28 julho 2018

atrapalhados







O menino catava os descartáveis no lixo e ouvia, com seu carrinho de puxar tralha, uma música terrível. Ajudei a criança a coletar as garrafas plásticas que eu havia separado e tentei não dar ouvidos ao estrondo e ritmo daquela canção que só gritava sobre bebida, palavrão e pornografia. O menino cantarolava e, vez em quando, batia as garrafas uma na outra na tentativa de reproduzir aquele som. Minha inquietação não me permitiu calar. Chamei o menino e perguntei por que ele tanto gostava daquela música. O menino sequer entendeu minha pergunta. Me olhou como se olha na cara de gente maluca e deixou escapar uma risada. O riso de zombaria me encorajou ao desafio de pedir ao menino para ouvir algumas canções salvas em uma plataforma musical instalada em meu celular. Nem me dei ao medo do menino roubar meu telefone. Eu só queria compartilhar com ele parte do mundo que conheço. A criança aceitou o desafio, mesmo com sua cara de presa que teme predador. Aproximou-se de mim e, então, deixei tocar Erik Satie por quase dez segundos inteiros, até que o menino me interrompeu com interjeições de incompreensão e palavras de zombaria. Nos olhos da criança desmantelada nem brilho fosco surgiu. Talvez estivesse com fome, pensei. Mas não desisti. Insisti para que ele ouvisse outra música. O menino arranjou desculpa dizendo que a mãe o esperava no fim da rua. Mesmo assim, insisti. Só mais uma e deixo você ir, prometi. Dessa vez, procurei somente o instrumental de uma canção dos Beatles. Encontrei Please Please Me. Sem as vozes em língua estrangeira ao menino, o som atraiu sua atenção. Percebi que sua cabeça se movia acompanhando os acordes. Os pés se moviam com timidez, mas se moviam. Finalmente um sinal de que não era de tal forma imensa a distância entre o menino e eu.

— Oxe, Tia! Isso é forró?

Eu sorri ao ouvir do menino sua pergunta e respondi:

— Isso é o que chamam de rock and roll.

O menino encabulado coçou a nuca e deu mais risada. Usou sua linguagem para dizer que havia gostado da música, pegou outras garrafas que estavam separadas em um saco plástico, jogou tudo em seu carrinho e seguiu viagem. Eu fiquei parada na calçada observando o menino se distanciar. Dentro de mim eu sentia algo revelador, pois nunca imaginei ser tão simples dar ao outro o mundo que conheço. Ao meu primeiro movimento para entrar em  casa, ouvi de longe o que seria a música horrível que o menino ouvia em seu carrinho de puxar tralha. Parei, respirei fundo, me dirigi à cozinha e tratei de lavar os pratos.










22 maio 2018

folclórica








Ainda me fascinam as histórias que percorriam salas e corredores do Educandário Santo Antônio. Como o prédio pertencia ao aglomerado de construções da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, tudo na escola era antiguidade. Desde o piso, de ladrilho hidráulico, às grandes janelas e portas arredondadas, a atmosfera era por demais barroca para os dias de avenidas e carros. Dentro da escola, o vento trazia ingenuidade na voz das crianças com as quais eu estudava. Recém-chegada de são Paulo, eu pouco entendia do folclore e sotaque dos meninos e meninas que se alegravam quando a merenda era servida: pão francês e mingau para cada aluno. Era um dos lanches mais deliciosos. Durante as aulas de matemática, ainda lembro da professora Lourdes fazendo contas de adição e subtrair com o uso de régua e dominós para facilitar a compreensão de todos. Não havia bullying. Eu, por exemplo, por deixar com que os cabelos caíssem em cachos sobre meus olhos, era chamada de Medusa. Alcunha que não me feria, a não ser quando dita com certa petulância por algumas meninas. Talvez o mundo fosse mais pueril. E as histórias, que hoje sei que se tratam de lendas urbanas, eram fascinantes. Havia uma que fazia tremer de medo qualquer um que perambulasse sozinho pelos banheiros, pois era dito que uma mulher havia morrido ali e seu fantasma assombrava a escola. A mulher do algodão era o mistério maior daqueles tempos. Dizia-se que sempre que alguém visse um tufo de algodão a flutuar pelo banheiro era sinal de que ela estava por lá, esperando uma vítima para assustar ou fazer vingança. Nunca soube ao certo o enredo verdadeiro da narrativa. E nem me importava saber. Tudo o que eu queria era sentir frio na barriga e medo ao correr com as meninas assustadas e risonhas quando um de nossos colegas inventava de dizer que tinha visto A Mulher do Algodão. Havia também a Comadre Fulozinha, que assobiava e enfeitiçava qualquer um que ousasse lhe perturbar. Eram as histórias de minha infância. Histórias lúdicas que permanecem vivas em minha memória que busca, de vez em quando, refúgio na vida antiga que não feria tanto quanto essa que se assume diante de nós. Se fecho os olhos, e permaneço atenta, ainda posso ver os meninos a correr empinando pipas e jogando futebol com suas bolas de meia. Com todo cuidado e respeito ao passado, é capaz que eu ainda me veja a rabiscar redações para as aulas de português em um mundo passado rico em lições e histórias.

O mais curioso de tudo é que, por mais que eu sentisse medo, mais eu o enfrentava. Talvez seja esse o segredo.