a obscena necessidade do verbo



Um jorro de vida

(Marcia Barbieri)


Podemos afirmar que Letícia Palmeira é uma das mais intrigantes e necessárias escritoras da contemporaneidade. Claro que o contemporâneo é ainda um conceito obscuro e pouco ou nada nos esclarecerá de uma escrita tão iluminada e original. Quando cito o contemporâneo desejo frisar que a autora utilizou com maestria o seu tempo, o seu espaço, o seu contexto histórico e a subjetividade feminina. Não se trata de uma novela sobre o feminismo, mas de uma visão singular e uterina das coisas, dos objetos, dos personagens, dos cenários, do amor.

O texto é um maravilhoso fluxo de consciência, um jorro verborrágico, o qual coloca a autora ao lado de grandes escritoras como Hilda Hilst. Não conseguimos passar incólumes às palavras ferrenhas de Letícia Palmeira.
Encontramos uma escrita fluída, feita mais de matérias incorpóreas do que de carne: “Não há como viver sem alma”. A visão intimista e amargurada recorda os textos de Clarice Lispector e Virginia Woolf. A obscena necessidade do verbo é uma tese sobre a vida, uma vida sem espanto e com certa dose de cinismo: “A vida não é justa. Mas também não é folgada. É tamanho único”.

A narradora tem grandes insights a partir de fatos cotidianos e aparentemente banais como a limpeza de cristais, a fórmica da mesa ou um gole de café com adoçante. Temos a impressão que os objetos ao seu redor estão impregnados de vapor vital e a qualquer momento deixarão de ser inanimados e serão contemplados com o sopro da vida. A epifania pode estar guardada em uma gaveta do armário ou num canto escuro da sala.

Além disso, o texto disserta sobre a importância do tempo e da memória e da confusão desses dois conceitos tão abstratos: “Nunca sei o tempo exato. E de que importa? O tempo é sempre composto de memórias.”

Essa novela deixa evidente que estar vivo é lidar com as diferenças e com o inferno que são os outros: “Pessoas nos engolem”. Embora tenhamos uma novela em que apenas a narradora se entrega a um jogo verbal com uma interlocutora muda e contestável, será que existe uma interlocutora real? Lendo, chego a duvidar da passividade dessa interlocutora: “Ou apenas me fale de você. Pois, somente através do outro eu provo o quanto existo.”

A leitura de A obscena necessidade do verbo nos faz mergulhar na fragilidade e incompletude humana: “É árdua a tarefa de refazer o que sou. Assim como é árduo refazer o que você é. Nunca estamos inteiros.”

Sim! Nunca estamos inteiros! É evidente que nos diluiremos e sairemos fragmentados, amputados ao terminar a leitura dessa magnífica novela!

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