28 maio 2010

augusto dos anjos, jornal nacional e liquidação




Paraíba – mulher, macho, sim, senhor
O que o Jornal Hoje não mostra


Resumo dos frutos


Poesia de Augusto de Anjos, prosa de José Lins do Rego, Ponta do Seixas (Aqui o sol nasce primeiro), Algodão Colorido, Pólo industrial (Campina Grande está entre as cidades brasileiras mais desenvolvidas industrialmente), Povo acolhedor, Há seca, mas existe água também, água e peixe, Tambaba e sol nascente (Melhores praias de águas puras), Grandes centros universitários, Profissionais bem formados, Doutores quase todos. João Pessoa já se tornou metrópole. Já existe até sequestro por aqui. E a Paraíba tem EFRAIM. Ou será o contrário?

O clima é perfeito. Embora quente, mas é verão o ano inteiro.

Tem arte, tem Fenart, tem Baluartes (Vide Academia Paraibana de Letras).

Aqui tem de tudo. Até refilmagem do filme The Day After.


Sábado, manhã, inauguração de loja, liquidação de eletrodomésticos, muitos feridos e um óbito. Esta cena o Jornal Nacional não mostrou.






Não por falar mal da terra onde moro. Em minha opinião, é tudo Brasil. Não gosto de separação silábica.

Pensei em postar aqui o vídeo. Fiquei perplexa com a cena. Pensei no desespero, em dinheiro, em escrever um texto poético e, por fim, vejo que a vida é mais do que está escrito. Sou paulistana, mas já moro aqui o suficiente para dizer que sou paraibana. Se um dia disseram que o nordeste era terra de gente pobre, analfabeta e pé no chão, mudem o discurso: O Nordeste evoluiu. A Paraíba encontrou evolução.


26 maio 2010

mambembe solitário



O pessoal adora coroar misérias. Eu também. Não sou diferente de ninguém. Nem quero ser. Sou igual. Vaso trincado. Mambembe solitário.

Cazuza cantou em 85. E eu não pude ir. Eu só tinha 9 anos. Eu brincava de casinha, esconde-esconde, Stop. Hoje eu brinco de Pula Cerca. Sou atleta correndo distâncias, com aquela vara nas mãos e salto alto. Mas nunca é alto. Nunca é suficiente. Há forma de saber que o suficiente é aqui?

Eu sofro das paixões humanas. Disse isso a uma amiga. Ela riu e me chamou de Louca. Talvez eu seja louca mesmo. Traz a camisa de força e me ata bem os nós. Não quero ficar livre entre tantas guerras tranquilas e montinhos de mortos e suas famílias chorosas. Crianças também morrem em guerras. Morrem de tráfico também. Tráfico já virou doença. Crônica e sem cura.

E de novo ela me chama de Louca. Falo sério quando digo que tudo é doença. Mas eu sinto que estou sendo pessimista. Energia positiva e um cristal ao sol.

Já coloquei tanto cristal pra quarar no sol que minha vida e a de todo mundo deveria estar no ritmo do Cartoon Network. Só alegria. Faz de Conta. Vida de desenho animado e ninguém se machuca. Mas os meus cristais são fajutos. Cristais fajutos e eu ainda seria esotérica. Lendo tarô e tentando buscar sentido no vazio explícito da sala de estar.

E bebi vodka. O banheiro da casa de minha amiga sofreu. Mas antes. Antes de sufocar o banheiro, falei demais. Eu sempre me excedo. Seja na vodka, na mentira, na piada desgraçada que não faz ninguém rir. Fico rindo de minhas próprias piadas. Hipócrita janela afora.

Gole após gole, um monte de histórias. Contei minha vida inteira. Até a vida que não tenho. A gente mente sim. Que graça teria se não houvesse mentira? É interpretação. Luz. Câmera. Ação. E solidão pra cavalgar os dias, sem cavalo ou honrarias.

E falar de dor pega mal, dizia Cazuza. O pessoal gosta de ficar bem. Sempre bem. Fazer dieta, caminhar, fazer plástica e envelhecer bem. Quero saber como pode alguém envelhecer bem? Como se faz isso? Prozac? Eu falando e minha amiga dizendo Maluca, Louca e ria de mim. Mas viver mata. Dia após dia, viver nos mata. Como o sol queimando poça d’água.

Discursei fora de moda. Falei muito, bebi, pensei em amor. Eu queria uma dose maior de amor. Na veia ou na cara. E olha que foi uma única garrafa de vodka. Um litro? Não. Não teria aguentado. Teria morrido. Ou teria falado mais. A noite inteira debulhando segredo.

E acabou a noite. O banheiro me suportou. Privada, banho, escova de dente e nunca mais eu encho a cara. Ressaca moral, imoral; quase apaguei. Luz fosca no fim do túnel e, no dia seguinte, não consegui lembrar quem eu teria sido na noite anterior. Quando vem a lucidez, eu me esqueço. Fico pra trás. Um náufrago esquecido em seu próprio mar.

E hoje não quero vodka. O silêncio se acomoda perto de mim, descansa a máquina de escrever e café. Um cigarro, talvez. Mas eu não posso morrer. Fazer dieta, comer proteína, caminhar, salvar meus dias. Dar de mãos com a palmatória.

E que arrebente a luz do dia minha crença ilusória.




19 maio 2010

retratista



Sou eu. Batendo a porta. Gritando com os vizinhos. Mas poderia ser outra pessoa. Eu poderia ter sido Hitler.

Abocanhou o jornal. Com a mão direita pegou um pacote de sequilhos. Com a outra mão trancou o carro e entrou. Estava fumegando. De raiva. Não. Não era raiva. Era impaciência. Dia impaciente. Horas atropelam horas. Degraus atropelam os pés. Cotidiano e afazeres e um quadro na parede. Quadro este que trazia os seguintes dizeres:

"O ontem já se foi, o amanhã ainda virá.
Eu só posso evitar o primeiro gole hoje, agora!"

Leu o que dizia o quadro e seguiu o corredor.
O local era como todo local. Janela, persiana, escrivaninha com aspecto envelhecido e um bebedouro no canto da sala. Um lixeiro repleto de copo descartável era o único elemento que ornamentava a sala, em paredes brancas e detalhes azulados entre o piso e o rodapé.
Um sofá. Sentou-se. Olhou ao redor, ninguém para atendê-lo, uma música ao longe. Gilberto Gil de manhã é bom. Cantarolou um trecho, depois outro, depois outro, e respirou fundo. O jornal. Abriu. Começou a ler pela página de esportes. Meu time venceu. Ao menos isso. Deu uma risadinha interna como se alguém se importasse com time de futebol. Ninguém liga. Ninguém ligará.
E continuou lendo.
Caderno 2. Gente da sociedade, teatro, cinema. Resolveu fazer palavras cruzadas. Sinônimo de ancião. Cinco letras. Outra risadinha. Estava vencendo. Foi preenchendo espaços com as palavras que lhe vinham tão facilmente à boca. Ou à mente. Terminou as palavras cruzadas, leu um pouco do governo (Acordo Nuclear). Mais futebol, mais risadinha, um palavrão e olhou a sala. Ao redor, nada. Ninguém. Como poderia estar ali tanto tempo sem ser percebido? Um absurdo. Poderia roubar algo. Poderia ser um ladrão. Será que não pensam nisso?
Ao lado do quadro, um relógio batendo tempo, batendo o olho, engolindo segundos. Olhou o relógio. Checou pra saber se o seu estava de acordo com o relógio na parede. Estava. Os relógios estavam quase iguais. Alguns segundos de diferença apenas. Segundos são nada. Cheguei na hora exata. Será que me atrasei?
No edifício ao lado uma obra separava o dia em sílabas. Homens trabalhando. Ho-mens tra-ba-lhan-do. Pi-ca-re-ta. Be-to-nei-ra. Parecia um som de grilo com problema respiratório. Tudo quebrado. E era um barulho desgraçado e ele não havia percebido antes. Um trator tratava o tempo. Sentiu, de repente, sua boca trincar. Os dentes. Tudo trincava. Nervosismo surge disso. De cidade quente, pegando fogo, barulho, explosão, buzina, mulher pedindo perdão. E ainda me culpam. Por isso aquele ator matou tanta gente naquele filme. Não passa mais na televisão. Acho que eles têm medo que alguém veja e faça o mesmo. Tem gente que é mesmo muito influenciável.
O tempo passou mais adiante e ele ficou lá. Era uma sala de espera de um consultório. E não havia muitos pacientes. Só ele. Ele e o jornal. E o pacote de sequilhos. Decidiu comer. Meia hora sentado ali e ficando impaciente precisava mastigar algo. Da última vez mastigou um pedaço da manga de sua camisa. Minha não. Da camisa dele. Mastigou um pedaço da camisa porque não tinha paciência.
Comendo sequilhos, ainda sozinho, prédio sendo construído e mais nada.
Alguém vem. Alguém surge finalmente e quebra o tempo dentro da sala de espera do consultório médico. Uma mulher. Roupa com aspecto de roupa engomada. Cabelo preso. Salto nem alto nem baixo. Bonita àquela hora da manhã.
Trocam algumas palavras. A mulher o interrompe. Preciso atender ao telefone. Só um minuto. Ele espera. Com a boca com gosto de sequilhos. Decide beber água e vai. Atravessa a sala e pega um copo, enche o copo e bebe tudo. Dia quente, não? Não houve resposta. A mulher ainda estava ao telefone.
E desliga.
Agora a mulher examina alguns papéis. Ele sorri. Mas a mulher não vê. Ele faz um comentário sobre o tempo. Estou me repetindo. Já falei do tempo. Vou falar do prédio em construção. Vou falar do jogo de ontem. Apitos no Maracanã. Vou falar dela. "Moça bonita olha pra mim que prometo não te ferir". Pensou cantando. Era sua mãe quem cantava esta canção. Sempre antes de dormir ela vinha. Com cheiro de alfazema e olhos grandes. Cantava até eu dormir. Queria perguntar coisas à mulher. Coisas miúdas. É nova aqui? Mora onde? Tem quantos anos? Acredita em vida em outro planeta? E a mulher não o olhava. Estava ocupada preenchendo fichas.
E o prédio funcionando ao lado. Maquinando. Fumegando.
E já se passara tanto tempo. Olhou o relógio, checou seu relógio de pulso, leu jornal (Uma nota de falecimento), bebeu mais água. Já estava cansado. Ele se conhecia melhor do que ninguém. Tem gente que acha que conhece o outro. Mas nada. Só a gente se conhece. Essa coisa de pensamento, de saber o que se quer. Tenho nada em meu inconsciente que eu não saiba. Sei de tudo de mim. Outra risadinha. Esta veio da boca pra fora. Foi como pensar alto. A mulher não entendeu. Olhou de forma interrogativa. A mulher achou estranho o homem que ria sozinho. Estaria ele rindo dela? Mais esta parte fica em silêncio. Nunca a mulher vai saber do que ria o homem. Nunca direi.
Ele sentiu vergonha. Embaraço. Mas já tinha acontecido. O trato era tratar daquilo como se fosse passado. Vou perguntar algo. Falar do tempo. Já falei do tempo. Vou falar do prédio em construção. Vou falar do jogo de ontem. Apitos no Maracanã. Vou falar dela. "Moça bonita olha pra mim que prometo não te ferir". Pensou cantando. Estava se repetindo de novo. Ele e o tempo que não passava mais. O tempo estava emperrado. Um burro empacado. Engarrafamento na hora do almoço.
E a mulher nada dizia e ele pensava demais e já estava no ritmo da maquinaria do prédio ao lado. Separando em sílabas o dia. O sequilho acabou. Sentia fome. Por que não me mandam entrar? Estou aqui há tempos. Estou aqui sem ser visto?
E percebeu. Estava sujo. Roupa suja. Roupa de dias atrás. Camisa amarela e calças desbotadas. Por que estou vestindo roupas velhas? E sem sapatos. Não havia espelho. Tocou o rosto, barba por fazer e cheirava mal. Cheirava muito mal. O mundo estava ao contrário. Seria um parto ao contrário? O que estou fazendo assim, aqui, de manhã? Lembrou de seu trabalho.
Antes de qualquer palavra, levantou-se, tocando o corpo, aturdido, desesperado, confuso.
A mulher pega o telefone. Vem alguém. Vem vindo e chega. Diz algo. Diz algo para acalmar. Já está a caminho. Por que fez isso? Você precisa parar com isso. Você precisa. E ele não entendia, mas entendeu. Havia se deixado. De novo. Não era loucura. Era ele se deixando outra vez.
É que dói. É que sinto falta. É que não há graça. É que preciso me sentir vivo. Sentir-se vivo morrendo? É isso? Dizia o médico e olhava a mulher enquanto entram dois homens e outra mulher chega acompanhada de um rapaz que diz a palavra pai, que parece ter vergonha.
A mulher condena, os homens o cercam, a outra mulher de salto nem alto nem baixo, bonita àquela hora da manhã, permanece imóvel e alguém diz Obrigada por nos ligar. E a mulher assentiu com a cabeça. O médico dá ordens e o homem é levado. Não se sabe pra onde. Não pude seguir. Permaneci na sala de espera do consultório, enquanto a mulher chorava e era o filho que a consolava e o médico ligou para clínica (Eles estavam à procura dele desde ontem). Ele foge, sai feito louco. Sempre faz isso. Ele se repete. E sempre leva nosso carro. Desta vez a polícia não conseguiu encontrá-lo. Pensamos em tantas bobagens. Chorava a mulher. O médico prescreveu medicação que acalmasse a mulher e o rapaz saiu de lá com sua mãe e pensava em seu pai doente entregue ao vício. E não se preocupe, disse o médico. Ele não irá mais fugir. Mandei que administrassem medicação forte.
O homem seguiu em ambulância. Apitos no maracanã.
E de novo o cotidiano e afazeres e um quadro na parede. Quadro este que trazia os seguintes dizeres:

"O ontem já se foi, o amanhã ainda virá.
Eu só posso evitar o primeiro gole hoje, agora!"

E, quanto a mim, não darei margens as minhas observações. Não é este meu objetivo. Meu olhar é simplesmente retratista. Nada tenho a ver com a vida do homem que em narrativa existiu. Sou apenas o narrador observador. Aquele que de nada tem culpa, que vive à surdina, escondido, embora nítido, entre uma página e outra.





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06 maio 2010

flor de náusea




O homem precisa ser sozinho. Acima e além de tudo, solitário. Que não lhe alveje a conversa dos vizinhos. Pessoas toscas que se encolhem em pequenos apartamentos e se vangloriam de suas vidas em dias de domingo. Homem, seja sozinho. Rabisque-se em papel. Olhe-se no espelho. Sofra sua inquietude. Olhe os cãezinhos sofisticados urinando nos postes da avenida. É a quebra de valores que nos consome e mulheres se entopem de cosméticos, carboidratadas, desequilibradas, facas desafiadas, vozes estéreis copuladas in vitro. E os casais exibem seus filhos como se fossem troféus. Veja lá, homem, o que seu filho lhe deu. Amor para a vida inteira, netos, a náusea da eterna preocupação com dinheiro. E sua vida não vale o tempo que se gasta frente aos amigos, se submetendo ao desmantelo de suas crises, à estupidez, ao martírio. Por isso o homem precisa ser sozinho. Nunca dará conta de si mesmo. Homem, você jamais será deus.




Image by pesare

04 maio 2010

in memoriam




Telefone tocando às 8 da manhã. Fingi não estar ouvindo. Muitas vezes eu finjo não ouvir, não dizer, não estar. Mas ele estava com pressa. O telefone. Quanto mais eu fugia, mais ele me alcançava estourando meus ouvidos com seu Atende! Atende! Atende! Mãos ao alto. Eu disse alô, a outra voz na linha disse alô, você está bem, já acordou? Claro que acordei. Desde cedo que ligo pra você e ninguém atende. É que dormi tarde ontem. É que dormir me faz evitar o mundo. É que tenho preguiça. É que já nem sei. Olha, estamos aqui no velório. Velório e o mundo se torna ainda mais comum e traiçoeiro. Seu tio, ontem, meia-noite, falência múltipla dos órgãos. Senti o que sente aquele que não gosta do fim da novela das oito. Que horas vai ser o enterro? Às 3 da tarde. A família toda está aqui. Já liguei pra todo mundo. Tem gente vindo de longe pra dizer adeus. Dizer adeus? Mas ele morreu ontem, meia-noite, falência múltipla dos órgãos. A hora certa de dizer adeus não teria sido às 23h e 59min? Ou até antes? Que era pra dar tempo de pedir perdão, chorar bastante, aquela coisa toda de unção dos enfermos e ainda daria tempo pra fumar um cigarro fora do hospital, contar histórias de outros tempos e falar mal da prima, do primo, dos tios barrigudos e da tia que surtou porque envelheceu e ficou feia? Ele morreu no hospital? Sim. Morreu no hospital. Por que tudo fica pra depois? Pensei nisso tudo. Não falei. Só concordei dizendo que estaria lá, no velório, velando o tio mais novo.

Desliguei o telefone, me espreguicei e mãos à obra.

Coloquei os pés no chão, abri a janela do quarto, odeio a luz do sol. E segui meu ritual. Banho, cabelo, cara, pó de arroz e tirei aquela cor berrante do esmalte das minhas unhas. Sei que irão reparar que minhas unhas estão alegres demais para um funeral. Vesti a roupa certa para hora errada porque, na minha cabeça cheia de quinquilharia lúdica, ninguém deveria morrer. Não assim. De forma alguma, aliás. Fui criada sob OS ALICERCES DA SANTA IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA E DIZEM QUE HÁ UM REINO NOS CÉUS. Então é assim. A gente morre, nossa alma vai pro céu e nosso corpo, esta matéria que de nada serve no fim das contas, se transforma em adubo. Estou pronta. Já aceitei.

Duas horas depois cheguei ao velório. Familiares que não via há tempos. Todos estavam lá. Por isso essa gente gosta de morte. É uma forma de reunir a família. Entendi. A fila era longa, mas consegui dar os pêsames a minha tia e meus primos. Afinal de contas, era o meu tio dentro do caixão e alguém estava sofrendo. Eu vi nos olhos da mulher dele. Ela estava sofrendo. Talvez lembrando do dia que se conheceram, dos beijos, das risadas, do namoro agarrado demais que era pecado naquele tempo, da beleza de meu tio que já o havia abandonado e das noites que foram felizes. Eles devem ter sido felizes. Ninguém vive essa vida sem felicidade. Nem que seja de súbito, veloz, quase sem ver. É isso. Ela sofre. Os filhos também. Não muito, talvez. Meu tio havia se tornado um fardo. Sempre às voltas com a vida errada que ameaça todo mundo e são poucos os que se salvam. A filha dele, minha prima, ficou me olhando com um sorriso esquisito porque nunca nos víamos. Eu mal a conhecia. Nunca tivemos muito contato. Apenas um dia, ainda durante a infância, ela foi a nossa casa com os pais e eu não dei atenção. E não seria agora que eu faria o papelão de puxar assunto pra saber da vida dela. Não se pode agir assim. Cumprimentei outras pessoas, abracei meu pai porque era o irmão dele ali morto, entrando para a lista de desaparecidos. Meu pai chora por dentro e sei que esse choro é o mais violento.

Saí daquele ambiente com cheiro de flor por tudo quanto era canto. As funerárias agora parecem hoteis. Servem café, chá, torradas, frutas, tudo. E tem até quarto para aqueles que precisam descansar. Pensei em usar o quarto. Terminar de dormir o sono que meu tio havia interrompido. Mas não. Não depois da falência múltipla dos órgãos. Não depois de ter passado a vida rindo da cara dele porque ele havia se tornado assombrosamente engraçado, com seus olhos esbugalhados, suas roupas mal cuidadas, suas drogas, seus horrores. Eu não poderia sequer me aproximar do caixão e ver o rosto do qual ri tantas vezes fazendo ironia daquela vida ida que não me fazia sentir nada. Remorso talvez. Tristeza por meu pai e por meus primos. Uma tristeza superficial que logo seria esquecida. Bastava que eu deixasse o lugar. Eu só precisava ir embora dali. Me distanciar. E eu esqueceria dos dias que ri de meu tio que nos visitava e roubava cotonetes e me esqueceria também do dia em que ele me reconheceu certa vez. Na escola onde eu estudava. Ele se aproximou e perguntou se eu era a filha de. Não. Não sou. Tem certeza? Você é a cara da menina mais nova de. Não sou eu. Desculpe. O senhor deve ter me confundido com outra pessoa. Percebi o desapontamento em seu olhar, rosto, na cara toda. Até no corpo. Teria sido aquela a minha chance de dizer adeus ao meu tio? Já faz tanto tempo que isso aconteceu. Mas me ocorre agora que poderia ter sido a chance de dizer adeus. Percebo agora que laços sanguíneos não dizem nada. Me ocorre agora que um homem morreu deixando esposa e três filhos já crescidos para trás.

E, às 3 da tarde, fora enterrado no cemitério no fim da rua onde moro, o homem do qual tanto esnobei. Enterrado, pálido e desconhecido. No meio de tantos outros, mais um adormecido.




Image by Alexandre Matos