04 dezembro 2016

pedra polida












O vizinho bate à porta. Deveria me sentir grata por ter onde morar. Por ter um teto que me cubra. Calo. Sorrio para o homem que aparenta ter a idade de meu pai. Fui educada e polida de tal forma que não destrato ninguém. Agradeço até pontapé. O homem reclama da árvore.

— Percebe como está soltando folhas?

Respondo sorridente. E guardo para mim a segunda opinião. A verdade que é minha. Pois não me importam as folhas que caem da árvore. Minhas preocupações são outras. Mas nada explicarei ao vizinho que aparenta ter a idade de meu pai. Invento uma desculpa e digo que cuidarei de podar a coitada da planta presa pelo concreto que cerca o jardim.

— A senhora há de entender.

Entendo tudo. Porém, não digo. Tenho preguiça de dizer o que penso. Por isso, escrevo. E não diria ao vizinho que estava ocupada escrevendo. O homem, que aparenta ter a idade de meu pai, não entenderia a importância de escrever. Não há importância em escrever. Que inútil, diria o vizinho. E eu concordaria. Tenho mania de concordar com o que discordo.

— Espero que tome providências!

Tomarei vinho. Isso sim. E ficarei sob a árvore, me deixando tocar pelas folhas que caem. Me deixarei quieta, sentindo o áspero de cada folha em minha pele de mulher educada e polida que agradece até pontapé. Eu deveria mesmo ser grata por ter ainda as mãos livres e a honrosa permissão para escrever.














29 novembro 2016

o agudo do isolamento








Bom dia! Cigarro aceso e xícara de café. Tudo faz mal. Inclusive, não fazer nada. Então, façamos! Vamos jogar a culpa no outro? Já decidi. Eu vou bancar existencialismo quando, para ser sincera, sou mais prática que um carteiro, pulando casas para adiantar o trabalho dos Correios. Estive ocupada organizando uma antologia de contos escritos por mulheres paraibanas. O título da obra é Ventre Urbano. Saboreio o resultado de dois meses de trabalho, de correria, de catar espaço na grande galeria de eventos. Tudo acontece a seu tempo. Logo, eu me aconteço. Este é o meu tempo. Perdoe meu silêncio. O agudo do isolamento. Mas confirmo que, cara a cara, converso mais que velha solitária ao rever amigos. Ou velho. Solitários não tem gênero. O que lhes coloca em uma só categoria é a solidão, seja por escolha, seja por falta dela. Não me compadeço dos solitários.

São felizardos.

Até certo ponto.

Tudo tem limite.

O mundo continua me roubando horas. Culpa minha porque permito. Eu poderia ficar inerte e deixar a vida acontecer sem que minhas mãos tratem de moldar a argila que nos fragmenta. Porém, sou intrometida. Estou metida em tudo até o pescoço. Falo, exagero, calo, subtraio, exijo, disfarço. Sigo sedenta por água que falta. Mas se está em falta, entenda, eu não deveria ficar sedenta. Deveria, de verdade, tratar das coisas que posso. Tirar poeira dos retratos, escrever histórias, amenizar meus dramas e congelar amores até que eu esteja pronta para vivê-los. Mas quer saber? Eu vivo tudo. Minha alma racional faz planos que curto, engulo e solto. Sempre a favor do vento.








Aos interessados na antologia Ventre Urbano, cliquem na capa!
Em breve, publicarei algo sobre a antologia.





31 outubro 2016

fúria









Para qual batalha
me preparam os homens despojados?
Qual embate infeliz
irá manchar minhas mãos?

A solidão,
antes perversa a me espiar,
agora é meu desejo
todo feito de amor platônico.

Por que dizem me amar
estes que pretendem masculinizar-se
entre minhas pernas?
Mal sabem!
para estar comigo é preciso
Ódio e Fúria.
Oposto ao cio.

Nada quero das larvas últimas
que alimentam-se de velhas histórias.
Quero o avesso.
O jovem.
E, muito embora não me cause gestação,
é deste amor indiferente que vivo.

Das plásticas palavras
de um discurso bem tecido,
Retiro lustro.
Engulo lixo.
Faço de mim estátua célebre
para a qual deixarei
Minha sombra e memória do que me é ausente.

Pergunto novamente!

Para qual batalha
me preparam os homens despojados?
E por que está a me presentear com flores
O gigante mercenário?