08 setembro 2010

eu me LIVRO




Hoje, dia comum no calendário gregoriano, uma amiga me ligou. Eu estava pronta para fazer nada, deitar e olhar o tempo passar pela janela, quando, de repente: trim! Trim! TRIM! Eu atendi. A voz denunciou quem era. Nem precisou dizer. Aí veio a enxurrada de novidades. Eu ando fazendo isso, eu ando fazendo aquilo, quantos portugueses são necessários para limpar o jardim e assim seguiu a conversa. Até o ponto crucial quando, no auge do falatório, ela me disse: Não estou bem. Murchei. Como pode? Você está sempre bem. Sempre está sorrindo. Sempre está de pé. Admito que já cheguei a sentir inveja de sua alegria exagerada. Então me dei conta. Mas não é que as aparências enganam mesmo? E ela foi falando. Tenho passado por isso e mais isso e mais isso e outro isso e o mundo não é feito só dos livros que você lê, menina. Isso me tocou profundamente. Porque, enquanto minha amiga de longa data estava passando por todo o processo evolutivo de nossa era (casamento, desmantelo, divórcio, Deus nos acuda), eu estava plantando bananeira com o Neruda. Péssimo, não? E eu nem gosto do Neruda. Então passei a aconselhar. Faça isso, anda assim, não chora que borra tua cara, não fica deprê, não sofre e, depois de muitos conselhos, percebi que há o necessário. Coisas pelas quais devemos passar. É mais ou menos como querer chegar a um lugar, procurar um atalho e passar mesmo assim na frente de algum outro lugar que não passaríamos caso tivéssemos ido direto ao ponto. Entendeu? Eu também não. Mas é isso. Gente sofre. Gente chora. E canais de TV reprisam novelas e ainda passam na cara da gente que muitas outras pessoas vivem em situações bem piores que a sua. Ou seja, você se sente egoísta por estar sofrendo por coisa tão miuda quando tem gente que sorri mesmo sem ter o dente da frente. E eu sou péssima para dar conselhos. Comecei a criar histórias baseadas em livros que leio. Olha, não fica assim. Conheço uma mulher que ficou tomando umas e outras com uns amigos e nem viu que o filho estava morto em cima da cama. E falei de mais gente. Tem um cara que mora aqui perto. Dizem que ele era apaixonado pela irmã e ela foi assassinada pelo pai. E também tem um caso parecido com o seu. Uma mulher abandonou os filhos por causa de um cara e hoje se arrepende. Vive de escrever cartas pra família e ninguém responde. E mais. Mrs. Dalloway comprou as flores. Ela mesma. Existe coisa pior? Então ela riu. Bobamente. Porque eu não estava falando coisa com coisa e era tanta confusão que ela pensou que tudo pode desacontecer da mesma forma que acontece. Sofrimento é humano. Passar por problemas faz parte de nossa nomenclatura. E, quando eu já passava para o exagero de narrar a história inteira de Dom Quixote, minha amiga falou: Já chega. Já estou convencida. Quando eu tiver um problema te ligo e você me fala bastante em livros e compara tragédias de outros com as minhas. Já me sinto bem melhor. Eu salvei alguém do precipício? Não sei. Mas ela riu. E ouviu histórias. É por este e outros motivos mais que eu escrevo. Entendeu?







9 comentários:

Marcello disse...

Oi moça....

Que delícia seu texto, adorei seus conselhos...kkkk

-> Você não gosta de Neruda ?????

-> Me explica melhor aquele lance do atalho,por que eu tô quebrando a cabeça pra entender...rs

Beijos querida.

Carol Timm disse...

Eu também me LIVRO!!

Adorei seus conselhos...

Beijos,
Carol

Pedro Avillar disse...

Letícia é alquimista. Você é qualquer coisa de fora de série. Escreve de um jeito único e ainda é tudo. Quando não é subversiva, dá conselhos. eu Não ME LIVRO.

Felipe disse...

Me vejo em tudo que escreve, Lê!!!
E tudo é sempre tão perfeito, como pode?

É como um laço!!!!


Beijo...Fê

Sonhadora disse...

Seus conselhos são os melhores, não duvide!

rs

E eu estava lá quando o Pai matou a Filha por quem o Irmão era apaixonado. Foi horrível, nenhum problema meu pode ser pior :D


Que ideias você tem, moça!
=o

Perfeito. Beijo.

Zé alberto disse...

Belo texto, um texto muito feliz, fez-me recordar um aforismo da escritora portuguesa, Agustina Bessa Luís:
"Somos feitos para amar quem nos recreia e não quem nos surpreende. Três quartos do amor são feitos de preguiça."
Lembrei-me disto pois você mostrou à sua amiga, duma forma divertida, que a fez sorrir, como o sofrimento dela também é partilhado por muitas outras pessoas no mundo, e, só Deus sabe como nos sentimos melhor quando sabemos que as nossas dores são sentidas também por outros!

Adorei o seu Blog.

Abraços.

Zélia disse...

Bola de cristal, cartas de tarô, bilhetes jogados ao vento, conversa ao pé do ouvido... Mãe Lelê! :D

Vez e sempre eu digo que pensava em coisas que teu texto traz. É verdade. Talvez isso aconteça porque falamos a mesma língua.

Enquanto voltava para casa, do trabalho, pensei na minha avó. Saudade grande!!! Inevitavelmente, eu penso no sofrimento que ela passou antes de morrer. Embora, eu ache que não, sei que ela passou pelo que passou para se purificar ainda mais (já que era santa a minha vó). Mas a verdade mesmo é que ela passou pelo que passou para que nós, a sua família, aprendessemos mais sobre a vida. Ela tinha que passar por tudo que passou por nós.

É assim com tudo na vida. Passamos pelo que temos que passar...

Tiago Hist disse...

Para mim, este texto é um armistício literário que ainda convoca para a luta. Você assume o risco?
Beijo... bela.

Marcelo Novaes disse...

Letícia,



Of course.






Um beijo.