17 janeiro 2016

seu rei mandou dizer







A plateia ouviu a música inteira sem dar um piu. Melinda ditava a regra e todo mundo obedecia. Uma menina daquela, tão novinha, não devia imitar reação de adulto. Porém, como ninguém tinha coragem de dizer-lhe na cara, Melinda comandava o coreto. Até seus pais, que eram gente grande, obedeciam. Era tudo pato na conversa da menina. E não se sabia dizer se aquela atitude era consequência de muito mimo, ou se era coisa de gênio forte. Ao fim da audição, que era assim que ela gostava de nomear sua apresentação de piano, todos aplaudiam. Ela tocava com esmero. Seu pai estava sempre a lhe ensinar a tocar, cada vez melhor, o piano, e Melinda fazia a gente de plateia. Quando se apresentava, dizia à mãe que só servisse doce e refrigerante aos que tivessem aplaudido. Depois, se aproximava de um por um e pedia a opinião sobre seu talento muscial. E ai de quem não respondesse com elogios. Ninguém enfrentava Melinda. Ninguem dizia que tudo aquilo era chato, que fazia a gente sentir vontade de bocejar. A gente só elogiava que era para ganhar doces e não levar cocorote de Melinda. Embora eu fosse o mais velho de todos, não costumava contrariar a menina. Eu fazia tudo que ela me mandava fazer. Até as maldades mais ruinzinhas, como no dia de quebrar a boneca de Carolina. As duas meninas se indispuseram por causa de Gustavo. Melinda era doida por ele e ele, doido por Carolina. Tudo aconteceu no dia de brincar de beijo. Alguém ficava de costas, outro apontava os meninos e meninas que se alinhavam para a brincadeira, e seguia a pergunta "é este? é este? é este?", até que se escolhecesse quem seria o par ideal para um abraço, um passeio no bosque, que era só uma volta pela rua, e o beijo na boca. Melina pediu que lhe avisassem quando chegasse a vez de Gustavo. Sorrindo, a menina disse "sim, é este". Gustavo se encrespou. Melinda se dirigiu ao menino, toda feliz porque iria beijá-lo, mas, para seu infortúnio, Gustavo negou o beijo. Coisa que nem fazia parte da brincadeira. Mas ele está encrencado. Se beijasse Melinda, Carolina sofria. E se não beijasse, Carolina sofria do mesmo jeito. Melinda daria um jeito de se vingar. Ninguém segurou o riso ao ver Melinda parada e com cara de contrariada. A gargalhada foi geral. A menina saiu correndo pra casa, e dias se passaram sem que fosse vista. Aquilo já estava pra lá de esquisito. Até aquela tarde de agosto, em que o piano vibrou de forma tenebrosa. Parecia coisa de filme de terror. Lembro bem. Os meninos e meninas correram todos pra suas casas; tudo com medo de Melinda. No entanto, eu fiquei. E foi aí que percebi Melinda, à janela, olhando a rua com muita tristeza nos olhos. Deixei que ela sumisse e decidi dar uma olhada para me certificar do que estava acontecendo. Entrei pelo jardim, sem fazer barulho algum e, da porta, vi Melinda diferente. Seus olhos estavam vermelhos, seu cabelo todo sem jeito, e os pés descalços. Parecia outra menina. Aquilo me deu tanta agonia que me senti obrigado a fazer algo. Ela realmente gostava de Gustavo. E não seria aquilo que a destruíria. Naquela mesma noite, quando todos dormiam trancados em suas casas, fui escalando muros e cheguei à janela do quarto de Carolina. Não pensei duas vezes. Entrei e, na surdina, peguei sua boneca querida e cometi o crime. Após fazer o que havia planejado, deixei bilhete que dizia à Carolina que, se ela contasse a alguém o que sua boneca havia sofrido, o mesmo aconteceria a ela. Sua cabeça seria arrancada também. E de forma violenta. Deixei assinado em nome de Melinda e parti. Mal acordei no dia seguinte, e já ouvi o som triunfante do piano. Parecia alegre. Estava forte novamente. Era, pelo que eu reconhecia, uma bela audição de Melinda. Quando cheguei a sua casa, subi em um banco de madeira que ficava sob a janela e vi que tudo estava igual e diferente. Melinda tocava corada ao lado de Gustavo, que lhe sorria de volta. Pareciam um casal de gente que ama. Depois deste dia, Melinda voltou a ser forte e líder de nosso grupo, Gustavo nunca mais lhe negou seus beijos e Carolina, de boneca nova, começou a gostar de outro menino. Eu, com minhas observações, fui percebendo que não havia nada de perverso em Melinda. Na verdade, ela era muito bela quando tudo nos exigia. E nós precisávamos de um guia. Melinda só era forte porque a gente permitia.











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14 janeiro 2016

escrava delas







É estranho perceber que me tornei, parte Frida Kahlo, parte Dona Pombinha, personagem de um conto lido à tarde. Frida porque ainda me revolto. Dona Pombinha porque sou cheia de pressentimentos. Minha família já nem aguenta. Sonhei com isto. Sonhei com aquilo. Jogue no bicho. Não saia quando estiver chovendo. Irônico como nos transformamos em algo que, quase sempre, abominamos. Eu era tão moderna. Agora, veja só: sou boneca antiga e, no espelho, uma ruga alardeia a idade. Será tarde? Estou cada mais abismada com o país que é a minha pátria. Observo tudo com os olhos de um turista abobalhado. Que praia linda! Olhe só, há tartaruguinhas ali! E mais, veja o rapaz carregar a bolsa daquela senhora! Que absurdo! Dos impostos, não gosto. Das notícias, nada tenho a declarar. E do preço da gasolina, baby, nem queira saber. Tudo aqui é demais. Ou pouco. E você ainda vem me falar de amor! Tenha dó. Amor é caviar em terras de água escassa. Ano passado, quando me vi em silêncio completo, pude, de uma vez por todas, desinflar balões. Meu ego, murcho de tanto perder, tornou-se nanico. Anão que levanta pesos no circo. E quando me afastei das coisas que acreditava não mais precisar, de súbito, tornei-me escrava delas. O nome soa bonito. Escravadelas. Tudo junto. Nasci homem e mulher, assumem cientistas. Porém, minha parcela fêmea, de mim, se destacou. No entanto, nem sempre foi assim. Quando menina, eu, de cabelo joãozinho, me sentia menino. Eu brincava com eles. De bola, de corre-corre, de beijo. Eu gostava mais dos meninos. Com o passar das coisas, ganhei manhas de mulher e passei a idolatrar, e de forma pornográfica, os meninos que se tornaram homens. Muito embora nenhum Lampião tenha surgido em meu sertão, e Don Juan não tenha se esparramado em meu gramado, tive boas amostras da espécie. E delas tirei muito proveito. Hoje, não mais. Perdi o jeito. Ou o jeito terá me perdido. No mais, sou ave e, dos predadores, me esquivo. E com afeto, distribuo sorriso.