30 dezembro 2017

primeiro traço








and I'm becoming transfixed
with nature and my part in it
which I believe just signifies
I'm finally waking up

(Ani DiFranco)





Sonhei que estava rindo. Rindo de dar risada mesmo. Em alto e bom som. Sentada ao lado de outras mulheres, que assim como eu estavam rindo, sonhei que me divertia. Acordei lentamente e olhei pela janela do quarto. Vi o céu azul, o telhado da casa vizinha, espreguicei o corpo e me coloquei de pé. Respirei fundo, como dita o costume sempre que me acordo, calcei meus chinelos e fui à cozinha fazer um café bem preto de acordar bem. Depois me sentei no jardim e fiquei a observar meu cachorro caminhar entre os canteiros. Ouvindo música em meu celular, que mais serve de walkman do que telefone mesmo, pois é raro eu telefonar para alguém, fiquei a lembrar do sonho que tive e sem querer percebi que há tempos não me divirto. Há tempos eu finjo que me divirto. E talvez muitas pessoas façam o mesmo. Eu finjo que me divirto ao lado de pessoas que sequer me agradam, finjo que me apaixono, finjo que amei a leitura de certo livro, finjo ter entendido o filme, finjo que gostei do beijo, finjo que ainda aguento outra dose de tequila. Eu finjo. E a sensação é a de que estou a fazer mágica ao contrário. Faço coisas que não me deixam feliz em busca de agradar a audiência. Na urgência de agradar pessoas, me desfaço, me desconserto, e tento me moldar. E descobrir o motivo pelo qual eu faço essas coisas é questão que resolvo em terapia. E comigo mesma também. Em tempos de fazer balanço acerca da vida, descobri um ser desconhecido e, muito embora aparentemente extrovertido, um ser tímido e reservado, que prefere ouvir música a telefonar, dormir a acelerar, e viver honesta ao que sou. Eu me descobri. Ao menos uma parte de mim está a se reconhecer. E é com muito prazer que me abraço e começo a compreender a nova de mim a cada traço de palavra que decido ou não redigir. Ser feliz é mais que rir.