12 dezembro 2010

libertinas são as horas da manhã





Era noite e eu precisava ler. Cato na estante o livro que me serve e o poeta zomba de mim. Eu visto cetim, largo a carapaça e detesto o mundo. Ou amo tudo. Ando varando Dias ao pé da letra. A teus pés me comporto, tenho fé em reticências e estreito ligações. Alô de boca em boca. Maligno é ser objeto indireto. Exaustão de calor profundo sou. De curto acesso. A veia salta aos trampolins. Amor não é tiro de festim. Visto prosa e acho engraçadíssimo ouvir gente falar em Érico Veríssimo. Não sofro disso. Tenho um abscesso antigo e saliente. Esta é a posse, a peça, a pedra no meio do caminho. O desconforto. Pedra que entrou de sola no sapato e me fez resistir. Escrevo e leio Cecília toda prosa atuando cantigas. Fala de bicicletas, romanceiro e flores no jardim. Mas sei da cólera que a subestima. E recorto a noite ao vapor do frio. Frio é nítido, colóquio é desafio e urgência é bandeira antiga que afunda meus navios. Bandeira gasta de traça e caça. E sou de virgem ou qualquer outro signo. Sei lá de mim. Retrato-me no espelho e versam poetas libertinos. Vaidade é a nova hora e medo é desconcerto. Se você não me entende, ao menos esteja prestes. Somos todos pestes. Repentinos e desconcertantes. Olho seu poema pela quarta vez. Ainda não sei bem o que devo saber. Terá segredo o que diz a palavra sem querer? De cetim em festim gera a vida minha voz. Volátil feito álcool que embriaga velhos iludidos às 3 da manhã. E visito de novo seu poema. Ainda sem entender. Vai ver é assim: Entender faz sumir o sentido. Então não tento. Abandono seu livro antes que ele me consuma. Em suma, sou fugaz. E não sou capaz de usar palavra simples que diga isto e mais isto com o dedo esticado na ponta do nariz. Tenho fraco por correr riscos e digo que loucura é fardo de qualquer um. Mas qualquer um não é todo mundo. Um milímetro no gatilho do tempo ou minutos de intervalo na programação. Consumindo castigos e lendo versinho de rima intercalada volto ao livro. Ao pé da letra, caducando malabares, releio humana meus escritores. Invejo suas vidas, seus amores e suas saliências verborrágicas premiadas com louvor. Invejo tanto o que leio que escrevo. Gloriosa concepção a literatura. Mente mimeticamente o belo anjo caído à vida. E tudo aquilo que criamos viciosamente nos cobiça.








Image by Trixis

7 comentários:

Monday disse...

Às vezes tenho preguiça de ler, não a minha preguiça em si, mas a da minha vista que insiste em usar a pálpebra como cobertor na hora da leitura.

Não gosto de dormir, mas cochilar é sempre um bálsamo. Deus criou o sono e o Demo, a soneca. Nessa, sou mais o do tridente, mesmo sem vestir Prada.

Porém, com um pouco de insistência, a pálpebra volta ao seu lugar. E aí, o bálsamo é ler todos eles e, claro, você.

Zélia disse...

O problema das palavras é esse. Qualquer meia dúzia já pode dar muito pano pra manga. Esse texto é pequeno mas o que ele traz é grande.

Primeiro, eu penso em Bukowski ( Esse nome parece até um palavrão. Acho que vou chamá-lo de Charles apenas. Mas com aquele sotaque bem britânico para que o nome não perca a sua força.) e no que ele falou sobre não "precisar" de leitores. Talvez, ser escritor de verdade seja isso. Se o escritor for se preocupar com o que dizem sobre cada linha que ele escreve ele vai surtar beleza. É como se a cada passo que déssemos, alguém tivesse que dizer alguma coisa. Na terceira vez, eu enfiaria logo o braço na cara do cidadão.

Segundo, talvez, o professor José Helder gostasse muito de "libertinas são as horas da manhã". No curso que fiz - e terminei - ele via nos chamando a atenção sobre "entender o todo do poema". Para Helder, o poema não foi feito para que a gente o entenda em todas os seus detalhes. Se der, tudo bem! Se não der, paciência. Às vezes, não dá para bater o martelo e dizer que fulano de tal estava querendo dizer que melão é o mesmo que melância ou que isso é diferente daquilo.

Claro! Ele acredita que, enquanto pudermos, devemos continuar nossa busca pela descoberta dos sentidos em um poema. Mas eu tenho certeza que abandonar um livro antes que ele nos consuma faz com que a gente viva mais tempo, mais feliz e ainda deseje voltar a se agarrar com aquele mesmo livro ( e outros ) novamente. kkkkkkkkk

Lívia Inácio disse...

Gostei de sua forma de narrar.

beijinho***

DRACKO'S disse...

como sempre uma ótima narrativa. vc fecha amorrrrrrr

Felipe disse...

Libertinas são as horas da manhã!
Título fabuloso, ilustração incrível e um texto de fud**!!!

Perfect, Lê!!!

Beijo...Fê

NDORETTO disse...

Verdade: você arrasa!
Glamour na piração!

Bjs,
Neusa

Paulinha disse...

Isso é o que eu chamo de intertextualidade!!!
Parabéns pelo texto (e pelas leituras).
bj