18 julho 2017

cativos de acesso







Com o texto na ponta dos dedos, o computador inventa de reiniciar o Windows. E ainda afirma, em notificações na tela, que está trabalhando nas atualizações. Eu, com cara de interrogação, recorro ao caderno e escrevo. Um tanto enganada, admito. Pois sempre acreditei que eu tivesse algum controle sobre as máquinas. Mas não! São elas que me controlam. E enquanto tento escrever, o telefone vibra e cintila. WhatsApp, Messenger, e-mails, atualizações de aplicativos. Tudo. Desligo a conexão de Wi-Fi. Para que eu escreva preciso estar desconectada. E não é que o celular ainda brilha e envia recados mesmo desconectado da internet? Há dias venho recebendo a informação de que não há espaço de armazenamento na memória do aparelho. Desde a primeira mensagem, tratei de baixar um aplicativo para limpar a memória. E o tal aplicativo também envia lembretes afirmando que precisa ser limpo. É um ciclo maluco de limpar o que sequer está sujo e apagar memória que não existe. Eu me calo irônica e recorro ao aplicativo de música. Munida de fones de ouvido, sento em meu jardim, observo o vento que faz dançar as folhas da árvore e deixo escapar meu riso tímido. São muitos os aplicativos e imenso é o controle que as máquinas exercem. Contudo, há algo que Wi-Fi ou máquina alguma irá decifrar. Só eu sei as senhas de acesso ao meu universo. E este é o meu trunfo. Minha fórmula secreta de governar o mundo.





15 julho 2017

belas anaydes








Limpo as lentes dos óculos, mantenho o foco e me aguento. 
Para estar no mundo preciso, antes, estar comigo por inteiro.





Penso em Clarice Lispector. Ela sozinha com seus livros e seus personagens. Quantos obstáculos deve ter enfrentado Clarice para que ela conseguisse escrever? Não é a questão de gênero que tento abordar. É a questão do ser. Há tantas coisas pelo caminho, tantas distrações na vida, que escrever é sempre uma batalha. Penso também em Anayde Beiriz, que se perdeu no tempo por causa de um amor doido. Um amigo baiano foi o primeiro a me falar de Anayde. Lembro que ele mencionou umas cartas e até me comparou a ela. Tenho nada de Anayde. Ou talvez tenha. Sou mulher, professora, amo e tento me encaixar. Se bem que não posso afirmar que Anayde Beiriz tenha feito isso. Digo apenas o que li aqui e ali. Comprei um livro que traz a correspondência amorosa da autora, considerada poeta. Li quase todas as cartas. Parei em algum ponto que me incomodou. Eu sempre paro quando algo me incomoda. Voltando a Anayde Beiriz, me incomodou ler da autora somente seu amor por alguns homens. Me incomodou mesmo. E não pelo fator feminista. Algo mais forte me fez estancar a leitura. Em todas as cartas vi uma mulher que amava, mas que gritava, em seu lirismo romântico, para que alguém a entendesse. Ou talvez não gritasse. Me senti triste ao ler uma autora castrada por seu amor que culminou em crime político e perseguição. Procuro por Anayde no Google. Vasculho tudo. E só o que encontro, pedindo perdão por minha limitação em pesquisa, é a alcunha que lhe deram: a pantera de olhos dormentes. Não é possível que uma mulher seja somente isso. Aquela que ofende por seu comportamento, aquela que escreve o que sente, aquela que chora seus amores. Não aceito esta Anayde. Assim como não aceito que Clarice seja apenas a solitária que escrevia. E não aceito que me digam que Virginia Woolf era maluca e se matou por isso. Não aceito a ficção que se torna realidade. Eram todas mulheres. E escreveram. Fizeram algo mais que seus rótulos. Fizeram mais que seus livros e conflitos. Elas viveram. E sempre que uma mulher se assume escritora, mesmo que o mundo caia sobre sua cabeça, algo brilhante acontece. Todas as panteras de olhos dormentes se libertam.










12 julho 2017

o gato branco









Há um gato branco que passeia pelo muro de minha casa e das casas vizinhas. Ele está sempre caminhando. Ao menos, quando o vejo, o gato caminha. Eu tenho muita vontade de ter um gato. Porém, já tenho um cachorro. Então, já que é preciso escolher, pois não se pode dar conta de todas as coisas, fico com o cachorro. O gato é livre. E branco. E ao que percebo, ele não precisa de cuidados. Está sempre limpo, à vontade e me olha de forma tranquila. O gato eu temos uma bela conexão. Nos olhamos e nos entendemos. Já tentei tocá-lo. Ele já tentou pular para o meu jardim. Mas desistiu. Eu não insisto para que ele fique. Tentei, um dia, fotografá-lo. Tudo em vão. O gato saiu leve por entre as folhas e sumiu. Voltou no outro dia. Dessa vez, eu não quis fotografar. Tampouco tentei fisgá-lo. O gato branco, como uma imensa escultura envolta em mistério, é um viajante. Percebo que precisamos um do outro. E da forma como estamos. O gato no muro e eu no chão. 










09 julho 2017

curta in definitiva










De volta.
Saltando de alegria?
Não. Humana.






Afeto literário para mim é como uma espécie de correspondência a qual recorro quando preciso me comunicar. Poderia sim viver sem escrever. Eu poderia muitas coisas. Mas a literatura é como o amante possessivo que persegue, que sufoca e questiona. Não posso dar costas à literatura. Então, eu a enfrento. Escrevo livros, bilhetes, diários. Escrevo todo o tempo. E quando não escrevo, sofro. Sinto dores de abstinência. Sinto-me enclausurada. Ah, o paradoxo que me traduz... Literatura me aprisiona e, ao mesmo tempo, me liberta. Não saberei explicar esse fenômeno, que é tão natural quanto o despertar dos pombos ou quanto o voar do vento. E como não sei explicar, escrevo. Me correspondo. Me alimento. Até que se cumpra o tempo.







27 janeiro 2017

horas pálidas








Homem, eu te escrevo. E não espero retorno do que direi. Me largo em folha de véspera tempestade que devasta a casa, o piso e a margem de meus rios de prosa. Em ti eu teria feito o poema perfeito, exato como o tempo, e seu declarar de vivências. Amei em um único fôlego, nunca amiúde, pois de tal forma não me daria ao prazer do sentimento que afago, tão somente meu e de meus agrados. Não posso te escrever, homem. Não ostento o desejo de invadir tua vida e causar danos ao teu lar de mãe e filho que vivem sorridentes ao teu redor. Não é minha intenção penetrar em cômodos que não habito. Não é minha intenção alardear o que sinto. Contudo, homem, o que devo fazer de mim agora que o sentimento invade minhas horas pálidas de espera e agonia? Ouso emancipar-me. Preciso te esquecer, sentimento náufrago, antes que de ti me construa a própria face. De renovada esperança, em passo firme e sem constrangimento, de ti me aparto. E te desejo o remorso indecente dos que desistem de meus laços.









16 janeiro 2017

invólucro








Mudei. Vejo tudo como é. Nada invento. Roupas coloridas separadas das roupas pretas e brancas que, de fato, também são coloridas. Nada tem ausência de cor. Amor é amor. Não transborda um centímetro. Filho é filho. Minha paz, perdição e equilíbrio.





Bonito o que vi. Ao dar banho no cachorro, ele ouvia música clássica. Perguntei o que era. Ele, sem pensar duas vezes, sentiu-se envaidecido. Pela primeira vez em meus silêncios, demonstrei que me importava. Venci. Sempre que saímos da zona de conforto da indiferença e do egoísmo, vencemos. Calculei isso ao assistir filme reprisado de falas que já havia decorado. Quanto menos me importo comigo, mais me importo comigo. 

É no altruísmo que se esconde o ego fingido. 

Abri a porta e descobri, em pleno dia, um casulo no alto da varanda. Não me feriu ver o casulo na parede. Mas o que pensariam as visitas se chegassem a minha casa e vissem que crio casulos? Por ordem dos outros, tive que destruir a casa de marimbondos. Havia apenas um inseto. Encolhido e embrionado. Com todo cuidado, e com a pá, deitei a pequena criatura no canteiro. Ainda encolhida e curvada, arrastou-se para um canto escuro sob as folhas e escondeu-se. Limpei o que restou do casulo, senti revolta por tê-lo destruído, sentei sob a grande árvore, peguei meus fones de ouvido e pensei em meus pequenos crimes ambientais e em minhas histórias mal criadas. Enquanto isso, ainda ouvia música clássica o homem vaidoso que abre janelas com o mesmo vigor com o qual me esquivo. Como disse, vejo tudo como é. Minha realidade é alvo do eterno fictício.











07 janeiro 2017

fios da história







Leitora


Gosto tanto de livros que não me atrevo a explicá-los. Sequer conto os livros que tenho pela casa. Eu os deixo na estante, na mesa ao lado da cama, no quarto de passar o dia. Sim, eu tenho um quarto de passar o dia. Nele me debruço sobre coisas que existem, sobre coisas que não existem e sobre minha preguiça. Tenho muita preguiça. E dela tento me livrar. Para isso, recorro aos livros. Eu os leio para manter em funcionamento o que penso e, por consequência, não dormir demais. Dormir é fuga, disse a terapeuta. Mas também pode ser cansaço. Tento não dificultar coisas com nomenclaturas físicas, filosóficas e tolas. As coisas são o que as coisas são. Aceito. E meus livros não precisam de minha explicação. Eles só precisam que eu os leia.




Escritora


Não entendo escritores que fazem questão de dizer que não são escritores. Do que estarão fugindo? Da culpa? Da plateia? Do peso que é escrever e sustentar o que se diz? Não entendo. Como pode um homem que constrói casas não querer ser visto como o homem que constrói casas? E se acaso a casa vir abaixo, quem irá se responsabilizar pelos danos? E se a casa se tornar bem vista por todos em bela construção, virá o homem dizer que é sua a engenhosidade que está ali? Como poderá dizer da casa se ele mesmo não gosta de dizer que é o responsável por ela? Por que fugir? Por que esconder-se em falsa modéstia? Eu sou escritora. Meu ofício é lidar com palavras. Se o faço ou não com maestria, já é outra história.




Mulher


O que mais me atrai em um homem é sua forma de lidar comigo. Só isso. O resto é criação do mundo.









03 janeiro 2017

já é manhã na indonésia










Carlos não escreveu. Ou talvez as cartas tenham sido extraviadas. Melhor assim. E se acaso Carlos tenha escrito, não faz diferença alguma. Não queria mesmo ler palavra que fosse. Carlos não entende minha liberdade. Nem eu. Mas eu tenho o direito de não entender minhas coisas. Carlos, não. Pessoa nenhuma deste mundo tem o direito de meter o corpo no que é meu.

O que é meu é meu.
Já calei demais para agora ter que ficar acuada.

Carlos comprou-me uma bicicleta e disse: Pedale por este caminho. Apontou, com o dedo vingativo, a trilha estreita do jardim de nossa casa. Eu não sabia andar de bicicleta. Porém, aprendi. Caí muitas vezes. Meus joelhos sabem das marcas. Carlos queria que eu pedalasse, mas somente no caminho no qual ele me havia apontado. Quando debandei da trilha, e pedalei pelo pasto, Carlos tomou-me a bicicleta. Chorei por dois dias. Enfiada sob as cobertas floridas da cama do quarto de visitas, deixei lágrima ensopar a fronha do travesseiro. Dolores ainda tentou me fazer sorrir ao contar história de sua família Etíope. Dolores me faz rir porque mente muito bem. Gosto de mentiras bem contadas. Posso até imaginá-las.

Mas não consegui rir da história dos Etíopes.
Dolores calou-se e me deixou só.
E estar só é como estar nu.

Percebi minhas imperfeições. Minhas imundícies. E percebi, claramente, como sou bonita. Toda livre. Depois de chorar muito e tentar curar meus arranhões causados pelas quedas, deixei o quarto e peguei briga com Carlos. Eu queria de volta a bicicleta. Ele, convicto, mandou que eu me aquietasse e fechasse o bico. A bicicleta já era, dizia Carlos. Repetiu a sentença por dias. Aceitei a ausência de minha companheira de pasto. Da bicicleta. O que Carlos não percebeu foi que, ao me permitir pedalar, permitiu-me muito mais. Ao apontar com seu dedo vingativo o caminho, permitiu que eu ultrapassasse meu limite. O pasto era imenso. Eu estava pronta para conhecê-lo. Uma vez que se toma a liberdade pelo corpo, Carlos, nunca mais se aceita a prisão.

E talvez ele tenha escrito as cartas.
E por Deus, peço ajoelhada: que tenham sido extraviadas. 
Eu não aceito mais suas palavras vãs.












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