22 março 2018

versado






Inventava que era poeta. Não passava uma noite sem que esquentasse meus ouvidos com seu hálito de menta e suas palavras enfeitadas. E sempre, ou quase sempre, o poema começava com Tu és. Aquilo fervia meu sangue. Sentia ódio. Homem chato dos infernos! Preparei-me, então, para surpreendê-lo com versos dignos escritos por mim mesma. O dia inteiro amarrotei palavra, uma sobre a outra, só para jogar na cara do falso poeta. Ao anoitecer, eu estava pronta para enfrentá-lo. Esperei por horas. E quanto mais eu esperava, mais o verso se revoltava dentro de mim. Aconteceu de o homem não aparecer, nem na outra noite, nem nas três noites subsequentes, fazendo com que minha cólera aumentasse. Para cada dia de sua ausência, escrevi um monte de poema. Foram muitas noites escrevendo, tanto que me acostumei e não havia outra coisa que me aliviasse mais que escrever. Toda hora me surgiam palavras, estrofes, métricas, rimas, lirismos... Até hoje, escrevo. Vinte anos depois. Publiquei livro, ganhei prêmio e sou convidada a falar de poesia em tudo quanto é canto, muito embora eu nunca saiba o que dizer. Pois para mim é simples. Poesia é o hálito de menta daquele homem do passado que me atormenta.