11 fevereiro 2017

bastian








O quarto havia sido alugado para que eu ficasse apenas por duas semanas. Terminei por permanecer mais de quinze anos. O cubículo tornou-se minha casa. Paredes coloridas e móveis poucos. Uma cama, um criado-mudo, uma poltrona, uma escrivaninha, um minúsculo guarda-roupa, mesa de passar, que também me serviu de mesa de comer, e um quadro na parede norte, oposta ao sol. Cuidei do quarto como quem protege a própria vida. Ele estava sempre limpo. Nenhuma teia de aranha o cercava. Nem poeira. Era meu oficio, sempre antes de descer para o trabalho, limpar tudo. E sempre que o fazia, a cada canto visitado, era como tocar Bastian nos lábios, o homem francês que conheci na ferroviária em dia de trocar meu corpo por miúdos. Ele era o alvo certo para a ocasião inesperada. Nunca procurei homem algum para aplacar solidão. Não precisava. Acostumada a ser só, eu me bastava. No entanto, quando ele me olhou nos olhos, perdi a compostura.

Alegrei-me demais.
Sorri imenso.
Eu quis Bastian ao primeiro toque.

Nem pagamento aceitei. Deixei de lado meu profissionalismo e o amei. De graça. Nos encontramos alguns dias depois e tudo já estava arranjado: moraria no quarto ao lado. Este ao qual agora olho e me despeço.

Bastian dividia espaço com sua mulher de nariz fino. Muito bonita. Talvez, por tal motivo, eu tenha decidido ignorar sua existência. Era bela de olhos singulares. Embora eu dissesse a Bastian que pouco me importava sua vida em casamento, tudo me feria por dentro. Lembro das noites em que ele relatava suas brigas, seus confrontos, tanto sexuais, quanto cotidianos. Passei a ouvir suas histórias com um prazer muito secreto. Imaginava as cenas que ele narrava. Queria viver sua vida. Ele contava de sua mulher, dos beijos aos atos obscenos que cometiam. Dizia da cor de seus lábios. Das ancas. E da forma como ela se entregava a ele sem medo algum. Bastian chegou a rabiscar ilustrações de seu corpo ao lado do corpo da mulher. Eram perfeitos. E sempre que precisava me ferir, pois é disto que amor sobrevive, ele me fazia ouvir gemidos roucos de seu gozo ao lado daquela a quem pertencia. Eu me alimentava disso. Era o artifício que eu usava para nossas noites de baderna e revelia. Eu nunca me poupei de amá-lo e de fazê-lo sentir a mesma dor que eu sentia ao saber que, no quarto ao lado, de orgasmos ele sobrevivia. Eu pertencia a Bastian. Ele me arrumou o quarto e o emprego no café no qual, até hoje, de avental surrado, eu trabalho. E seguimos vivendo, em nossos encontros cronometrados. Sempre escondidos. Eu adorava aquilo de ninguém saber. Quando acontecia de nos esbarrarmos no corredor da pensão, eu o cumprimentava como vizinha qualquer. E olhava forte os olhos de sua mulher de nariz fino, mãos delicadas e corpo esguio. Bastian me sorria. Que belo canalha! Eu não poderia deixá-lo. Um bom canalha vale mais que mil homens de palavra. Ele me torneava. Ele completava em mim o que não precisava ser completo. Era certeiro como flecha em largo alvo. E meu corpo era de sua visitação. O homem me inspecionava como um cão. Farejava, de longe, minhas tristezas, minhas angústias e ainda me elevava ao máximo ao dizer que eu era livre para estar com outros. Coisa que eu não fazia. Meu código de conduta é rígido. Uma vez nas mãos de um, nunca estaria nas mãos de outro. Aprendi francês, e falo muito bem, devo admitir. Aprendi muito de mim através de Bastian e de suas histórias de mundo e mulheres. Eu sabia mais de sua vida do que ele mesmo ousava saber. E certo dia, por ser inevitável o destino, Bastian decidiu morrer. Sofri. E de minha dor tomei a decisão mais acertada de todas. Em seu funeral, ao avistar sua mulher chorosa, encarnei Bastian nas veias. Eu a tomei nos braços e a beijei em busca dos lábios sobre os quais tanto ouvi dizer. Eu tomei em meu corpo o corpo do qual Bastian desfrutou todo prazer. A mulher retribuiu minha busca e, desde o tal dia, estamos juntas. E nos conhecemos através de Bastian que, para nossa surpresa, relatava sua mordomia em nossas camas. Nós sempre soubemos uma da outra. E sempre nos desejamos. Em silêncio. Através da morte do homem, descobrimos o quanto ele nos havia tornado vivas. Ele nos ensinou. Que descanse em paz Bastian. Serei eternamente grata por ter me trazido em mãos o amor.











27 janeiro 2017

horas pálidas








Homem, eu te escrevo. E não espero retorno do que direi. Me largo em folha de véspera tempestade que devasta a casa, o piso e a margem de meus rios de prosa. Em ti eu teria feito o poema perfeito, exato como o tempo, e seu declarar de vivências. Amei em um único fôlego, nunca amiúde, pois de tal forma não me daria ao prazer do sentimento que afago, tão somente meu e de meus agrados. Não posso te escrever, homem. Não ostento o desejo de invadir tua vida e causar danos ao teu lar de mãe e filho que vivem sorridentes ao teu redor. Não é minha intenção penetrar em cômodos que não habito. Não é minha intenção alardear o que sinto. Contudo, homem, o que devo fazer de mim agora que o sentimento invade minhas horas pálidas de espera e agonia? Ouso emancipar-me. Preciso te esquecer, sentimento náufrago, antes que de ti me construa a própria face. De renovada esperança, em passo firme e sem constrangimento, de ti me aparto. E te desejo o remorso indecente dos que desistem de meus laços.









16 janeiro 2017

invólucro








Mudei. Vejo tudo como é. Nada invento. Roupas coloridas separadas das roupas pretas e brancas que, de fato, também são coloridas. Nada tem ausência de cor. Amor é amor. Não transborda um centímetro. Filho é filho. Minha paz, perdição e equilíbrio.





Bonito o que vi. Ao dar banho no cachorro, ele ouvia música clássica. Perguntei o que era. Ele, sem pensar duas vezes, sentiu-se envaidecido. Pela primeira vez em meus silêncios, demonstrei que me importava. Venci. Sempre que saímos da zona de conforto da indiferença e do egoísmo, vencemos. Calculei isso ao assistir filme reprisado de falas que já havia decorado. Quanto menos me importo comigo, mais me importo comigo. 

É no altruísmo que se esconde o ego fingido. 

Abri a porta e descobri, em pleno dia, um casulo no alto da varanda. Não me feriu ver o casulo na parede. Mas o que pensariam as visitas se chegassem a minha casa e vissem que crio casulos? Por ordem dos outros, tive que destruir a casa de marimbondos. Havia apenas um inseto. Encolhido e embrionado. Com todo cuidado, e com a pá, deitei a pequena criatura no canteiro. Ainda encolhida e curvada, arrastou-se para um canto escuro sob as folhas e escondeu-se. Limpei o que restou do casulo, senti revolta por tê-lo destruído, sentei sob a grande árvore, peguei meus fones de ouvido e pensei em meus pequenos crimes ambientais e em minhas histórias mal criadas. Enquanto isso, ainda ouvia música clássica o homem vaidoso que abre janelas com o mesmo vigor com o qual me esquivo. Como disse, vejo tudo como é. Minha realidade é alvo do eterno fictício.