20 setembro 2016

mundo





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23 agosto 2016

marluce inquieta












Decidida. Encho a cara de cachaça, caio na rua, beijo lixo e traça e, desapontada, irei à igreja me confessar. Cheia de culpa de nada, pois o mundo é quem me oferece o pecado; o que faço é aceitar. Não sou de negar o fel, o mel, nem as delícias que se expõem aos olhos de minha feição. Direi ao padre, através do cortinado, que apenas matei e roubei porque sou vítima do excesso, do trem possesso que viaja e traga passageiros como boca de engolir cigarro, à baforada o vício indiscreto. Levarei foto de Antônio, o amor que me engoliu, e exaltarei suas habilidades náuticas de tanto que mergulhou em mim. Contarei a história tim-tim por tim-tim. E não esquecerei, prometo, de falar mal de todo aquele que me recusou ouvido. Pois não é segredo que conversa honesta é meu artifício para escapar ilesa do medo e da solidão que se faz próspera em horas inquietas. Na verdade, minha conversa é com deus. Só ele entende o que não precisa entender. E quando abro meu verbo e conto meus pecados, deus ri de gargalhar, e já me revelou em sonho que, de todas as suas crias, sou uma das mais perversas. A fera que se alimenta de si, sou Marluce, e não sofro receios. Meu propósito é viver. Não me basta existir.





17 agosto 2016

embrionária








Faz tempo. Faz sol. Faz noite. Só espero que não se faça o fim entre nós.

(Flora Conduta)





Ouvindo uma canção, enquanto o Brasil tenta ganhar em competição olímpica. A gente só quer ganhar. Perder é coisa de quem não luta. Lembro, de novo, da Elizabeth Bishop e sua Arte de Perder. Eu perco sempre. Já estou acostumada e não me assusto. Perco o trem, perco a hora, perco a chance. Porém, para minha sorte, o tempo me traz boas coisas de volta. O trem passará todo dia. Horas se repetem. E a despeito de meu descuido com minha saúde, ainda estou viva. E sorridente. Já estive muito triste e por muito tempo. Motivo? Amor, eu acho. Já amei tanta gente que não conto para não me tornar deselegante. Amor é confidencial. E quem ama, de verdade, quase não o diz. Duvide sempre do amor em exposição. É ouro falso. E não leve muito a sério meus conselhos. Não sou boa em aconselhar. Sou boa em calar. Isso sim é o meu pleno ato de respirar. Calo porque preciso. Volto ao mundo das coisas que foram esquecidas. De minhas memórias. De meus infortúnios. De minhas vitórias. Eu venço e não convenço ninguém a me aplaudir. Aplauso forçado é feito voto de cabresto. Não presta. Nem serve de pretexto. E segue nossa guerra. Feita de risos e caminhadas. Não me sinto velha, nem jovem. Estou na flor da idade. No botão. E de mim brotará o que, da essência, mais me enriquece. O silêncio que antecede a explosão.








You can't start a fire
You can't start a fire without a spark

(Bruce Springsteen)