01 agosto 2010

flores de domingo





Pequena Resenha Crítica


Livro "Artesã de Ilusórios" - Um Tremendo Bordado Literário de Letícia Palmeira



A compreensão não é um saber abstrato.

É um saber em ação.

(Paulo de Camargo)



— Mas, afinal de contas, o que é mesmo que Letícia Palmeira escreve? Como classificar sua primeira obra, a estréia em alto estilo, de salto alto? Conto, crônica, ficção, prosa em verso, prosa poética, derramas subjetivos, criações letrais, pirações, qual a classificação narrativa do exuberante livro "Artesã de Ilusórios", Editora Universitária, UFPB, 2009? Essa é a questão.

Você começa a ler e, baba baby, fica encantado; acha que está entrando num conto, depois periga ver é ensaio, quando não começa meio croniqueta e vira conto, ou vice versa, para não dizer que não falou de flores, ela entra e sai toda prosa de narrativas mirabolantes que seduzem, cativam, tornam o livro um mosaico de tudo o que ela purga, fermenta, depura; olhar de artista descrevendo a vida, com paradoxos, entraves, janelas abertas de sua alma em jorro letral. Já pensou? Artesã de Ilusórios, é, talvez, mas só talvez, uma heroína insatisfeita buscando-se a si mesma, auditando valores existenciais, momentos, transgressões, tentando a autenticidade num mundo perdido, degradado...

— A mulher e flor-fêmea no exercício exuberante de toda a sua existencialização enquanto alma pensante, transbordando, dando corajoso testemunho, quando retrata, recolhe, registra e diz a que veio. Talvez para pensar a vida em que habita, levita, constrói e resgata peculiaridades em verso e prosa. É a mulher que não se basta, não se contém, não se enquadra. Somos continuações. Letícia Palmeira é a liga. Escrevendo ela se dá inteira, questionadora, a consciência-passageira no viço da vida, buscando a felicidade de participar, enxergar, se inserir inteira na paleta sensível de seu estar em si. A artesã que escreve é isso.

— Artesã de ilusórios tem guardados incontidos, com suas vertentes, feito um rosário de parágrafos, de palavras bem torneadas. O texto sagrando a lida da vida. Romântica e crítica. Com seus conceitos e incompreensões que mapeia, entre afetos e circunstancias de viver e ser. "O mundo de janelas abertas. São palavras em terno e gravata, grávidas, idosos, infantis, famintas e libertas. Palavras são a certeza e a visão concreta das dúvidas". (Pg. 21, Afeto Literário). Essa é a prosa viçosa dela, formada em Letras pela Universidade Federal da Paraíba.

Fala de bichos, gatos, elefantes, dragões, e também do bicho-homem, o bicho-ser, no olival bem ilógico da vida. Quer o arsenal dos verbos. A vida é crucial? Qual é a imagem de nós mesmos no contexto de uma sociedade adultizada e machista? Não, não podemos fugir do lugar e estar que somos. Ou podemos, no escreviver, os destemperos alucinados? No tear de Letícia Palmeira, de anjos a borboletas, cercando o circo da vida. Compondo ou recompondo. tudo. Flores e árias. Clarões. E ela mesmo também ri-se de si, do que agrega, do que envolve com sua criação "Tabuada decorada para dias de prova." (Pg. 47, Flor de Decassílabo.)

— Coletivo de pluralidades. Janelas. A madura escritora Letícia Palmeira pinta o quadro do que registra. "Vestígios de mim em outra face, num disfarce de casa antiga querendo mudar de lugar". (Pg. 63, Janelas da Voz). A Mãe de Pedro arde em si, evoca almas, momentos, cicatrizes, faz um espólio de tudo. Como Clarice Lispector, poda-se para permanecer inteira e sempre na florada. O submarino amarelo é mais embaixo. A vida tem seus subterrâneos, de anjos a demônios. O amor também pode ser uma droga? Ela é cheia de questões, feminina e lúcida. Poeta a parir prosa feito artesã de si mesma. Se não nascemos inteiros, vamos nos fazendo. Assim é a escritora Letícia Palmeira.

— Traz as compotas da vida em palavras. Os potes de açúcares literais. Diz do homem desconexo, de filosofias e ervas. A vida o que é? Fala de flores e de sabão em pó, fala de sol e de lua, de madalenas e banheiros. Será o impossível? Que perigo é uma mulher pensadora, sentidora, criadora, na plena posse questionadora de si e do que a cerca? A literatura de pequenos espetáculos resgatados. Ah os origamis dos dias...

— Quando escreve é só uma espécie de strip-tease, em que desnuda a vida em toda a sua magnitude? Que labirinto é o pensar/sentir/amar, um quebra-cabeças em que se situa sensual, come e bebe de literatura cozida em vapor de existencialização, feito um fio de Ariadne para ramificar a sua própria contemplação?

No livro, Zélia Farias (Especialista em Língua e Literatura Anglo-Americana pela Universidade Federal da Paraíba) muito bem diz: "Letícia foi Alice um tempo (...). Já era o tempo em que se cercava a Mario Quintana, Clarice Lispector, Virginia Woolf, Ana Cristina Cesar, Lygia Fagundes Telles (...)". Existir é a arte da paciência sem tédio ou remorso, ou muito pelo contrário? Letícia Palmeira é a busca viva desse entendimento. Mia Couto (in, Último Desabafo de Arcanjo Mistura), diz que esse mundo não é falso. Esse mundo é um erro. Será o impossível? Ah o solilóquio das reflexões depuradas!

— Na sua exuberante literatura, Letícia Palmeira escreve recortes de vida, páginas de angústia e desprendimento, paradoxos e cisternas, olhares plangentes, fragmentos e matizes corajosos, prosa e poesia, um verdadeiro liquidificador de idéias e cobranças a partir disso, feito uma artesã que junta carne e luz, céu e terra, caracóis e pedras, defeitos de fabricação e peças de reposição, coletivos e plurais.

O mundo está dividido entre magoados e inquietos, disse Gabriel Garcia Marques. Nem sempre a lágrima é a medida de todas as coisas. Ler Letícia Palmeira é um deleite. A flor corajosa da arte e da vida, numa linguagem que situa a lucidez e a criatividade. A mulher exercitando a sua plenitude. Daí, a literatura pura.

-0-

Silas Correa Leite – Autor de Campo de Trigo com Corvos, Contos. Editora Design.








Nota: Não gosto de escrever nota. Parece tão formal. Mas a gente precisa ser formal, penso. À revelia.

Silas Corrêa escreve poesia e, vez por outra, escreve resenhas críticas. Decidi presenteá-lo com o Artesã de Ilusórios. E, por fim, eu acabei recebendo um presente do Silas. Permanecem, então, as palavras dele. Um motivo a mais para que eu escreva. Não gosto do tal forjar atitude de indiferença quando alguém nos elogia. Pois, já dizia Drummond: "Escritores precisam ouvir". Acho que é isso.



Beijo para todos.


Letícia Palmeira

4 comentários:

Sonhadora disse...

E já li no e-mail. E concordar é pouco, mas é o que me resta como mortal leitora sua.

E tenho um orgulho tão puro de te ler. De ter lido seu livro duas vezes. E a terceira logo vem!

=]

Obrigada, Letícia. E não seja indiferente aos elogios, são sinceros e eu atesto.

E ler você inspira. Tenho escrito cada vez mais \o/

Beijo grande de domingo e obrigada pela atenção à sua pequena leitora aqui :D

Mai disse...

Hoje as flores são prá você, mas antes você já nos dera. O Artesã é um desses livros que depois de ser lido, se abre ao acaso e pumba, é um novo encontro e novas descobertas.

Que bom que você publicou, partilhando conosco este presente.

beijos,
você e o Artesã bem merecem.

lov u

Zélia disse...

Eu começo resenhando. Não seria eu se não o fizesse. Nas palavras de Paulo de Camargo, Silas começa demonstrando a sua compreensão sobre o "Artesã de Ilusórios": "um saber em ação".

Suas palavras exalam não apenas a sua opinião sobre o livro mas, especialmente, elas nos dizem que ele absorveu o livro e não apenas o leu. Só quem absorveu o primeiro livro de Letícia Palmeira é capaz de perceber as delicadas referências a textos do livro (as referências "claras" são, por isso mesmo, óbvias) e, então, desfrutar melhor das palavras de Silas.

Ter uma resenha escrita de forma tão profissional assim só pode ser mesmo um presente. E este é apenas o começo.

Uia! Kd eu?! kkkkkk

Joseph Almeida disse...

Oi Sobrinha!

Parabéns pela crítica (mais que merecida).

Com orgulho...Abração

Dalmo