22 março 2018

versado






Inventava que era poeta. Não passava uma noite sem que esquentasse meus ouvidos com seu hálito de menta e suas palavras enfeitadas. E sempre, ou quase sempre, o poema começava com Tu és. Aquilo fervia meu sangue. Sentia ódio. Homem chato dos infernos! Preparei-me, então, para surpreendê-lo com versos dignos escritos por mim mesma. O dia inteiro amarrotei palavra, uma sobre a outra, só para jogar na cara do falso poeta. Ao anoitecer, eu estava pronta para enfrentá-lo. Esperei por horas. E quanto mais eu esperava, mais o verso se revoltava dentro de mim. Aconteceu de o homem não aparecer, nem na outra noite, nem nas três noites subsequentes, fazendo com que minha cólera aumentasse. Para cada dia de sua ausência, escrevi um monte de poema. Foram muitas noites escrevendo, tanto que me acostumei e não havia outra coisa que me aliviasse mais que escrever. Toda hora me surgiam palavras, estrofes, métricas, rimas, lirismos... Até hoje, escrevo. Vinte anos depois. Publiquei livro, ganhei prêmio e sou convidada a falar de poesia em tudo quanto é canto, muito embora eu nunca saiba o que dizer. Pois para mim é simples. Poesia é o hálito de menta daquele homem do passado que me atormenta.









17 fevereiro 2018

pacto







Nunca vi alguém tão feliz após ouvir o que eu tinha a dizer. Aceitei minha canalhice e joguei as cartas na mesa. Liberdade é sempre aos poucos.



Uniu as mãos e aplaudiu o que Leonora acabara de dizer. Um terapeuta que aplaude vale mais que mil plateias, pensou Leonora, enquanto apertava o botão do elevador que a levaria do topo ao térreo onde, vestido de preto e mal-intencionado, Jonas esperava. O cara fumava um cigarro marrom que cheirava a um tipo de fruta. Leonora perguntou, de forma muito calma, se ele não teria um cigarro de verdade.

— Eu quero um cigarro de verdade.

— O que há de errado com esse aqui?

— Isso não é cigarro. É enfeite.

Jonas entendia Leonora de maneira que poucos conseguiam. E por essa razão ela permanecia a encontrá-lo, a cada fim de sessão terapêutica, sempre nas sextas-feiras.

— Para onde vamos hoje?

— Eu quero sexo, Jonas. Só isso. Não precisamos sequer conversar.

Ele entendeu. Esperou que Leonora terminasse de fumar o cigarro de verdade, entraram no carro e seguiram para um motel qualquer, já que o objetivo era sexo. O cenário pouco importava.
No rádio do carro, Paul McCartney cantava Band on the Run. Leonora olhava as ruas pela janela do carro e Jonas cantarolava junto com a canção. Ao chegarem ao motel, Jonas ensaiou um carinho. Tentou acariciar Leonora, que se retraiu como bicho que teme aproximação.

— Pegaram pesado com você hoje, Leonora?

— Eu peguei pesado comigo hoje, Jonas.

— Você está mais estranha que nunca.

Leonora deixou o silêncio como resposta e entrou no quarto que exalava aromas de desinfetante e outros odores de sexo e bom ar. Apagou as luzes, deixando apenas aceso o spot que iluminava um quadro feio que enfeitava uma das paredes do quarto.

O beijo veio feroz. Língua em silêncio faz ritmo quando toca outra língua. Jonas também não era de muita espera. Deixou que Leonora fizesse de pressa o que poderia fazer devagar e a noite inteira. A mulher parecia faminta. O homem entendia, pois também sentia. Mas como haviam combinado, desde o início do pacto, nunca usariam palavras românticas ou adocicadas, nunca deixariam os sentimentos pelo caminho e, o mais importante, nunca usariam seus verdadeiros nomes.

No caminho de volta, a mulher fumava o cigarro aromático de mentira.










30 dezembro 2017

primeiro traço








and I'm becoming transfixed
with nature and my part in it
which I believe just signifies
I'm finally waking up

(Ani DiFranco)





Sonhei que estava rindo. Rindo de dar risada mesmo. Em alto e bom som. Sentada ao lado de outras mulheres, que assim como eu estavam rindo, sonhei que me divertia. Acordei lentamente e olhei pela janela do quarto. Vi o céu azul, o telhado da casa vizinha, espreguicei o corpo e me coloquei de pé. Respirei fundo, como dita o costume sempre que me acordo, calcei meus chinelos e fui à cozinha fazer um café bem preto de acordar bem. Depois me sentei no jardim e fiquei a observar meu cachorro caminhar entre os canteiros. Ouvindo música em meu celular, que mais serve de walkman do que telefone mesmo, pois é raro eu telefonar para alguém, fiquei a lembrar do sonho que tive e sem querer percebi que há tempos não me divirto. Há tempos eu finjo que me divirto. E talvez muitas pessoas façam o mesmo. Eu finjo que me divirto ao lado de pessoas que sequer me agradam, finjo que me apaixono, finjo que amei a leitura de certo livro, finjo ter entendido o filme, finjo que gostei do beijo, finjo que ainda aguento outra dose de tequila. Eu finjo. E a sensação é a de que estou a fazer mágica ao contrário. Faço coisas que não me deixam feliz em busca de agradar a audiência. Na urgência de agradar pessoas, me desfaço, me desconserto, e tento me moldar. E descobrir o motivo pelo qual eu faço essas coisas é questão que resolvo em terapia. E comigo mesma também. Em tempos de fazer balanço acerca da vida, descobri um ser desconhecido e, muito embora aparentemente extrovertido, um ser tímido e reservado, que prefere ouvir música a telefonar, dormir a acelerar, e viver honesta ao que sou. Eu me descobri. Ao menos uma parte de mim está a se reconhecer. E é com muito prazer que me abraço e começo a compreender a nova de mim a cada traço de palavra que decido ou não redigir. Ser feliz é mais que rir.