ventre urbano













A ousadia como vetor e sentido

(Por Lau Siqueira)



Um livro organizado por escritoras paraibanas para afirmar a produção das escritoras paraibanas. Este é o recorte central da antologia Ventre Urbano organizada por Letícia Palmeira e Lizziane Azevedo. Há uma provocação explícita e não gratuita na sua proposta. Afinal, a predominância do macho branco na literatura brasileira é uma realidade histórica incontestável. Na Paraíba não é e nunca foi diferente. Por isso a demarcação do espaço de gênero aparece como uma tatuagem simbólica. Não define o corpo, mas está bem visível, fixada na pele. Mas, engana-se quem pensa que é só isso. Este é apenas o talho definidor (mas não definitivo) de uma publicação aparentemente pioneira. Desconheço outra semelhante. A provocação é pertinente, pois. Ventre Urbano nasce configurada nos vértices que sustentam a literatura brasileira atual. Construindo sua própria geografia, seus caminhos, seus rios e relevos. Não tenho dúvidas que a literatura transita em muitas estradas. Não é estática. E sei que crítica não é autópsia. Mas, é importante entender que o desenvolvimento de um procedimento crítico para qualquer literatura é tão necessário quanto pode ser cruel. O trágico é quando ele praticamente não existe, ou não existe totalmente.

Mas, esta “antologia fêmea” se impõe e se expõe sem medo. As prosas desenvolvidas neste livro, têm suas especificidades. São diferenças que se aproximam. Amanda Vital, por exemplo, parte das memórias mais íntimas para construir seu universo ficcional. Vasculha as gavetas. Rememora os cheiros da sua juventude e infância. Anna Apolinário espalha-se numa narrativa onde a definição dos papéis, digamos, na relação do narrador com os personagens, começa a se movimentar já no primeiro parágrafo de “Relicário”. Cyelle Carmem apropria-se de uma prosa aparentemente confessional, mas ancorada em muitas leituras. Sua voz narrativa, aparentemente personalizada, incorpora imediatamente a ficção e nela se firma. Há um deslocamento, então, para um certo protagonismo praticamente subjetivo, eu diria. Letícia Palmeira se aventura na construção de imagens definidoras e nelas sustenta seu discurso. Mantém um ritmo acelerado de linguagem. Do início ao fim. Distribui na extensão do texto os diálogos que, na verdade, são os pilares da sua escrita.

Lizziane Azevedo mostra uma literatura de temática social. Presente, aliás, em outras experiências literárias suas. Faz uma aferição na ferida aberta das desigualdades, tão banalizadas na sociedade brasileira. Soa quase como uma denúncia. Algo que vai extrapolando naturalmente a voz criativa da autora e suas domas. Maria Valéria Rezende aparece logo em seguida com um texto de incontestável beleza narrativa. Uma suave esbofeteada no modo classe média de viver. Forte e belo, como tudo que vem de Valéria. Estreante em publicações, Mayara Viera entra em cena buscando seus próprios caminhos. Uma jovem escritora forjada na leitura, revela com talento as suas febres. Ainda inédita em publicações e mesmo sem livro individual, ela sabe com quantos pulmões respira cada palavra. Mayara Almeida mergulha seus motivos nas águas reveladoras da existência humana. Há uma transversalidade entre a construção do texto e a conversão da personagem em um quase espelho do inconsciente.

Mirtes Valeska Sulpino traz para o conto “O elevador”, a sensualidade natural da sua alma fêmea e um certo espanto diante do inusitado. Perfura o acaso com suas opções de condensamento do cotidiano. Foco na imagem. Foco na composição de um cenário espremido num labirinto que sobe e desce. Romarta Ferreira chega como um dos frutos do antológico e saudoso Clube do Conto da Paraíba. Trata de construir diálogos curtos e bem definidos dentro de uma linha que perpassa e ao mesmo tempo alinha-se com os ilimites da oralidade. Do que se desnuda em cada esquina. Finalmente, Samelly Xavier representa a produção da Serra da Borborema neste tear de novos momentos. Ela configura em seu texto uma expectativa forjada a partir da relação direta entre o masculino e o feminino. Sem definições premeditadas, mas cobertas de mensagens subjetivas. Este é o livro. Intenções e propostas silenciando as sirenes que antecedem o caos necessário. Mais um bom produto da editora paulista Penalux. Um selo que tem estabelecido laços firmes com a Paraíba. Oitenta e sete páginas de produção literária das mulheres escritoras da Paraíba. Claro, pelos mais diversos motivos muitos nomes ficaram de fora. Não que não tenham sido lembrados. Mas, finalmente, eis o livro. Embalado numa capa da ilustradora paraibana Luyse Costa, cujo reconhecimento profissional há muito ultrapassou os limites do Estado. Vale a pena conferir. Vale a leitura. Pelas circunstâncias e pelo conteúdo. Um trabalho que se firma com seus próprios pés no chão batido da produção contemporânea. De saída já conquista seu espaço na história da novíssima e pujante literatura da Paraíba.