30 março 2010

do preconceito da leitura




Dia desses, resolvi fazer uma pequena arrumação em minha coleção de livros. Alguém poderia dizer biblioteca. Outro alguém diria acervo. Eu digo literatura de auto-ajuda. Leio por um instinto de curiosidade e por saber que todo o falatório de minha professora do ginásio faz sentido. Ela sempre vinha com aquela história de ler e encontrar outro mundo. Descubro isso a cada livro que leio. Mas, se pudesse ter a chance de rever minha professora de ginásio, sempre muito polida em seus atos, diria a ela que não encontro outro mundo apenas. Por vezes sim. Por vezes, é o mesmo mundo. Esse no qual existo, mudo de roupa e estabeleço prioridades, visito amigos, frequento salas de cinema, tomo café, durmo tarde e assino ponto lá onde trabalho. Mundo igual de centenas de milhares de andantes pensativos humanos carregando conceitos e opiniões enquanto a vida acontece. Ao organizar meus livros e sempre ouvindo música, cantando com minha cara de contente, lá estava ele. Muita retórica para dizer que senti alegria ao ver que aquele livro era meu. Uma breve dedicatória lida em voz alta assim que o abri. "Pelos dias que virão", dizia a dedicatória. Edição livro de bolso. E lá mesmo, no chão da sala de casa, janela aberta e o vento morno a trazer vozes da rua, comecei a ler. Prefácio e lá fomos nós e minhas ideias. Me veio uma sensação humana de saber que poderia me ver naquelas poucas páginas de tantas palavras que tantos outros leram. E desandei a ler. E, uma vez que se abre um livro, ou se vai até o fim, ou se abandona a leitura. E, tendo feito isso, não sei de outras pessoas, mas eu me sinto incompleta. Abandonar um livro, mesmo que a leitura seja maçante ou o texto seja mal escrito, me faz sentir que estou sendo injusta. Porque travamos lutas inimagináveis a cada leitura que fazemos. E eu não quero ser aquela que julga um livro ao ver o nome do autor, editora ou se o autor é renomado ou não. Porque sempre perco algo quando não leio. Perco a fala, minha aquisição de bens não contáveis, e minha vista cega quando decido não ler por preconceito ou por alguma crítica já feita ao livro. E perco a mais nobre característica de quem tenta, a todo custo, escrever algo que um dia seja considerado bom. Porque não me basta o elogio. Já disse uma vez e repito: Quero a versão absoluta de todos os pontos-de-vista. Escritor precisa ter curiosidade. Ler desde clássicos a autores abandonados ao infortúnio. A perda da curiosidade é a morte de qualquer escritor. Digo em voz alta e que não me calem os senhores literatos que tanto expulsam aqueles que tentam vivenciar literatura desde a primeira hora do dia. Se valer o conselho, não deixem passar um rabisco sequer. Uma folha rabiscada que alguém lhe pedir para ler, um poema de um amigo, uma pagina de diário, um bilhete de amor que, muito embora possa estar mofado pelos anos gastos, há de trazer uma nova dimensão que não tínhamos em outros tempos. O livro que encontrei perdido em minha estante era Noites Brancas de Dostoiévski. Já li. Livro pequeno, texto integral. Mas, se fosse o caso, não deixaria passar um "Crepúsculo" sem que o lesse. Leio de tudo. E preconceito só atrasa. Já basta que digam que nosso país vive à pobre cultura e carece de leitores. Já basta a biblioteca da universidade onde leciono não ter exemplares de Homero. Já basta de julgarmos livros por suas capas. Meu objetivo é ler. E, a partir desse ponto, me reconhecer humana e autora de nossa história. Mesmo que coadjuvante, trafegando entre um livro e outro. Caio Fernando Abreu disse uma vez em uma entrevista: "O Brasil não precisa tanto de escritores. Precisa de arroz e feijão". Eu completo: Arroz e feijão e algo que encoraje essa gente a ler. Nem que seja um livro a cada ano.




Leitura disponível em e-book.
Basta clicar na imagem e that's it.
Há alguns erros, mas vale conferir.















Image by Fertility

5 comentários:

Beto Canales disse...

"sem livros, não há futuro"

Elis disse...

Olá ... estou passeando pelos blogs e achei o seu!
gostei daqui! Além das letras do vermelho também!
Abraço
Elis

José Ferreira Sobrinho disse...

Um livro de qualidade por ano vale mais do que mil livrecos a cada semana.

Bom demais.

Devir disse...

Excelente. A leitura ainda há de ser o ato de transcender exercitado continuamente por todos. Sentir o infinito de sensações do outro nos caracteres é expandir-se um tanto mais, é ser co-autor da obra.
Estou sempre por aqui, lendo cada nova postagem. Experimentando o 'seu' infinito.

Zélia disse...

Meu marido me fez lembrar um certo amigo de tempos atrás em seu comentário. kkkkkkkk

Olha, eu sou do tipo que acredita que alguém só pode falar daquilo que provou. Precisamos ter conhecimento de causa para falar seja lá do que for.

Quanto a questão da leitura no Brasil, recentemente pesquisei sobre isso para uma palestra que dei (uia!). Não somos um país que não gosta de ler. Somos um país que não foi ensinado a ler. Leitura é hábito. Assim como ensinamos nossos filhos a escovar os dentes devemos ensiná-los a ler também. O Caio fala em arroz e feijão, questão indiscutível. Mas Bem antes Monteiro Lobato falou que "um país se faz com homenes e livros". Para não deixarmos a mente vazia e o "bucho" cheio ou vice-versa, façamos um país com arroz, feijão e livros. ;)