31 outubro 2016

fúria









Para qual batalha
me preparam os homens despojados?
Qual embate infeliz
irá manchar minhas mãos?

A solidão,
antes perversa a me espiar,
agora é meu desejo
todo feito de amor platônico.

Por que dizem me amar
estes que pretendem masculinizar-se
entre minhas pernas?
Mal sabem!
para estar comigo é preciso
Ódio e Fúria.
Oposto ao cio.

Nada quero das larvas últimas
que alimentam-se de velhas histórias.
Quero o avesso.
O jovem.
E, muito embora não me cause gestação,
é deste amor indiferente que vivo.

Das plásticas palavras
de um discurso bem tecido,
Retiro lustro.
Engulo lixo.
Faço de mim estátua célebre
para a qual deixarei
Minha sombra e memória do que me é ausente.

Pergunto novamente!

Para qual batalha
me preparam os homens despojados?
E por que está a me presentear com flores
O gigante mercenário?





15 outubro 2016

margem










Não quero a obrigação tardia. Hoje, movida de vida e boca a boca, quero o encontro das mãos e pernas. Nada erótico. Quero a profundida do beijo eterno dos cinco minutos passados.

Eu me rendo.

Eu me entrego.

Justo é o passar das horas e minhas esperanças transitam líquidas pelos ponteiros do relógio. Amo com a fome de um pássaro que come aos poucos. Devorada de alegria, me acerto com minhas mágoas intranquilas. Sonolentas, conversam entre si. Eu lhes permito existir. Porém, não lhes permito o palco de meu ser. Não sou mulher de vitórias. Sou simples como a fé que guia os pés dos romeiros que buscam libertação para o sofrimento alheio. Estou sempre à margem da história.












05 outubro 2016

naipe de amantes







Deus


Deus veio me visitar. Sentou-se e esperou que eu lhe contasse algo. Esperou que eu lhe pedisse graças. Porém, ajoelhada como estava, eu apenas o admirei. Em silêncio. Apaixonada.




Sacerdotisa


Sempre acreditei que tivesse poderes de mudar minha vida. Dona de si, eu andava altiva. Até o dia em que ele surgiu. O tal, belo e frequente em minha cama, fez de mim o que a carne não esconde. Eu o amava tanto que pouco me importavam frio e fome. Eu estava inteira. Eu engolia o homem.




Arlequina


Nem era dia dos namorados. Era dia de nada. Comprei presente e o esperei, maquiada, bela e equina. Ao entrar, sorrindo e sem hesitar, ele me questionou: onde é o baile a fantasia?