20 agosto 2010

república





Solidão entre cinco paredes. Vezes mais, vezes menos e são belos seus pequenos azulejos imaginários portugueses. E construímos. Você constrói. Lembra o dia de ser herói? Salvar amigo, ainda criança, quando feliz corria em sua bicicleta e cai o menino e você o salvou. Enquanto chorava a criança, algo de valor fora dito, e fora de sua boca e, de um minuto a outro, a cena era completa e você pôde sentir felicidade em ajudar alguém. Mas o tempo faz esquecer. O dia seguinte transforma o que a gente sente. Isto é sorte. Porque se arde em nós a dor, pode ser que amanhã passe. Haverá cura para todo mal, o sol brilha e ainda existe motivo para continuar. E se acredita. E não hipoteticamente. É certo que navegamos cegos no mar de imensa gente, mas, entre o elaborar de todas as coisas, há mistérios que até os mais incrédulos se acometem e se atrevem a proteger. É este o mistério maior. Aguentar o tranco. E há quem aguente? As estatísticas não mentem. E se mentem, perdoa que será perdoado também. E vive em família. Família de um, geladeira quase vazia, dias de domingo sem fim. Família de dois, entre a discórdia e a hora de abrigar o outro corpo, contas e a fé na sabedoria e gera filho e cria mais família e faz o mundo ser maior. Família de tantos, tantas mulheres e tantos homens, de lá pra cá entre os cômodos da casa e respeita ordens porque não se faz barulho enquanto os mais velhos dormem seus sonos. E assim se faz república. Independente, prudente, grande mãe de todos nós. E lê e estuda tanto que o futuro traz respeito. E dá de cara com o vazio das portas fechadas e depressão existe. Não é invenção. A mãe diz que não. Depressão é invenção da nova era. Amigos falam em beber e você, querendo ser homem e forte, bebe com amigos, faz graça da vida e acredita, inocentemente, que no dia seguinte tudo há de se equilibrar. E faz família com moça que se aninha em seus umbrais. Metáfora? Não há quem diga. É que segue em margem a vida e, mesmo quando se desalinha, quando parte alguém antes da hora prevista, é ela quem dita nossas leis e, altruísta, que muitos dizem ser egoísta, a vida é o que ocorre entre a farta mesa de jantar e a devastada sala de visitas.




Image by Roman Kocian

6 comentários:

Luiza Maciel Nogueira disse...

prosa poética lindamente escrita sobre a realidade e a vida :) muito bom

bjs

Zélia disse...

Que bom seria se a vida pudesse seguir sempre "em margem"! Seria? Há quem diga que não. Há quem diga que é no "desalinhar" da vida que aprendemos a ser gente. É esse desalinhar, ora mais ora menos, que nos dá a capacidade de sentir a vida como ela é: para vc isso, para mim aquilo. E, consequentemente, é esse desalinhar que nos dá a capacidade de seguir. E seguimos porque somos fortes. ;)

Deia disse...

Letícia, vir ler seus textos é sempre estar preparada para sair modificada - no mínimo, alterada. Uma alteração boa, de quem questiona e não dá as respostas - estivessem elas prontas, não o faria do mesmo jeito, é assim que me parece. Você provoca o espanto, a dúvida, o desencontro. Tudo isso, tenho a impressão, para que possamos buscar as nossas respostas, os nossos encontros. Parabéns, acho que sou até repetitiva aqui, pois sempre fico encantada com sua escrita - mas, elogiar é uma arte, e você merece todos os elogios... Um beijo, Deia.

Sonhadora disse...

Que lucidez!


Seria lucidez a palavra certa? Não sei.

Essa coisa de família é sempre inquietude pra mim. Fico um tanto atordoada. Nem sempre é metáfora o que se diz...

-

Obrigada pelas palavras, por ser Letícia Palmeira e escrever!

:D
Beijo grandão!

Ilaine disse...

Oi, Letícia! Adorei sua escrita. Seu blog é belíssimo. Parabéns! Beijo

Marcelo Novaes disse...

Letícia,





Entre cinco: há teto.



Excelente texto anarco-republicano.








Um beijo.