que poderia trazer liberdade ao povo que trabalhava, mas que não tinha casa, nem dinheiro no bolso, nem nada. Era tão imensa a inflação que o pão de cada dia mudava de valor a todo piscar de olhos. Interrompo a narrativa para dizer o quanto me fere a impotência diante da vida. Diante do que vejo. Diante do que sou. Uma coruja rasga a noite em oposição aos fogos de artifício que ouço. Muitos comemoram. Muitos dormem. E outros erguem estátua em homenagem à escritora, que, em vida, pouco recebeu aplauso. Antes fosse apenas a coruja a incomodar meu canto. Antes fosse falta de amor que me abatesse a alma. Antes fosse qualquer motivo que não o assombro de ser controlada tal qual soldado a decorar tabuada. Para a surpresa que me faz estupefata, desconheço a história de minha pátria. E de tudo que me governa, permanecem a fé e talvez um pouco de saudade de minha ingenuidade quando acreditava que era eu quem controlava a vida, e não os pesticidas que invadem o jardim de minha casa.











16 março 2016

rebento







Surtei. Dei banho no cachorro. Ele ficou tão feliz que colocou as patas em meu joelho. Sinal de agradecimento. Pensei em tirar uma selfie. Mas não deu tempo.

(vida afora)





Estou sempre nascendo. E o que me toca a pele é o tempo, ora com carinho, ora com seus golpes violentos. Não vou falar de mim porque tenho feito isso desde que nasci. E perceba que não nasci no dia de meu nascimento acertado em certidão. Nasci depois. E diversas vezes. Meu primeiro nascimento ocorreu no dia em que quase fui atropelada por um caminhão. Minha mãe atravessou a rua e eu a segui. O caminhou freou, minha mãe desmaiou e meu pai, do outro lado da rua, me olhava. Foi então que comecei a perceber o mundo. Vi todas as cores com tamanha nitidez que me senti maravilhada. Havia céu de verdade e gente caminhando na avenida. O mundo existia. Depois de tal descoberta, veio o dia do cinema. Meus pais saíram e me deixaram em casa com meus irmãos mais velhos que, assim como eu, eram crianças. Fiquei na cama, sentada, cercada de balas e chocolates que me foram dados para que eu não chorasse. No entanto, não adiantou. Chorei muito enquanto meus pais, que mal se divertiam, assistiam a um filme qualquer no deserto urbano que era São Paulo dos anos 70. Foi nascimento e descoberta, pois percebi que eu não era a única. Eu tinha irmãos que cuidavam de mim. E, talvez, naquele momento, eu tenha tomado consciência de que também precisava cuidar deles. Muito cedo aprendi a olhar as outras pessoas como se fosse espelho. Depois disso, muitos eventos fizeram acordar em mim o nascimento. Primeiro dia na escola, o choro ao ver minha mãe me deixar com estranhos, primeiro castigo, primeira verdade jogada na cara. Enquanto eu vivi em São Paulo, o céu era quase cinza e não havia estrelas. Quando cheguei ao Nordeste, retirante inversa, vi estrelas e ouvi cigarras. Tão alto cantavam. Nasci outra vez ao ouvir as cigarras no quintal da casa de minha avó. E continuei meu processo de nascer com a chegada da menarca. Tanta vergonha senti. Ninguém havia me explicado nada. Nem livros eu li. Mas já era mulher. Aos onze anos. Nunca entendi. Depois fui retirada novamente do útero quando perdi aquilo que chamam de virgindade. Palavra bonita usada em casta voz para minimizar a dor e a invasão. Romantizaram tudo. Nasci doida dessa vez. Doida de tão apaixonada. E, por graça dos dias, a paixão foi embora, deixando em mim uma mulher que ainda se sentia tão menina que fingia ser atriz de tevê. Estudei, vadiei, fiz tudo quanto foi maluquice para me ver nascida. Parida de vez. Mas, a cada tentativa minha, eu me tornava sempre recém-chegada. A cada pancada das horas, eu nascia de novo. O primeiro emprego, o primeiro cheque, a primeira subversão. O primeiro pecado cometido em sã consciência é o mais belo de todos. Tudo me fazia surgir no mundo. É um processo contínuo. Ter filhos, ir ao médico, o surgir das rugas, a solidão que, ao invés de incomodar, passa a ser presente. Tudo é novo a todo instante. Vê? Percebe o quanto é inexato perguntar data de aniversário? Percebe o quanto não se conhece alguém por inteiro? Pois a gente nasce a cada hora. Nesse momento, enquanto escrevo, sou apenas um rebento. Um fruto que vibra de amor, de cólera, de vaidade. E amadureço sem tomar conhecimento.







13 março 2016

terço de março







Amor


Acordei e senti os pés gelados. Para minha proteção, calcei grossas meias de cor nua e, debruçada à janela do quarto, deixei-me livre ao momento. Chovia. Tão logo a água se misturava à terra, flores vivas surgiam, despertas, quase de olhos abertos e mãos úmidas. Ao contemplar as coisas que o tempo arquiteta sob os olhos de Deus, eu acariciava o rosto. Era toda minha a inédita melancolia do dia. Voltei para cama e, encolhida como concha que o mar esconde, reclamei do frio, embora estivesse feliz por tê-lo comigo. Ouvi a porta bater. O homem entrou, guardou na estante dois livros, descansou na poltrona artefatos de seu trabalho e, ao perceber o quanto eu tremia, sem pedir permissão, cobriu-me inteira. Seu corpo era o sol daquela manhã fria.




Infantaria


Telefonam-me pedindo conselhos. Quem ousaria? Não aconselho sequer inimigos ao salto em abismo. "Deixa-me sozinha" é o que digo. Não sou capaz de tal carpintaria. Que o ser se faça ou desfaça de acordo com sua autonomia.




Meu caro


Mas será que sou a única que sente vergonha ao ver, em manifestação contra corrupção, gente tomando cerveja, comprando bonecos infláveis e faixas caracterizadas com as cores do Brasil? Será que sou a única que se sente excluída sem qualquer voz que fale por mim? Eu sou do povo. Eu sou das estatísticas. Eu faço minha parte. Pago tudo em dia. Levo desaforo pra casa e dele faço motivo para escrever. Recolho amores porque não posso vivê-los. Crio fantasias que não saem de meu guarda-roupa. E, por falar nisso, fiz faxina dia desses e encontrei carta incriminadora. Escrita por mim e assinada com gosto, a carta fala de meu desejo por certo homem. Que vergonha me tornei que não sirvo de exemplo para a associação de senhoras que caminham com Cristo. What a shame é o que berra meu inglês de beira de esquina. A vida está desmantelada desde a raiz e você ainda me diz que tudo irá melhorar. Todo eufemismo tem como objetivo ironizar a verdade, meu caro. E, acaso queira que eu erga um cartaz, tire o carnaval do caminho que eu passarei com meu silêncio estupefato. A ausência de aplauso é um dos motivos para que o ator se retire do palco.








01 fevereiro 2016

de goela abaixo







Não venha me falar em carnaval que eu voo pra cima. Com tudo. Feito ninja. Chute na cara e no ar. Pior que Ana Cristina Cesar em poema indireto. Falo sério. Estou má. Perversa de coice a coice. Égua super esperta das margens plácidas de um país remoto que não alegra ninguém. Mas vejo gente feliz e me irrito, digo ao terapeuta. Se estão felizes e não estou, deve haver algo errado comigo. Ou não? Terapeuta não responde pergunta. Só acena. E com a cabeça voltada pro relógio que a hora custa caro. Tô doida. Sai da frente. Como a mulher que fura a fila na hora da eucaristia. Quem já viu? Talvez seja pecado. Pressa de receber Cristo eu nunca vi! Ou talvez tenha visto e tenha deixado passar despercebido. Atravesso a mesma rua diversas vezes para decorar o andar que me deixa diva, fula, alguém. De passo em passo, me aprumo. E conto, nada passional, o segredo do homem que dorme em muitas camas, mas que não tem coragem de amar ninguém. De goela abaixo, lá vem. 







14 janeiro 2016

escrava delas







É estranho perceber que me tornei, parte Frida Kahlo, parte Dona Pombinha, personagem de um conto lido à tarde. Frida porque ainda me revolto. Dona Pombinha porque sou cheia de pressentimentos. Minha família já nem aguenta. Sonhei com isto. Sonhei com aquilo. Jogue no bicho. Não saia quando estiver chovendo. Irônico como nos transformamos em algo que, quase sempre, abominamos. Eu era tão moderna. Agora, veja só: sou boneca antiga e, no espelho, uma ruga alardeia a idade. Será tarde? Estou cada mais abismada com o país que é a minha pátria. Observo tudo com os olhos de um turista abobalhado. Que praia linda! Olhe só, há tartaruguinhas ali! E mais, veja o rapaz carregar a bolsa daquela senhora! Que absurdo! Dos impostos, não gosto. Das notícias, nada tenho a declarar. E do preço da gasolina, baby, nem queira saber. Tudo aqui é demais. Ou pouco. E você ainda vem me falar de amor! Tenha dó. Amor é caviar em terras de água escassa. Ano passado, quando me vi em silêncio completo, pude, de uma vez por todas, desinflar balões. Meu ego, murcho de tanto perder, tornou-se nanico. Anão que levanta pesos no circo. E quando me afastei das coisas que acreditava não mais precisar, de súbito, tornei-me escrava delas. O nome soa bonito. Escravadelas. Tudo junto. Nasci homem e mulher, assumem cientistas. Porém, minha parcela fêmea, de mim, se destacou. No entanto, nem sempre foi assim. Quando menina, eu, de cabelo joãozinho, me sentia menino. Eu brincava com eles. De bola, de corre-corre, de beijo. Eu gostava mais dos meninos. Com o passar das coisas, ganhei manhas de mulher e passei a idolatrar, e de forma pornográfica, os meninos que se tornaram homens. Muito embora nenhum Lampião tenha surgido em meu sertão, e Don Juan não tenha se esparramado em meu gramado, tive boas amostras da espécie. E delas tirei muito proveito. Hoje, não mais. Perdi o jeito. Ou o jeito terá me perdido. No mais, sou ave e, dos predadores, me esquivo. E com afeto, distribuo sorriso.