13 maio 2016

lacônica








Não recuso o perigo de falar.

(Cícero)





Eu adoraria saber escrever poesia. Talvez, sem muita ousadia, relatasse, e de forma lírica, a agonia e os aborrecimentos que me cercam. Mas, como não escrevo poesia, parto em prosa a decifrar o que não cabe em folha de jornal. Vivo em um país que não entendo. Desde a infância, quando me fiz aprendiz de história, eu soube de caravelas e homens que conquistaram terras e índios. Na escola, quando havia prova, a resposta era certeira. Quem descobriu o Brasil? Pedro Alvares Cabral, professora. Em uníssono. Com a idade e as ações tempestivas de querer conhecer mais de mim, descobri que índios foram mortos e não houve descoberta alguma. O território foi encontrado. E o império, além de colonizar a terra e domesticar nativos com seus dogmas religiosos, dela extraiu riquezas. Como boa inerte que sempre fui, aceitei a explicação. Sempre aceito. E muito embora o nó na garganta prevaleça, mantenho a etiqueta. Faço questão de não abrir a boca para questionar. Lembro do tempo em que gritavam pelas ruas. Todos queriam eleições. Era bonito ver palanque cheio de artista. Era tanta gente comemorando. Vieram as diretas e, com elas, a esperança que é frágil das pernas. Não consegue cruzar multidões. Por anos vivi ao lado de pessoas que acreditavam que havia um partido que poderia trazer liberdade ao povo que trabalhava, mas que não tinha casa, nem dinheiro no bolso, nem nada. Era tão imensa a inflação que o pão de cada dia mudava de valor a todo piscar de olhos. Interrompo a narrativa para dizer o quanto me fere a impotência diante da vida. Diante do que vejo. Diante do que sou. Uma coruja rasga a noite em oposição aos fogos de artifício que ouço. Muitos comemoram. Muitos dormem. E outros erguem estátua em homenagem à escritora, que, em vida, pouco recebeu aplauso. Antes fosse apenas a coruja a incomodar meu canto. Antes fosse falta de amor que me abatesse a alma. Antes fosse qualquer motivo que não o assombro de ser controlada tal qual soldado a decorar tabuada. Para a surpresa que me faz estupefata, desconheço a história de minha pátria. E de tudo que me governa, permanecem a fé e talvez um pouco de saudade de minha ingenuidade quando acreditava que era eu quem controlava a vida, e não os pesticidas que invadem o jardim de minha casa.