26 novembro 2010

lilith oratória





Mulher que se preza finge orgasmo. Nem sempre, é claro. 
Mas palhaço algum faz a plateia inteira sorrir em todo espetáculo.




Mulher de Graça, Ave Maria Descalça, Traça de Homem vivendo à risca do risco da mão de Deus. Respeita mandamentos, tateia pelo chão e rasteja à oração da manhã. Deus, não faça ouvido de quem não sente. Ouça-me uma vez. Falo direto com você. Não gosto de meia palavra e por isso vou direto ao Divino Ponto G. Inventaram que eu tinha tal ponto e que ele me elevaria aos céus como se fosse levada pelas mãos de Zeus que é Deus que é Você. Minha religião é tudo. Da zombaria ao catolicismo esquemático de olhar na cara de um padre e devorar a hóstia consagrada feita de farinha e água. Gosto ruim não é Teu Corpo, Pai. Dizem ser Teu Sangue que recebo, mas, como creio que seja o mais belo dos seres, não pode ser insosso o Pai que me criou tão bem ordenhada filha, mãe e a entidade que sou. Que não sou apenas uma. Sou milhares. Mas duas incorporam minha ladainha. Uma delas, a cética, ladra aos ventos e arranca do tempo mais dúvida para poder dizer que não. A outra, bélica estonteante, tem amante, se declara, fala sozinha e estende a mão a estranhos. A primeira não segue regra alguma, a segunda é estúpida e, através das duas, faço declamação. Deus Pai, concretiza-me poeta de tudo. Que eu fale por Tua Boca, que eu ande sobre Teus Pés e liberta-me desta chaga imunda de ser mulher em mundo de bíblias, arquétipos e tradições. Deixa-me, Senhor Deus, tornar-me Lilith e prometo entregar aos homens meu poder de sexto sentido, de adivinhação, de querer mais que alimenta e pão. Deixa-me Lilith, Senhor, tornar-me santa neste mundo fechado que não tem misericórdia dos entediados, dos abandonados, de meus semelhantes que vagam como eu. Que toda mulher seja homem e que o contrário se faça por feitiço. Que todo sexo seja libertino e que as ovelhas corram loucas no campo de abater. Liberta-me, Pastor. Sou mulher, ovelha, casta, escancarada e louca de viver.





Texto também publicado AQUI.
Inspirado na arte de Fernanda Franco.






Image by dearestapathy

6 comentários:

Zélia disse...

Texto retrato-oração. De mulher(es) travando batalha entre o mundano e o divino.

Nada no texto, exatamente, mas me lembrou Adélia e sua ladainha do "Pequei, mas tende piedade de mim".

No fim, o que vale mesmo é isso. A vontade louca de viver. Que vivamos, nós mulheres múltiplas, tão loucamente quanto necessário para cada ocasião.

;)

Roberto Denser disse...

Você é bem profaninha em seus textos, né? Eu, de minha parte, adoro! Também adorei o ritmo, que até nos remete a uma transa alucinante.

Ah, se tiverem alguma dúvida disso, leiam em voz alta!

Pedro Avillar disse...

Estou urbano de novo, Letícia. Voltei ao trabalho. O sol quente não queimou todos os meus neurônios. Estou bem e descansado.

Li em voz alta e concordo com Roberto Denser. É profano mesmo. E delicioso. E não é que parece mesmo uma transa?
Bjooks, Lê.

Letícia Palmeira disse...

Compatriotas,

Parece repeteco ter de comentar a cada texto, não? Vocês são bem pacientes. E seja o que for, Zélia, Denser e Pedro, escrever é o treco. O resto é conversa. =)

Bjo procês.

Mai disse...

É bem Lilith, Let.

Santa, profanando resoluta.

beijos

Felipe disse...

Fantástico, Lê! Perfeito!