23 agosto 2016

marluce inquieta












Decidida. Encho a cara de cachaça, caio na rua, beijo lixo e traça e, desapontada, irei à igreja me confessar. Cheia de culpa de nada, pois o mundo é quem me oferece o pecado; o que faço é aceitar. Não sou de negar o fel, o mel, nem as delícias que se expõem aos olhos de minha feição. Direi ao padre, através do cortinado, que apenas matei e roubei porque sou vítima do excesso, do trem possesso que viaja e traga passageiros como boca de engolir cigarro, à baforada o vício indiscreto. Levarei foto de Antônio, o amor que me engoliu, e exaltarei suas habilidades náuticas de tanto que mergulhou em mim. Contarei a história tim-tim por tim-tim. E não esquecerei, prometo, de falar mal de todo aquele que me recusou ouvido. Pois não é segredo que conversa honesta é meu artifício para escapar ilesa do medo e da solidão que se faz próspera em horas inquietas. Na verdade, minha conversa é com deus. Só ele entende o que não precisa entender. E quando abro meu verbo e conto meus pecados, deus ri de gargalhar, e já me revelou em sonho que, de todas as suas crias, sou uma das mais perversas. A fera que se alimenta de si, sou Marluce, e não sofro receios. Meu propósito é viver. Não me basta existir.





Um comentário:

Luis Eme disse...

Marluce é o mundo com saias...

Confusa, violenta, pecadora confessa, mas decidida...