17 fevereiro 2018

pacto







Nunca vi alguém tão feliz após ouvir o que eu tinha a dizer. Aceitei minha canalhice e joguei as cartas na mesa. Liberdade é sempre aos poucos.



Uniu as mãos e aplaudiu o que Leonora acabara de dizer. Um terapeuta que aplaude vale mais que mil plateias, pensou Leonora, enquanto apertava o botão do elevador que a levaria do topo ao térreo onde, vestido de preto e mal-intencionado, Jonas esperava. O cara fumava um cigarro marrom que cheirava a um tipo de fruta. Leonora perguntou, de forma muito calma, se ele não teria um cigarro de verdade.

— Eu quero um cigarro de verdade.

— O que há de errado com esse aqui?

— Isso não é cigarro. É enfeite.

Jonas entendia Leonora de maneira que poucos conseguiam. E por essa razão ela permanecia a encontrá-lo, a cada fim de sessão terapêutica, sempre nas sextas-feiras.

— Para onde vamos hoje?

— Eu quero sexo, Jonas. Só isso. Não precisamos sequer conversar.

Ele entendeu. Esperou que Leonora terminasse de fumar o cigarro de verdade, entraram no carro e seguiram para um motel qualquer, já que o objetivo era sexo. O cenário pouco importava.
No rádio do carro, Paul McCartney cantava Band on the Run. Leonora olhava as ruas pela janela do carro e Jonas cantarolava junto com a canção. Ao chegarem ao motel, Jonas ensaiou um carinho. Tentou acariciar Leonora, que se retraiu como bicho que teme aproximação.

— Pegaram pesado com você hoje, Leonora?

— Eu peguei pesado comigo hoje, Jonas.

— Você está mais estranha que nunca.

Leonora deixou o silêncio como resposta e entrou no quarto que exalava aromas de desinfetante e outros odores de sexo e bom ar. Apagou as luzes, deixando apenas aceso o spot que iluminava um quadro feio que enfeitava uma das paredes do quarto.

O beijo veio feroz. Língua em silêncio faz ritmo quando toca outra língua. Jonas também não era de muita espera. Deixou que Leonora fizesse de pressa o que poderia fazer devagar e a noite inteira. A mulher parecia faminta. O homem entendia, pois também sentia. Mas como haviam combinado, desde o início do pacto, nunca usariam palavras românticas ou adocicadas, nunca deixariam os sentimentos pelo caminho e, o mais importante, nunca usariam seus verdadeiros nomes.

No caminho de volta, a mulher fumava o cigarro aromático de mentira.