sol e névoa


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SOL E NÉVOA, ESTILO E PALAVRA DE LETÍCIA PALMEIRA




por Edson Martins
Professor de Literatura Brasileira (URCA/CE)




O romance, para mim, é um dos artefatos mais complexos que a caminhada da humanidade sobre o planeta já produziu. É uma espécie de recesso inacessível da alma de seu autor, que ficaria oculta sob as tiras de letras no papel, e é, ao mesmo tempo, um gesto de desnudamento tão escancarado das entranhas emocionais de quem escreve, que devia até ser um tipo de atividade altamente desaconselhado, como alpinismo e mergulho em cavernas.

Na sua luta contra o esquecimento e a morte, autores se lançam na dispersão desse presente, pudico e obsceno. A experiência humana, suas dores e alegrias, a busca da palavra que salta da consciência e atinge o Belo eterno, a necessidade da confidência e a compulsão à mentira, tudo isso é causa e consequência desse impulso demasiado humano que é escrever romances.

Ler romances é parecido e é, também, muito diferente. É uma luta, um deleite, uma busca e uma bolha de suspensão da atividade da vida diária.

Tudo isso me ocorre com alguma frequência, em virtude de minhas preocupações profissionais e por conta de meu ofício de leitor, mas as cogitações de que acabo de falar se conjuraram maliciosamente, enquanto eu lia e relia esse Sol e Névoa, de Letícia Palmeira, quando uma pergunta me acompanhava, página após página: “vou continuar gostando do que estou lendo”?

As personagens de Sol e Névoa ajudam muito nessa sensação de que estamos diante de um romance que merece ser lido. São personagens construídas em chave de incompletude, de busca. Juliana, por exemplo, no trajeto de sua composição na direção do acabamento sem o qual não há personagens, é traçada por Letícia com mão firme e segura. Ela é a jovem que ama, mas é a jovem que intui que seu amor é um movimento autodestrutivo. Como Juliana, há muitas. Para ser convincentemente a Juliana que o leitor conhecerá, ela precisa se mover na direção de uma figura, de algo que significa, de um objeto estético que está ali por motivos irrenunciáveis. Esse é o seu acabamento. É um contraponto ao amor de Lívia, mas é figura do amor materno, do amor filial e fraternal e, enfim, de um amor-próprio que lhe concede redenção. Tio Romero e Tia Vitória, Arminda e Melissa são, naquilo que excitam minha sensibilidade, faces desse prisma que é o amor tematizado no romance: formas de entrega e renúncia, ilhas de mistério e continentes de felicidade plana e (re)conquistada e abismos de encontro e desencontro. São vibrações que fazem soar a incompletude mendicante do ser humano e a incompletude de nossa capacidade assombrosa de entrega e doação. Lívia e Bernardo, protagonistas, são ainda mais bem delineados, sem, contudo, fugir da chave.

O risco seria traduzir isso com palavras, cilada de que Letícia Palmeira escapa, sem grandes malabarismos e com segurança serena. Suas personagens não são quebra-cabeças verbais: são gente, dessas que a gente conhece por aí. Esse momento de verdade é um momento de veridicção, expressão de um poder de desvelar, de mostrar um flagrante da verdade do mundo da vida. Não são poucos os romances que fracassam nessa busca, cheios de personagens que mal conseguem ser uma ideia. Não são verdades, são julgamentos e, como tal, são monumentalmente tediosos e de difícil compartilhamento. Sem dúvida, almas sensíveis e discretas, ancestrais, como a do menininho Eduardo existem, mas só funcionam num romance se forem personagens e não julgamentos. Está aí uma das virtudes mais sinceras desse livro de Letícia e quem puder conferir isso, certamente, estará exposto a esse mesmo prazer que tive, o prazer de conhecer e reconhecer pessoas.

O enredo é fluido e corrido com um riacho de fazenda da infância. Austero e honesto, como a cabana de Bernardo e como a linha que recorta o horizonte de Ribeiro das Caldas. O que não quer dizer que a trama seja desprovida de uma inteligente elaboração de segredos e de revelações. No meio das ações que vão sendo tecidas, Lívia e Bernardo vão se mostrando heróis de uma estirpe preciosa: não heróis da ação, mas da assunção. Atrevem-se a assumir um estilo de ser sujeitos e a aventura que acompanhamos é essa, com direito a encararmos muito do que nós mesmos já vivemos, mas sob a condução criativa e inteligente de uma romancista, decisivamente, promissora, capaz de nos surpreender.

A melhor das promessas de Letícia é um olhar de quem atravessa gerações, quando a tarefa ainda não se tornou uma mestria: Letícia disseca nossos fantasmas, mas não pretende esconder uma figura que represente os enigmas a serem decifrados pelo leitor; ela alcança, com muito proveito para o prazer de quem lê, aquela acuidade de quem vê mais, dos quem têm um excedente de visão que os move ao ato de comunicar. Esta é, para mim, que sou da geração de Letícia, a maior virtude do romance. Sol e Névoa tem a nebulosidade e a claridade na proporção certa, um verdadeiro achado em termos de composição. É um livro que, na sua ausência de pretensões e de exibicionismo, nos dá, generosamente, uma parcela bonita de vida e isso é algo que merece destaque, a vida! Espero que seus futuros leitores desfrutem do calor e da força que a palavra de Letícia Palmeira dividiu conosco. Evoé!








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Sol e Névoa


(Resenha de Franck Santos)






Dizem que simplicidade é um luxo. É o que poderia dizer de “Sol e Névoa”, romance de Letícia Palmeira. Na luxuosa simplicidade da capa, do enredo, da edição. Se as palavras se tornam interessantes, ei-la, literatura. Palavra que não encanta, não interessa, simples assim. Mas a linguagem de Letícia é acessível e precisa; cativou-me quando no início do romance há música e música é uma maravilha e os dias exigem uma trilha sonora, assim como nos dias dos personagens, envoltos por Legião Urbana, Alceu Valença, U2, Pink Floyd; quando nas nossas vidas exigem prosa e poesia e nos deparamos com Drummond, Jorge Luís Borges, Hemingway e muitos outros citados pelos personagens durante a narrativa.

Tão nossos conhecidos são Lívia, Juliana, Bernardo, Vitória, Maurício e todos os outros personagens que temos a impressão que parece algum vizinho, parente, colega de trabalho. Assim como o cenário, que poderia ser qualquer fazenda do país ou em Toscana quando se imagina o sol, as solas emborrachadas dos sapatos de verão, a casa azul, as saias rodadas das moças...

Mas não pense que as emoções individuais não são afloradas nesse lugar de boa mesa, sol, céu azul, músicas e literatura. Letícia nos prepara para um exercício de compreender ausências nos corpos bem próximos. As condições humanas que dilacera o senso comum, o tempo, a maturidade, a mortalidade, as buscas, os anseios, as dores e alegrias. Tudo preparado para ser agora nesse tempo, no instante de um verão, tudo se encaminhando não exatamente para um desfecho, por mais que a narrativa se aproxime disso, mas para possibilidades que se abrem, mesmo que essas possibilidades sejam retornar ao passado.

Sol e Névoa é um livro para ser lido de um fôlego só. De preferência no fim de tarde, com um vinho e aquelas músicas que tenha uma ou duas faixas arranhadas naquele disco tão seu, isso se você ainda tiver vinil, como eu.




Um comentário:

Franck disse...

Obrigado por compartilhar!