03 janeiro 2017

já é manhã na indonésia










Carlos não escreveu. Ou talvez as cartas tenham sido extraviadas. Melhor assim. E se acaso Carlos tenha escrito, não faz diferença alguma. Não queria mesmo ler palavra que fosse. Carlos não entende minha liberdade. Nem eu. Mas eu tenho o direito de não entender minhas coisas. Carlos, não. Pessoa nenhuma deste mundo tem o direito de meter o corpo no que é meu.

O que é meu é meu.
Já calei demais para agora ter que ficar acuada.

Carlos comprou-me uma bicicleta e disse: Pedale por este caminho. Apontou, com o dedo vingativo, a trilha estreita do jardim de nossa casa. Eu não sabia andar de bicicleta. Porém, aprendi. Caí muitas vezes. Meus joelhos sabem das marcas. Carlos queria que eu pedalasse, mas somente no caminho no qual ele me havia apontado. Quando debandei da trilha, e pedalei pelo pasto, Carlos tomou-me a bicicleta. Chorei por dois dias. Enfiada sob as cobertas floridas da cama do quarto de visitas, deixei lágrima ensopar a fronha do travesseiro. Dolores ainda tentou me fazer sorrir ao contar história de sua família Etíope. Dolores me faz rir porque mente muito bem. Gosto de mentiras bem contadas. Posso até imaginá-las.

Mas não consegui rir da história dos Etíopes.
Dolores calou-se e me deixou só.
E estar só é como estar nu.

Percebi minhas imperfeições. Minhas imundícies. E percebi, claramente, como sou bonita. Toda livre. Depois de chorar muito e tentar curar meus arranhões causados pelas quedas, deixei o quarto e peguei briga com Carlos. Eu queria de volta a bicicleta. Ele, convicto, mandou que eu me aquietasse e fechasse o bico. A bicicleta já era, dizia Carlos. Repetiu a sentença por dias. Aceitei a ausência de minha companheira de pasto. Da bicicleta. O que Carlos não percebeu foi que, ao me permitir pedalar, permitiu-me muito mais. Ao apontar com seu dedo vingativo o caminho, permitiu que eu ultrapassasse meu limite. O pasto era imenso. Eu estava pronta para conhecê-lo. Uma vez que se toma a liberdade pelo corpo, Carlos, nunca mais se aceita a prisão.

E talvez ele tenha escrito as cartas.
E por Deus, peço ajoelhada: que tenham sido extraviadas. 
Eu não aceito mais suas palavras vãs.












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Um comentário:

Luis Eme disse...

Um hino à liberdade, que devia ser lido por todas as mulheres. E claro, pelos homens. Especialmente aqueles que têm os bolsos e o coração cheios de chaves e cadeados.