16 janeiro 2017

invólucro








Mudei. Vejo tudo como é. Nada invento. Roupas coloridas separadas das roupas pretas e brancas que, de fato, também são coloridas. Nada tem ausência de cor. Amor é amor. Não transborda um centímetro. Filho é filho. Minha paz, perdição e equilíbrio.





Bonito o que vi. Ao dar banho no cachorro, ele ouvia música clássica. Perguntei o que era. Ele, sem pensar duas vezes, sentiu-se envaidecido. Pela primeira vez em meus silêncios, demonstrei que me importava. Venci. Sempre que saímos da zona de conforto da indiferença e do egoísmo, vencemos. Calculei isso ao assistir filme reprisado de falas que já havia decorado. Quanto menos me importo comigo, mais me importo comigo. 

É no altruísmo que se esconde o ego fingido. 

Abri a porta e descobri, em pleno dia, um casulo no alto da varanda. Não me feriu ver o casulo na parede. Mas o que pensariam as visitas se chegassem a minha casa e vissem que crio casulos? Por ordem dos outros, tive que destruir a casa de marimbondos. Havia apenas um inseto. Encolhido e embrionado. Com todo cuidado, e com a pá, deitei a pequena criatura no canteiro. Ainda encolhida e curvada, arrastou-se para um canto escuro sob as folhas e escondeu-se. Limpei o que restou do casulo, senti revolta por tê-lo destruído, sentei sob a grande árvore, peguei meus fones de ouvido e pensei em meus pequenos crimes ambientais e em minhas histórias mal criadas. Enquanto isso, ainda ouvia música clássica o homem vaidoso que abre janelas com o mesmo vigor com o qual me esquivo. Como disse, vejo tudo como é. Minha realidade é alvo do eterno fictício.











07 janeiro 2017

fios da história







Leitora


Gosto tanto de livros que não me atrevo a explicá-los. Sequer conto os livros que tenho pela casa. Eu os deixo na estante, na mesa ao lado da cama, no quarto de passar o dia. Sim, eu tenho um quarto de passar o dia. Nele me debruço sobre coisas que existem, sobre coisas que não existem e sobre minha preguiça. Tenho muita preguiça. E dela tento me livrar. Para isso, recorro aos livros. Eu os leio para manter em funcionamento o que penso e, por consequência, não dormir demais. Dormir é fuga, disse a terapeuta. Mas também pode ser cansaço. Tento não dificultar coisas com nomenclaturas físicas, filosóficas e tolas. As coisas são o que as coisas são. Aceito. E meus livros não precisam de minha explicação. Eles só precisam que eu os leia.




Escritora


Não entendo escritores que fazem questão de dizer que não são escritores. Do que estarão fugindo? Da culpa? Da plateia? Do peso que é escrever e sustentar o que se diz? Não entendo. Como pode um homem que constrói casas não querer ser visto como o homem que constrói casas? E se acaso a casa vir abaixo, quem irá se responsabilizar pelos danos? E se a casa se tornar bem vista por todos em bela construção, virá o homem dizer que é sua a engenhosidade que está ali? Como poderá dizer da casa se ele mesmo não gosta de dizer que é o responsável por ela? Por que fugir? Por que esconder-se em falsa modéstia? Eu sou escritora. Meu ofício é lidar com palavras. Se o faço ou não com maestria, já é outra história.




Mulher


O que mais me atrai em um homem é sua forma de lidar comigo. Só isso. O resto é criação do mundo.









03 janeiro 2017

já é manhã na indonésia










Carlos não escreveu. Ou talvez as cartas tenham sido extraviadas. Melhor assim. E se acaso Carlos tenha escrito, não faz diferença alguma. Não queria mesmo ler palavra que fosse. Carlos não entende minha liberdade. Nem eu. Mas eu tenho o direito de não entender minhas coisas. Carlos, não. Pessoa nenhuma deste mundo tem o direito de meter o corpo no que é meu.

O que é meu é meu.
Já calei demais para agora ter que ficar acuada.

Carlos comprou-me uma bicicleta e disse: Pedale por este caminho. Apontou, com o dedo vingativo, a trilha estreita do jardim de nossa casa. Eu não sabia andar de bicicleta. Porém, aprendi. Caí muitas vezes. Meus joelhos sabem das marcas. Carlos queria que eu pedalasse, mas somente no caminho no qual ele me havia apontado. Quando debandei da trilha, e pedalei pelo pasto, Carlos tomou-me a bicicleta. Chorei por dois dias. Enfiada sob as cobertas floridas da cama do quarto de visitas, deixei lágrima ensopar a fronha do travesseiro. Dolores ainda tentou me fazer sorrir ao contar história de sua família Etíope. Dolores me faz rir porque mente muito bem. Gosto de mentiras bem contadas. Posso até imaginá-las.

Mas não consegui rir da história dos Etíopes.
Dolores calou-se e me deixou só.
E estar só é como estar nu.

Percebi minhas imperfeições. Minhas imundícies. E percebi, claramente, como sou bonita. Toda livre. Depois de chorar muito e tentar curar meus arranhões causados pelas quedas, deixei o quarto e peguei briga com Carlos. Eu queria de volta a bicicleta. Ele, convicto, mandou que eu me aquietasse e fechasse o bico. A bicicleta já era, dizia Carlos. Repetiu a sentença por dias. Aceitei a ausência de minha companheira de pasto. Da bicicleta. O que Carlos não percebeu foi que, ao me permitir pedalar, permitiu-me muito mais. Ao apontar com seu dedo vingativo o caminho, permitiu que eu ultrapassasse meu limite. O pasto era imenso. Eu estava pronta para conhecê-lo. Uma vez que se toma a liberdade pelo corpo, Carlos, nunca mais se aceita a prisão.

E talvez ele tenha escrito as cartas.
E por Deus, peço ajoelhada: que tenham sido extraviadas. 
Eu não aceito mais suas palavras vãs.












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