27 janeiro 2017

horas pálidas








Homem, eu te escrevo. E não espero retorno do que direi. Me largo em folha de véspera tempestade que devasta a casa, o piso e a margem de meus rios de prosa. Em ti eu teria feito o poema perfeito, exato como o tempo, e seu declarar de vivências. Amei em um único fôlego, nunca amiúde, pois de tal forma não me daria ao prazer do sentimento que afago, tão somente meu e de meus agrados. Não posso te escrever, homem. Não ostento o desejo de invadir tua vida e causar danos ao teu lar de mãe e filho que vivem sorridentes ao teu redor. Não é minha intenção penetrar em cômodos que não habito. Não é minha intenção alardear o que sinto. Contudo, homem, o que devo fazer de mim agora que o sentimento invade minhas horas pálidas de espera e agonia? Ouso emancipar-me. Preciso te esquecer, sentimento náufrago, antes que de ti me construa a própria face. De renovada esperança, em passo firme e sem constrangimento, de ti me aparto. E te desejo o remorso indecente dos que desistem de meus laços.









16 janeiro 2017

invólucro








Mudei. Vejo tudo como é. Nada invento. Roupas coloridas separadas das roupas pretas e brancas que, de fato, também são coloridas. Nada tem ausência de cor. Amor é amor. Não transborda um centímetro. Filho é filho. Minha paz, perdição e equilíbrio.





Bonito o que vi. Ao dar banho no cachorro, ele ouvia música clássica. Perguntei o que era. Ele, sem pensar duas vezes, sentiu-se envaidecido. Pela primeira vez em meus silêncios, demonstrei que me importava. Venci. Sempre que saímos da zona de conforto da indiferença e do egoísmo, vencemos. Calculei isso ao assistir filme reprisado de falas que já havia decorado. Quanto menos me importo comigo, mais me importo comigo. 

É no altruísmo que se esconde o ego fingido. 

Abri a porta e descobri, em pleno dia, um casulo no alto da varanda. Não me feriu ver o casulo na parede. Mas o que pensariam as visitas se chegassem a minha casa e vissem que crio casulos? Por ordem dos outros, tive que destruir a casa de marimbondos. Havia apenas um inseto. Encolhido e embrionado. Com todo cuidado, e com a pá, deitei a pequena criatura no canteiro. Ainda encolhida e curvada, arrastou-se para um canto escuro sob as folhas e escondeu-se. Limpei o que restou do casulo, senti revolta por tê-lo destruído, sentei sob a grande árvore, peguei meus fones de ouvido e pensei em meus pequenos crimes ambientais e em minhas histórias mal criadas. Enquanto isso, ainda ouvia música clássica o homem vaidoso que abre janelas com o mesmo vigor com o qual me esquivo. Como disse, vejo tudo como é. Minha realidade é alvo do eterno fictício.











07 janeiro 2017

fios da história







Leitora


Gosto tanto de livros que não me atrevo a explicá-los. Sequer conto os livros que tenho pela casa. Eu os deixo na estante, na mesa ao lado da cama, no quarto de passar o dia. Sim, eu tenho um quarto de passar o dia. Nele me debruço sobre coisas que existem, sobre coisas que não existem e sobre minha preguiça. Tenho muita preguiça. E dela tento me livrar. Para isso, recorro aos livros. Eu os leio para manter em funcionamento o que penso e, por consequência, não dormir demais. Dormir é fuga, disse a terapeuta. Mas também pode ser cansaço. Tento não dificultar coisas com nomenclaturas físicas, filosóficas e tolas. As coisas são o que as coisas são. Aceito. E meus livros não precisam de minha explicação. Eles só precisam que eu os leia.




Escritora


Não entendo escritores que fazem questão de dizer que não são escritores. Do que estarão fugindo? Da culpa? Da plateia? Do peso que é escrever e sustentar o que se diz? Não entendo. Como pode um homem que constrói casas não querer ser visto como o homem que constrói casas? E se acaso a casa vir abaixo, quem irá se responsabilizar pelos danos? E se a casa se tornar bem vista por todos em bela construção, virá o homem dizer que é sua a engenhosidade que está ali? Como poderá dizer da casa se ele mesmo não gosta de dizer que é o responsável por ela? Por que fugir? Por que esconder-se em falsa modéstia? Eu sou escritora. Meu ofício é lidar com palavras. Se o faço ou não com maestria, já é outra história.




Mulher


O que mais me atrai em um homem é sua forma de lidar comigo. Só isso. O resto é criação do mundo.