14 setembro 2010

crônico tempo moderno



Voilà televisão e estamos com sorte. Hoje celebramos desastre de aviões em quedas e prédios tombados e a luxúria mora ao lado. Marilyn não era suicida. Apenas encurtou o caminho ao estrelato. E mulheres compram fogões blindados e assistem Leda Nagle Voz de Cigarro Hepático inteligentemente falar em Clarice Lispector, filme Cult, artistas e objetos voadores. Chá de cura é a televisão. Para toda criatura há uma saída. Vide Aldous Huxley. Mas adiantemos aos finalmentes. Geração que adoece mais cedo. Nossos pais, Belchior, não ficavam doentes antes dos trinta e as mulheres, elegantemente hippies, tinham filhos só de sentir o vento entre as pernas. Mulher hoje não engravida. É grave não deixar semente tua pela vida. Mas filho não é soma de se dividir como era antes. Todo mundo sendo criado aos trancos e espalhafatos. Filho é lei, ordem e progresso. Muito dinheiro para escola, gastos, pares de sapatos e paciência, consultas e terapeutas para não cair em loucura. Já diz o escritor de livro que ajuda: Pais e Mestres sabem guiar a manada. Feliz daquele que consegue acreditar em livro de auto-ajuda. Porque Estupidez é liberdade, Ventura. E falam da Elis Regina. Dizem que ela soube conciliar carreira, vida afetiva e moral. Dizem os livros biográficos que vendem feito banana. Só quem sabe da vida da Elis era Elis e ela já é Inês Morta e ainda corre a matriz do motor humano sancionando tablaturas para alcançar o futuro. No entanto, não dormimos. Andamos sonâmbulos. Agregados aos ritos do passado e tenha certeza que tempo algum vai repetir o passado. Não haverá hieroglifo dessa era escrito em parede alguma. Nem gente protegendo patrimônio histórico. Homem bicho escatológico chega ao fim do dia cansado acreditando que amanhã será outro dia e com fé a burra anda. Política demais faz perder a visão. Veja o que aconteceu ao presidente sindicalista que hoje se converte emergente. O fim está próximo. Claro que está. Basta que fechemos os olhos, tratemos de pensar bobagem, leia somente livro sagrado, peça a Deus, peque, mas somente no escuro quando ninguém esteja olhando e siga conselhos dos mais velhos: Trabalhe feito escravo, seja sensato, conte dinheiro, não traia, não caia, não pense por si mesmo. A ciência agora anula a sexualidade e gametas são depositados em laboratórios bem ao lado dos ratos. Descobriram o mundo ontem e hoje não há mais novidade. Deus está cansado. E o homem deixou de acreditar em milagres. Literatura não é lida, gente rica é quem dita, e ainda ontem no céu um imenso clarão. Testaram bomba para ver funcionamento. O que virá depois? Talvez Woody Allen, talvez o mundo inteiro unido através dos cabos interativos e estaremos juntos. Viveremos baseados em monóxido de carbono e hidrogenados. Nunca alienados. A vida se expande em seu grosso calibre, sirenes atravessam dias e seja otimista. Porque você é feliz mesmo que digam o contrário. E, para mais explicações acerca do mundo e seus mistérios, deposite imensos trocados e direi tudo sobre a História do Brasil, Cultura de Massa e Dietas Revolucionárias. Isso tudo virá a sua vida através de pensamentos positivos, cantigas de mantras e espantosas receitas milagrosas que nos deixaram de herança.




Em meus ouvidos,
Ani DiFranco.




Image by Slawek Gruca

5 comentários:

Tiago Hist disse...

Você normalmente é acima da média. Mas tem vezes que você supera a sua própria normalidade e entra na genialidade.

Ps1.Adoro seu [humor noir].
Ps2.Ani em meus ouvidos também.

A Escafandrista disse...

oi, letícia, mais um post daqueles, hein? to por aqui. abraço.

Sonhadora disse...

Uhul!

Meus dez melhores emoticons pra você!
:D

Aplaudindo de pé e gargalhando de desespero porque eu 'sou feliz mesmo que digam o contrário'.

Esplêndida essa Letícia.

;)

Sonhadora disse...

Ah,

e se acabei não dizendo que o template ficou perfeito...fica agora dito.

E adorei a abobrinha literária.
Sinto falta da miscelanea.
E, U2 é bom.

Boa noite, comadre.

8-|

Zélia disse...

:O

Gostei muito, ouço música e vejo sapatos andar em livros escritos por quem faz a vida acontecer. Se fôssemos capazes de ler nossos próprios escritos, seria a vida diferente?