23 agosto 2016

marluce inquieta












Decidida. Encho a cara de cachaça, caio na rua, beijo lixo e traça e, desapontada, irei à igreja me confessar. Cheia de culpa de nada, pois o mundo é quem me oferece o pecado; o que faço é aceitar. Não sou de negar o fel, o mel, nem as delícias que se expõem aos olhos de minha feição. Direi ao padre, através do cortinado, que apenas matei e roubei porque sou vítima do excesso, do trem possesso que viaja e traga passageiros como boca de engolir cigarro, à baforada o vício indiscreto. Levarei foto de Antônio, o amor que me engoliu, e exaltarei suas habilidades náuticas de tanto que mergulhou em mim. Contarei a história tim-tim por tim-tim. E não esquecerei, prometo, de falar mal de todo aquele que me recusou ouvido. Pois não é segredo que conversa honesta é meu artifício para escapar ilesa do medo e da solidão que se faz próspera em horas inquietas. Na verdade, minha conversa é com deus. Só ele entende o que não precisa entender. E quando abro meu verbo e conto meus pecados, deus ri de gargalhar, e já me revelou em sonho que, de todas as suas crias, sou uma das mais perversas. A fera que se alimenta de si, sou Marluce, e não sofro receios. Meu propósito é viver. Não me basta existir.





17 agosto 2016

embrionária








Faz tempo. Faz sol. Faz noite. Só espero que não se faça o fim entre nós.

(Flora Conduta)





Ouvindo uma canção, enquanto o Brasil tenta ganhar em competição olímpica. A gente só quer ganhar. Perder é coisa de quem não luta. Lembro, de novo, da Elizabeth Bishop e sua Arte de Perder. Eu perco sempre. Já estou acostumada e não me assusto. Perco o trem, perco a hora, perco a chance. Porém, para minha sorte, o tempo me traz boas coisas de volta. O trem passará todo dia. Horas se repetem. E a despeito de meu descuido com minha saúde, ainda estou viva. E sorridente. Já estive muito triste e por muito tempo. Motivo? Amor, eu acho. Já amei tanta gente que não conto para não me tornar deselegante. Amor é confidencial. E quem ama, de verdade, quase não o diz. Duvide sempre do amor em exposição. É ouro falso. E não leve muito a sério meus conselhos. Não sou boa em aconselhar. Sou boa em calar. Isso sim é o meu pleno ato de respirar. Calo porque preciso. Volto ao mundo das coisas que foram esquecidas. De minhas memórias. De meus infortúnios. De minhas vitórias. Eu venço e não convenço ninguém a me aplaudir. Aplauso forçado é feito voto de cabresto. Não presta. Nem serve de pretexto. E segue nossa guerra. Feita de risos e caminhadas. Não me sinto velha, nem jovem. Estou na flor da idade. No botão. E de mim brotará o que, da essência, mais me enriquece. O silêncio que antecede a explosão.








You can't start a fire
You can't start a fire without a spark

(Bruce Springsteen)









21 junho 2016

a obscena necessidade do verbo








Ocorreu a vontade de escrever e, com ela, o tempo de se deixar devota da escrita. Em 2014 comecei a elaborar o que se tornaria a obscena necessidade do verbo (Penalux - 2016). O escrito mais curto que publico. Curto e de muitas mãos. O original passou por diversas leituras e revisões. Sou dessas que escreve e pede a amigos apreciação. No tempo em que surgiu o manuscrito, nada era certo. Eu não sabia se o publicaria. Eu não sabia se queria publicar. Eu sabia apenas que precisava escrever. E, quando terminei, que fechei o caderno no qual o escrevi, pensei em deixá-lo quieto. Porém, em 2015, decidi reler e fazer com que fosse visto. A preocupação inicial era o gênero. Não é conto. Não é romance. Não é coisa alguma. Será? Minha análise é o próprio livro. Tentei, com unhas e palavras, dar voz a uma personagem que me perseguia por tempos. Lucélia não podia calar. E muito embora não fale com voz marcada, em a obscena necessidade do verbo, Lucélia está desperta. Em poucas páginas que me fizeram, por vários dias, tão cativa quanto curiosa, há coisas com as quais gosto de trabalhar. Coisas miúdas. Coisas esquecidas. Poeira sob o tapete que, por teimosia, sacudo e entrego ao tempo.



É isso.
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