30 outubro 2010

diacáustico



"Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar."

(Adélia Prado)


Vi em teu dorso o corpo de deus. Sob os céus recortados em nuvens vi teu prumo tomar palmos de terras em tua ária de cânticos. Teu quintal de brincares de ares de outros tempos. Vi o hemisférico erotismo de teus pensamentos tombados em mim e tuas plantas de arrancar leveza das coisas que não são brandas vindas de tua boca que canta sacrifícios. Vi, à pálida veracidade dos lábios do criador, a bestial cegueira dos errantes guerreiros que te erguem os ombros. Vi a mentira formulando açoites de derrota e tua vitória é sempre olhar para trás. Vi, com tantos olhos de olhar tua miragem, teus punhos em combate de matar-me sufocada de amor dormido, amor romântico, amor tecido. E, de teus altares, corajosos santos adestram rios ao resistir de um sol poente que nos guia sempre enquanto, em vãos, homens comemoram misérias. Deus fez da terra o baldio elementar de tua indecência. Teu sorriso é pura crueldade sádica dos leões que enfrento. Ouço de tua boca o que apenas o deus saberia dizer. E de minha boca terás o acorde de meu canto feminino que somente eu aprendi a reger. Ora a língua entorna o caldo entorpecente de um feitiço que somente loucos concebem. Esta aventurosa sede romântica repele ignorâncias. Em teu inferno adorno as mãos do demônio que admiro. Nasce então minha criatura no sangue que corre em tuas veias e a ti ofereço a mesma praga. Subvertida a maldição é contraída, doença repentina, e que te sirva de alimento meu corpo de entregar-me ateu.






Image by Rovi

28 outubro 2010

prosaica








A história. Um casal e uma casa. Mobília e empregada. Não, eles não têm empregada. É apenas o casal e a casa. E um carro velho herdado do pai. Carro cheio de ferrugem no para-choque, vidro com adesivo antigo de time de futebol. Mas a ferrugem corroeu o carro. E eles não têm carro. Nem herança. Nem pai. É apenas o casal e a casa e uma moto na garagem. Moto recém-comprada paga à prestação e muito beijo na boca pra esquecer que o dinheiro é curto. E o casal acasala de sede. Normal de jovens. Comum de amor. Mas a moto escapa da história e já não existe. E o passeio que fizeram pelas avenidas de ricas luminárias nunca houve. Ainda é apenas o casal e a casa e alguns cupins. E os cupins comem a mobília e até os livros eles atacam e também algumas imagens de muitos santos erguidas em um pequeno altar na sala de jantar que já não há porque a história é apenas o casal e a casa e dedetizaram tudo e morreram as larvas. Agora é reinventar começo de saga. E ainda existe o casal e a casa. Tudo no mesmo lugar. Rua grande, algumas lojas e um mercado. E também uma banca de jornal. O casal costuma comprar revistas todo início de semana. E o casal vai ao mercado com dinheiro contado e compra pão que logo endurece ou mofa. O casal tem fome de outra coisa e pão não alimenta. Então não existe mercado nem pão. Nem rua larga ou loja em liquidação. Mas ainda se faz a história só do casal e a antiga casa de mobília ultrapassada. O casal ainda beija. Ainda faz amor. Mas é amor de não ser amor. É apenas força de intenção de estar bem. Forçado à felicidade, o casal não se separa. Vive junto na mesma casa e não compra mais revista que não há dinheiro para luxo. Nem sonha mais o casal. Nem desabotoa camisa. Nem disco afina a voz do tenor. A história se desfez do casal sem casa que o amor desmoronou. E outra história há de vir. Pois a vida, complexada narrativa, não cansa de se repetir.





Image by Colby Bluth

26 outubro 2010

histórias para colorir




"Não gosto dos homens.
Gosto do que os devora."

(André Gide)



Damião, homem caprichoso, não perde um segundo sequer de seu tempo. Dizem até que conta vantagens às ferrovias alardeando que faz questão de manter sua vida em total zelo perfeccionista. Acorda cedo, trabalha, vai ao supermercado, enche a geladeira pra família e, quando chega a noite, Damião, que não perde tempo na vida, se entrega aos televisivos prazeres nocivos à imaginação.

Filomena vai ao centro. Havia marcado encontro com uma antiga amiga dos tempos de colégio. Pensava exuberante o quanto seria bom rever sua amiga Regina que era tão bonita, buzinava alegrias, falava tanto de suas conquistas e cansava os ouvidos de Filomena que, repentinamente, sentiu um frio na espinha, deu meia volta e desistiu de encontrar Regina. A vida muda de forma gratuita.

A mulher uiva e o homem sorri frente ao espelho. O casal faz amor desde cedo. Tanto grito, tanto jeito, tanto amor escorrendo por tanto tempo. Prazerosos se beijam. Famintos se alimentam e, humanamente, se enganam ao mentir um pro outro. Porque, de outra forma, prazer não haveria. Verdades interrompem coitos, há quem diga.

Está quase amanhecendo e a mulher não dorme. Agoniada com tanto canto de passarinho à janela, a mulher levanta, toma um banho, enche de alfazema o pescoço, maquiagem no rosto e chora pensando que a vida continua repetida. Deus faz milagre, pensa a mulher. Mas a longo prazo. E ela adormece profundo e perde a hora de ir ao trabalho.

E todo aquele que acredita que literatura faz a gente enxergar a lua, esqueça. Bota a viola no saco, desarma a tenda e abandona o circo. Literatura é chave secreta e não abre qualquer porta. Nem a todos ela sustenta. Ela sofre de cisma. Vai e volta, bloqueia estrada, seqüestra palavra e não se serve de graça. Literatura é uma engenhoca ingrata e não acolhe qualquer crença.

E lá embaixo a multidão se agitava, cantando em coro e fazendo algazarra, esperando que o homem pulasse logo do prédio e acabasse com aquele mistério de tragédia não ocorrida. Mas o homem que não era doido nem nada apenas limpava vidraças obedecendo ordens de um patrão. É que o povo espera demais. Inventa desculpa, vive outras vidas e não olha sua barriga cheia de amargura e vazia de compaixão. Nada no mundo há de se espantar sem razão.




Image by isasi

24 outubro 2010

invisíveis inimagináveis




Depois de uma partida regada à regra de beber com amigos que não são, parti para casa a fim de me deleitar um pouco ao obséquio da tv. Entregar-me ao ócio, estar mais consciente de minha estupidez, ser mulher cheia de vontades e sorrateiramente feliz.

Mas o destino faz atroz seu recital.

Decido escrever uma carta. Papel azul. Caneta preta e mãos às confissões. Vou falar de toda a sacanagem existente entre minhas ideias e o resto do mundo.

Olá, Amigo Querido. 

Que tal? Clichê? Já me disseram que clichê sou eu. Desisto, então, de usar o jargão Amigo Querido. Entro de sola na carta. Te amo. Alguém começa carta desta forma tão disfórmica? Eu nunca vi. Das cartas que recebi nunca flagrei tamanha vertigem verborrágica. Guardo meus sentimentos para o fim. No entanto, não te amo, entende? Não te amo daquele amor coerente de copa e cozinha. Te amo mambembe. E você é meu amigo. Nosso amor é diferente. Fraternal. Coisa de irmão.

Esqueço o eu te amo. Já basta de mentira no mundo. Recorro à simplicidade.

Querido Fante,

Como anda sua vida? A minha já não anda. Estancou na quinta avenida e, vez por outra, faço sexo feito uma vaca sendo currada por leões.

Pausa.

Como posso começar assim, falando em sexo e me expondo? Sei que o Fante é meu amigo, músico, talentosíssimo, inteligentíssimo, tudíssimo. Mas dizer que sou vaca é forçar a marginal. Mudo tudo.

Querido Fante,

Como está o clima? Sol, semi-árido ou ainda há receio de temporal? Aqui em minha terra não chove como lá. As aves...

Quê? Não leio Gonçalves Dias. Não tanto quanto gostaria. Não posso usar frase que não me define. Isto é camuflagem. Vou ser direta. Engato sinfonia para escrever e lasco xícara de café pelando. Acordo e escrevo.

Fante,

Já reparou como estamos distantes? Você aí, eu aqui e um boi atravessando a estrada? Não gosto de distância, Fante. Por isso telefono. Semana passada, depois de ouvir conversa fiada que não mata fome (Deus que me proteja dessas gentes infelizes que falam com medo de serem capturadas em plena vernácula ejaculativa).

Vernácula ejaculativa.

Definitivamente é um bom título para um conto erótico. Imagino a cena. Mulher, meias de seda, homem ereto, discrepâncias e desejos e os dois rolam na relva amando ardente o que Deus uniu e o homem não separa.

Estou pior do que eu pensava, Fante. Agora faço uso de oratória religiosa. Acode meu coração vagabundo.

Outra tentativa.

Tomo um baita gole de licor. Café e licor e o vapor de um cigarro. Estou simetricamente despida. Gosto de escrever nua. Ao pé da letra da vagina.

Novamente.

Fante,

Tem reparado que todo mundo anda se descambando? Não sei explicar, mas me parece que todo mundo anda fugindo. É uma covardia demente. Ninguém aparece mais. Ninguém sabota meus planos, ninguém toca minhas mãos e o pior é ver pessoas fingindo que futilidade é festa. Sabonetes fogem. E também os peixes já reconhecem os anzóis. Ninguém mais cai na armadilha, Fante. Que acha de fazermos um pacto de não descambarmos também? Eu prometo solenemente permanecer louca até que Deus me ouça.

Tô bem de rima, Fante?

Que ridícula essa tua amiga, hein? Mas me diga... Como vai a Maria? Ou era Cecília? Ou Magnólia? Qual era mesmo o nome da criatura feminina que você dizia, vez por outra, digerir para fugir da solidão? Minha memória é curta, Fante. E minhas pernas também. Claro que pensei em visitá-lo. Centenas de vezes. Mas, sempre que penso em ir, me vem a velha ideia na cabeça: Por que ver se posso sentir? Ver pode cegar, Fante. Encontros podem ser maléficos. Ainda não somos tão humanos a ponto de olhos nos olhos e sorrir. Ainda não somos. Mas eu estou aqui torcendo por você. Espero que você não caia no abismo da mesmice e não fique quadrado como as pessoas que nós costumávamos odiar. Lembra do nosso ódio? Você quase gritava comigo quando eu dizia amar é. Você nunca suportou a sensação de fila única. Eu também não. Por isso gosto de confusão. E por isso escrevo carta pra você. Porque é seguro. Não quero para mim o limite das coisas que findam. Quero que seja breve. Porém, quero tudo sem fim.

Assino a carta decidida. Com amor e carência literária, Eu. Pronome que pode dar margem a diversos questionamentos. Ponto final.

Carta escrita. Envelope, correios e que merda de endereço devo usar?

Dias depois recebo notícias do Fante. Ele também acredita que não sejamos humanos o suficiente. Ele sonha. Ele vive com pressa. Ele desperta em mim o que tenho de mais diversa. Meu lado caleidoscópio, que chora e toma porre de ansiedade à espera de uma carta. Meu amigo Fante é meu despertador de imaginar que todo dia segue rente quando, na verdade, assim como as pessoas, o mundo também descambou. De que lado estamos, Fante? Ele diz de supetão:

Não há lado, minha amiga.

Apenas interseção.





Image by Aramelh

20 outubro 2010

joão não plantou o pé de feijão




O homem que eu amava agora diz não mais me amar. Ponto final. Agora é deixar ir. Embora eu sinta a velha e básica angustiazinha saltitante, tomo banho e vou trabalhar. Vida é vagão que não pára. E pára não tem mais acento.

Definindo-me, sou do tipo de pessoa que adora errar. Erro em tudo. E faço questão. Por isso dizem que sou difícil. Mas não é só isso. É que eu adoro pedir perdão. E perdão é uma palavra boa na boca. Escorre católica em todos os sentidos.

Mas vamos ao começo.

Conheci o cara. Imaturo que ninguém queria segurar a mão. Eu segurei. Firmei o pé e fiquei. Aguentei embuste de família idealizada padronizada e perfeita. Viagens costumeiras, porcarias que pouco faziam diferença para mim, e fiquei com o cara. Até o tempo em que ele foi ao exterior dar uma de homem. Era meu o cara. Eu amava muito. De querer mais. Ou não amava.

Outra coisa boa é dizer que ama.

Parece que a gente se sente mais forte, mais competente e tenho fama de sacana e digo que amo na boa.

Lembro que, na ocasião da viagem, emagreci de saudade e, quando ele voltou, engravidei. Culpa minha. Camisinha existe, burra, idiota, imbecil. E lá estava eu: aos 25, grávida, meio Christiane F. com ingresso comprado pro show do David Bowie. Mas fazer o quê? Aborto é crime. Era esta a ladainha.

Foi então que pensei em morrer. Mas desisti da morte quando pensei no enterro. Odeio gente chorando mentiras e claro que alguém diria que sempre fui perfeita. Morreu uma boa criatura. Eu não aguentaria isso. Elogio faz mal. E gente morta não pode se defender.

Meu pai bêbado não me apoiou. Me tocou pra fora de casa. Antiquado, não? Saí de mala e cuia para casa dos pais do cara que eu amava. Grávida e nervosa, fumava e comia demais. Pressão alta e dieta. E mudei de quarto, mudei a cara, meu corpo mudou. Hoje tenho um filho. Vejamos então o padrão da existência humana: Procrie. Filho lindo, perfeito, a cara do pai. Que bom. Escapei do DNA.

Tempos depois engravidei de novo porque o cara que eu amava não sabia segurar a coisa e gozava feito menino. Dessa vez houve proteção. Mas a gente não tem culpa. A coisa vem e quando a gente percebe já foi e nem luz no fim do túnel salva. Aconteceu a segunda gravidez. Mas foi um alvoroço. Toxoplasmose. Aborta que agora não é mais crime. Ninguém vai querer um bebê com deformidades. Arranca logo esta criança antes que se desenvolva. Abortei.

Acionei a bomba atômica.

Dei entrada em hospital público pra aguentar médica me olhando e dizendo que Aborto é Crime. Sangrei e, somente no dia seguinte, em uma sala cheia de outras mulheres, tiraram meu filho. Vi o rosto. Era transparente e as mãos eram pequenas. Era menino. Era João. Mas, como me disseram, criança deformada é um fardo. Mata a peste que envergonha. 

Matei.

Minha mãe super católica não me deu a mão. Mas ajudou quando fiquei de repouso. Não suporto essa coisa de mulher ficar de repouso. Eu poderia até sair voando. Não sentia nada.

Mas aí veio o choque pós-traumático. Síndrome do pânico e dane calmante pra controlar as crises. Era medo, falta de ar, falta de vida. Era morte.

Logo, fiz terapia e que humana me senti. Escondi todo o sofrimento dentro de uma espécie de redoma. A mesma redoma que utilizo agora para não enlouquecer e me manter firme. Redoma em que me guardo do mundo, compro naves espaciais, frequento grandes lojas de etiqueta e compro tudo que quero ou imagino comprar.

Vadiar é o lema.

O mundo é traumático, criaturas. E sofrimento teu é sofrimento teu. Ninguém vai te acudir.

E já nem sei o porquê de toda essa história de Colombina e Pierrô em estado de desgraça. Eu só queria mesmo era conversar com o cara que amo. Aquele que tocava violão, deixava o cabelo crescer, adorava comida japonesa e tomava tarja preta pra dormir. Ele era o cara. Mas é isso. O tempo engoliu. Hoje ele vive na redoma de coisas que não podem ser tocadas, nem vistas, nem desejadas. Redoma que a vida faz o favor de deixar às vistas para que eu veja, queira e não possa chegar perto. Redoma de tempo bom e tempo ruim. Um dia perco a paciência e quebro tudo. E, decerto, terei o mundo só pra mim. Mas há dignidade nas derrotas. Pois elas ditam nossas vitórias.

E que final otimista clichê.
Digo apenas que sinto saudade de você.
Ou não.
Quem vai saber?





Image by Manuela

18 outubro 2010

indecorosa





Solitárias caminham dilatadas em minha língua diversas palavras que nada dizem quando encerradas no silêncio entre a timidez e um copo beirando a água. Hermética à fonte do desassossego, confusa de pai e mãe, segue muda entre imagens e sons que povoam minha imaginação porque mal existo quando finjo ou quando despem opiniões acerca de mim, que será um dia algo, que será memória de alguém. Ela diz, ornamenta, ostenta e, entre os muitos que somos, existe ela que é a mais louca de todas as outras palavras que já ouvi. Diz que ora sim, ora não, faz sentido, sequer existe. Corajosa, ruminando o que digo, ela vai de ouvido em ouvido espalhando o dito e, me fazendo presa, esqueço que liberdade é parte e todo o resto é prisão. Se falar, despeja sobre mim seu ato que sou palco e me alucino ao ouvir palavras. Não demora, não afoga a rima em covardia nem me deixe ao desesperado vazio de uma lembrança tardia. Pois que me aborto das obrigações desse mundo e, tonta, viciada no ópio das horas, espero a palavra dizer de mim. Canta sua palavra e não se refugia em decente oratória. Palavra não cora e, mítica, nasce da vertigem entre o início e o fim de toda e qualquer história.






Image by JahazielMinor

16 outubro 2010

à paisana




Preciso organizar tanta coisa. Ah, mas quanta preguiça. Bela herança de outros dias. Eu me refiro à coisas tardias. Nada que seja ancestral. Não culpo parentes mortos. Tenho a leve impressão de não ter nascido ainda. Encolhidinha estou no útero materno. E só pode ser materno mesmo. Homem não tem útero. Mas, certa vez, ouvi de um escritor (muito talentoso, devo dizer) que ele possuía útero. Só agora sei que era conversa pra comer vaca. E a vaca foi pro brejo.

E a madrugada me aguarda para o mergulho de meu inverno desproporcional. Hora dos sozinhos, dos corajosos e dos grilos permanentes que rondam minha cabeça desde outra década.

Resumo do dia:

À tarde, antes de meu sono acolhedor e ofensivo (Dormir é ofender o tempo. Aprenda.), inventei de ler alguns textos do Caio Fernando Abreu. Abro o livro. Morangos mofam, eu mofo, tu olhas, ele devora e nós nos separamos. Fim? Minhas pulgas circenses me vieram fazer companhia. Comecei a ler o tal livro. Sou do tipo de criatura que segue tudo ao pé da linha. Ou da letra. Caio fala na Ângela. Espera, Caio, quero ouvir também. Amor meu grande amor... Mas será que é só amor? E as forças armadas? E o poder legislativo? E os estudos acerca da magia? Tudo tem seu tempo, menina. Mas ainda não é possível que a vida seja só de amor.

E, em tempos de divórcio, minha cara amiga, sei exatamente o que você deve estar sentindo. Já passou pela massacrante divisão de retalhos? Esse disco é meu, aquele livro é meu, o sofá eu escolhi a cor e não toca nesse quadro. É meu! Absurdo é isto. Pensar em quadro quando existe tanto mais além. Tanto mistério, filosofia, gomas de mascar e mineiros que usam óculos escuros porque a luz agride os olhos. Logo, você se sente absurdamente ridícula. Presa feito rato as suas quinquilharias. Sente-se assim? Levante a mão quem nunca pecou. Todo mundo é assim. Achamos que nosso umbigo é o único. Acreditamos que nossos problemas são sempre maiores e o jardim do vizinho é, sem dúvida, mais verde que o seu. Acorda que vai chover, Cegueira herdada por trapaça do tempo.

E, depois de tentar entender o inexplicável, senti uma falta enorme de você. Mas este você não é você. É outro. Já passou por isso? Sentir falta de alguém que não existe? Este fato é bem comum de todo mundo. E dos vazios. Não que eu esteja dizendo que você é vazio ou vazia. Mas já parou pra pensar que talvez seja mesmo Vazio? Um vazio enorme preenchido de nada. E este nada é igual à soma de tudo que você busca e não traz satisfação alguma. Mas o que é mesmo satisfação? Sensação de barriga cheia, estar de bem com Deus, cantar na chuva?

Pois em verdade vos digo que nunca senti satisfação. Não esta de estar sorrindo de orelha a orelha. Minha satisfação é tímida, retraída, silenciosa e não gosta de rumores. Atinge com força, coito interrompido e já foi. Viu? Acabou.

Trem que passa veloz enquanto a gente olha pro outro lado, meu amor. E, quando se sabe o que esperar, a coisa nunca vem.

Aprende.

E minha auto-ajuda forçada me fez comprar livro do Drummond. Ou seja, compro livro, leio, escrevo absurdos (como este) e me dou em nada. Mas veja só a pessoa como se torna pessimista. Mas o que você quer? Eu vendi a alma ao diabo, parei com os cigarros e que péssimo humor isso me traz.

Dia desses liguei pra farmácia:

- Alô? Vocês têm um remédio bem forte pra dor de cabeça?
- Temos.
- Entregam em casa?
- Sim.
- Será que o entregador poderia no caminho comprar cigarros para mim?

Compatriotas, parecia que eu estava pedindo pro cara comprar crack. Mas era cigarro apenas. Levei um baita sermão de um cara desconhecido falando que cigarro mata. Mas me diga então, senhor homem do outro lado da linha, O que não mata?

Ir ao shopping mata. Comer açúcar mata. Fazer sexo mata. Telefonar mata. E tudo está pela hora da morte.

O homem não teve o que dizer. Calou-se. A tonta ficou rindo em casa ouvindo Depeche Mode e, alterada, escreveu este texto para rir mais e achar graça porque, acreditem, tudo é nada. E preencher bolso com dinheiro rasgado é o que temos feito. Mas fazer o quê? Lugares precisam ser ocupados.

Agora estou de saída. Vestido curtinho estampa floral. Pernas de fora e juízo sob controle. Pulseiras no pulso esquerdo, coração tatuado no pulso direito e uma coleira em minha alma cachorra. E ligaram de casa. As coisas não vão bem. Por isso eu saio. Por isso preencho bolso com o vazio de aquário sem peixe. Por isso nado. Sucesso versus nossa idade, gente demais pra pouco espaço e amar é dizer. Não queira mais alucinação. Amor só se for a todos. E volto depois da festa com a barriga ainda vazia e não choro. Não borro maquiagem por minha Causa. Nem uso maquiagem. Nem sou Causa. Nem sou eu.

Sou resultado de sucessivas regras que me dizem: Siga.

Sigo então o fluxo das placas de sinalização e respeito o Drummond. Ele estava certo. Ou provavelmente não.




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14 outubro 2010

bolo de laranja ©



Receita fácil. Até criança faz. Três medidas de tudo. Três xícaras de açúcar, três xícaras de farinha de trigo, três ovos. E segue a doutrina que receita tem regras. Margarina fica a critério. Pode ser meio tablete, tablete inteiro ou uma colher de sopa bem cheia. Mas não entorna. Liga a batedeira. Bate tudo, quebra a cara, bate palmas e se irrita que a roupa manchou. E, ao invés de leite, adiciona uma xícara de suco de laranja. Da fruta mesmo. Nada artificial. Derrama o suco na massa que aguarda. Fermenta com uma pequena colher de chá. O que mais há de faltar? Paladar, companhia, missa ou romaria? Canta alto e espanta pensamento intrusivo de amor mal servido. A avenca carrancuda vibra quando o vento entra pela janela. Avenca fresca comprada na feira. Comprei também um patuá. Nunca se sabe. Liga de novo a batedeira, liga tecnologia, liga modernidade e ser feminista não é comprar carro, morar sozinha e fingir orgasmo. É sempre algo mais. Volta ao ritual. As pás remam na mistura amarelada que desconversa o dia dentro da tigela. A batedeira trabalha e o sol da tarde aquece a parede descascada. Canta antigo mantra que não sabe o que quer dizer. Primeiro amor foi. Segundo amor latrinou. E o terceiro serve de lição e o resto é bolo de laranja. Aquece o forno: 250°. Gira 360° em busca da forma já previamente untada. Derrama a massa na forma e come o que sobra da mistura. É de praxe. Limpa bem o balcão com detergente ou desinfetante porque ovos deixam cheiro forte. Abre o forno e o bolo logo ficará pronto. Não se sabe ainda se a laranja será delícia ou apenas réplica fajuta de um outro dia vivido há tempos. Ou será mais uma tentativa frustrada de mudar o sabor da língua? Mas o bolo corre assando, o sol vai queimando a parede e a avenca recebe vento de mão cheia. Assim é a vida. Receita decorada que foge da rima. Nunca se sabe se ela atinge o clímax ou fica no meio do caminho pedindo resquício pra sobreviver. Feito receita de bolo. Vida tem regra, liturgia, miséria e, Santo Deus, ela pode desandar, empacar, sumir. Mas é preciso paciência. Vida é poema? Talvez seja apenas esquema. Conta numérica de xícaras, colheres e clichê anarquista de pensar que nosso mundo nunca irá mudar. Vida esquece roteiro. Vida é continuar.




Depois do plágio
Do acaso
Volto a escrever.




Agradecimentos especiais:


E todos mais...




Image by ian hambrick

12 outubro 2010

poemamente


Rua de homem sozinho acampando em mim. Pele sobre pele e corteja minha ingenuidade porque sou aquário e levo você e o sol inteiro nos lábios que forjam mentiras. Por que mentimos? Eu não sei dizer. Pode ser vício espontâneo. Pode ser estação do ano. Pode ser vontade de sumir entre mapas astrais. Todo dia a campainha toca e todo dia fico quieta. Sempre em meu aquário. Água me faz renovar ascendentes e, antes que alguém seja rude, escrevo em letras redondas que, mesmo que seja cruel a correnteza, meu aquário me protege. Tanto amor recebo. Moro em aquários porque não suporto frio e, sendo assim, nada me será tão triste quanto o esvair dos dias. Tudo é tão rápido. Mal tive tempo de me apresentar e já éramos juntos. Mal tive tempo de fazer planos e já éramos distantes. Mal tive e bem tive. Fiquei feliz por todo o engano. Alguém precisa mentir — e eu menti. Fui feliz por segundos e voltei ao mar que criei. Voltei ao aquário e durmo ao colecionar lembranças. Passa o dia e brinco e o homem sozinho sorri e já é amor de novo. Nosso mundo é feito de calçadas, vozes e aquelas linhas que dividem ruas. Ele adora ingenuidade. Eu adoro solidão. Somos final feliz de filme que ninguém entende. Ele tem algo a dizer, mas é tanto barulho. Leio lábios e o livro é pronto. O tempo esqueceu e não mentiu e somos o homem, o aquário, virgem e uma verdade. E ontem venerei o cummings até ele dormir e, alucinada, reli Anaïs Nin. Ela fingia por trás do cigarro, da postura de mulher do mundo. Era forte e amou até explodir. Hoje tem livro dela nas estantes pelo mundo afora. E hoje tenho diagnóstico. Escondida em meu aquário. Sou feliz — sei mentir. E dias nos consomem com a mesma ritualística velocidade das vozes ao telefone. Olho você e me silencio. Me atiro sedenta em seu abismo. Esse sentimento sedativo me causa calafrios. Seja meu hino e ser feliz nada tem a ver com isso.




love and math
you wear my past
over me you come
over me you cum
over us we love
love and math
play your best
forget
the rest is not us
I wear your body
dear love of mine
love and math
you cum and open me
a flower of you
a woman of you
naked and safe
in the arms of you





Image by icynra

palavra



Palavra que nasce e vive enroscada ao Lácio e vibra como se fosse vidro ou dilacera em alturas o ouvido e agride ao deixar seu dono, ganha o mundo. Ela que, preguiçosamente se debruça em minha consciência, e incide — ora bruta, ora caduca — menina desavergonhada a me desequilibrar. Como se fosse nosso passo ferindo ruas, palavra caminha em linhas curvas, e o que entendo da palavra não será o que o outro entenderá. Ela ouve e me arranca queixas, ergue palco e dramatiza minha voz lírica de esconder-me e, falsa ainda, maliciosa palavra que me torna explícita. E, quando já adulta, madura a linguagem ao quebrar o tempo com seus diversos efeitos de contradizer-se, palavra sempre ousa ofender-me e vive a me contrariar. Dona de todos os momentos, palavra escapa ilesa de minha boca, golpeia outros falares, se esvai pelos ares e invade outros pensamentos. É mesmo um imenso túnel, belo esculpido e edificado que, vertiginosamente, se entrega aos absurdos do vento.



Image by Kath Bishop

segundo império



"Tem mais presença em mim o que me falta"

(Manoel de Barros)



Voltarei a tocar violão. Acalmar nervos e harmonizar meus tons e cantarei alto, incomodando vizinhos, arranhando noites deixando o sono sumir. Voltarei à velha rua onde a paz residia. Tranquila e imediata. E à infância ao pé de jabuticaba onde eu namorava meus sonhos e pensava distante olhando o céu em todo azul. Voltarei a rezar, clamando a Deus e pedindo ajuda pelos que não podem falar e vivem no descontentamento. Voltarei a criar normas para o equilíbrio de minhas ideias. Tão emotivas, tão sensitivas, andam procurando sorte em cartas de tarô. Voltarei a dizer amor, indestrutível metáfora de vidro, escondido dos inimigos e minguando à luz do abajur. Voltarei a ler romances que falem sobre terras distantes para que eu possa sempre e mais sonhar. E comerei frutas todas maduras e desejo devorar vozes que ando carente de felicidade. Acordarei meus antigos hábitos, redigindo cartas em minha máquina de escrever, telefonando aos amigos, visitando parentes e trabalhando contente tentarei me resgatar. Voltarei a concluir ciclos, refazer receitas e, finalmente, dar por completa minha arrumação. Voltarei a fazer tudo que deixei de fazer por preguiça ou maldição. Farei todas as coisas que nunca ousei fazer por medo de ser vítima de minha intensa e desvairada fome de viver.




Image by pesare

ponto de vista





O conto era tão ruim que ficou bom.
Aliás, era uma crônica. Entende?

Foi assim. Comecei a ler, palavras foram surgindo, um palavrão aqui, outro ali, figuras de linguagem, tipografia Garamond e não sei o quê.

Resumindo a história:

Uma menina de mais ou menos vinte e poucos anos fala de relacionamentos. Amores. E tem uma amiga da menina que é convencida de ser bonita e acha que pode ter qualquer pessoa aos pés dela (A teus pés?). Até a menina de vinte e poucos anos (Que é homossexual). Entre uma e outra citação de nome de autor clássico, cresce o texto. E o conflito da história é este: Menina que é amiga da outra menina que é homossexual joga charme pra todo lado, aparenta sentir algo pela menina de vinte e poucos anos, surgem uns caras que também se apaixonam pela menina convencida e ela quer também que a menina (De vinte poucos anos) se apaixone por ela. Aí algo acontece, ela, a convencida, recebe uma lição de moral ao "telefone?" e acabou e Fim?

Quando terminei de ler parecia que dez mil anos havia se passado e eu estava velha e caduca. Porque não vi o pingo no i.
Talvez eu esteja ficando cega.
Ou louca demais para entender.
Ou o tempo passou de mim e fiquei lá atrás largada na velha literatura sem uso. E não sou homofóbica.


Então criei uma lei. Lei Wagner Montes.

A tal lei consiste em argumentar que tudo que é ruim, tão ruim, muito ruim (Em minha opinião, é claro), vai acabar ficando bom. Terá o seguinte conceito:

Tão ruim que é bom.

Pensei nisso e fiz uma comparação entre o conto (Crônica?) que li e um filme que assisti em mais uma noite de insônia.

Resumindo o filme:

O personagem interpretado por Wagner Montes (Aquele que era jurado no show de calouros do Sílvio Santos. O da perna manca. Casado com Sônia Lima. Acho que ainda é casado). Pois bem. O personagem era um "menino do Rio calor que provoca arrepio" e se apaixona por uma mulher que tem caso com um velho rico. A interpretação de todo mundo no filme é ruim. Até do pessoal dos bastidores. Wagner Montes fala como se lesse uma cartaz (O tempo todo assim. Feito Robô). E amor vai, amor vem, cena de quase sexo vai, sacanagem vem, e o filme tem um conflito. O personagem interpretado por Wagner Montes ama tanto a tal mulher que decide assassinar o velho e ficar com a mulher que, por sua vez, já tinha outro amante e faz sacanagem com "o menino do Rio" e termina o filme assim: Wagner Montes na cadeia, a mulher morta na piscina e o outro amante foge com a grana. E o filme era ruim. Todo ruim. Mas eu precisava ir até o fim e acabei gostando.

Daí surge a lei.

O texto era ruim. Muito ruim. À moda de Wagner Montes. Mas eu precisava terminar de ler. Assim como precisei terminar de assistir ao filme. Assim como preciso entender que tudo depende do ponto de vista. E sei que falei um monte de bobagem, mas é assim que surgem as leis. Ou escritores. Ou atores. Ou tsunamis.

E meu conceito para o que acabo de dizer fica a critério da nova lei. Ou do leitor. Ou de você.

Ruim que é bom. Ou quase bom.
Ou apenas Wagner Montes de camisa regata falando palavrão.


E quem sou eu para julgar?
E quem sou eu para criar leis?
É apenas mais um dia monótono.
E escrever não passa de encenação.




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espartilhos




Passeio entre éticas poéticas e me reconcilio. Dispo meu corpo do vinil antigo e vertigem é desafio. Passa da noite e já é dia e ainda respiro idílica minha natureza duas caras de inúmeras metades verbalizadas em obras de mera arte. E nada de mim se desgarra. E, embora eu seja dita gado abatido, animal ferido, beijo de improviso, reproduzida em alter ego alcanço a ponta de meus indícios de crimes, pagar castigos e bendito seja o inferno. Rastejo de mesa em mesa, lampeja de mim a luz sincera do respirar vadio e nunca fora ardida minha pele aos olhos dos puros senhores que ainda cobiçam minhas cansadas pernas de pedinte. Santa alguma faz o mal que me avança. Caminha criança de volta à cama dos pais e o casal se ama entre lençóis. E as canções antigas marcham curiosas e vasculham meus infinitos campos escondidos e não há humano que de mim terá parte cortada ou boca calada. Falarei em claro idioma, tomarei banho em rio de ponte partida e sairei pela cidade sendo bando e sacerdotisa das dores esquecidas e todo homem, mulher, criança ou cria, terá de mim toda metade. Que sou liberdade em substantivo e presa em adjetivo. Andante declarada, desatinada e vasta de inaugurações. Nunca refugiados mantenho sentimentos. Estão todos espalhados, soltos, balões infláveis, coloridos, intensos e radioativos. Todos loucos pelo infinito de fazer sentido na ausência dormente de meu juízo. Louca que só o tempo.




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épico




Devagar porque disseram que o santo era de barro. E vem de novo a mulher fazendo perguntas e me deixando sem respostas porque não tenho respostas. Sei de mim e a linha do equador atravessa nossa sala. E que me rompa à anestesia essa palavra distante que ornamento pra mim é mais que o dito. Que há nas fábulas que prende minha atenção é o mesmo que há em minha elipse. Minha oclusão de eternos modos de pentear cabelos, comprar pares de óculos, elucidar questões dos outros. Porque não resolvo minhas questões. Café solúvel e não resolvo nada. Mal sei da cor dos móveis. E a mulher foi embora. Mandei que fosse. Ordenei. Ir embora. Não consigo me concentrar com aquela imagem que furta de mim minha identidade. Eu bem que poderia (Conjugando futuro e fazendo de minha vida um pretérito sem fim) dizer logo das boas e novas tensas verdades. Sou de formato degradado. Puro e triste. Sou do tipo que fala sem órbitas e, no minuto seguinte, sumi. Se é que deixo o minuto vir porque é tudo tão forma e sou tão eu mesmo que capaz de mim só o meu reino inteiro. Minha indigesta forma de vida. E sou perfeito. Não questiono livro antigo porque também falo de mim. Todo o tempo — Falo de mim. Se há de ruim ou de bom ou, adjetivando aspectos, sou eterno. Rei de todos os tempos. Uma criatura em vértices e cheio de medo. Mas de medo eu não falo. Silencio porque não sei dizer mera palavra que seja estranha e inodora. Prefiro ilustração. Uma mulher nua e crua me atando de nós os pensamentos e este é o segredo de meu signo épico. Tranquilo porque sofro e não há lugar no mundo que me caiba. Sou maior que tudo. E maior que o turvo absurdo de quem me contradiz. Elite da nova obra e outdoor em cidade grande. Sou outdoor de cidade grande e sexo em ninfa e também usuário de uma estupidez maciça. Porque não sou qualquer um. Qualquer número. Dígito reciclado por outras mãos. Não sou qualquer estrofe de ritmo e acontecimentos simultâneos ou canais de TV. Modo eterno de honrar nome em frutos de pernas bambas e cortesias de mentira. Mas eu não minto. Sou tudo o que posso ser e, mesmo aniquilado, sou fonte de todos os advérbios que explodem em sua boca. Descendente de mim mesmo. E retorna a mulher e acorda meus sentidos. Sou como você. A espécie que de tudo a respeito será escrito.




Texto escondido no livro Artesã de Ilusórios.



Image by carts

alarme falso





"Há ausências que representam um verdadeiro triunfo."

(Cortázar)


Mulher romântica é um traste desgraçado jogado na estrada de tanto marasmo de amar. Verso. Desconverso. Deito de bruços e dou as costas ao inimigo perverso. E exagero nas medidas. Falo, desminto, minto, anuncio parto e me revelo. Esta pequena descoberta me fez elaborar outra de mim. Uma mulher seca e rígida. Frida sem quadro descolorida. E tombei depois das onze. Trem das onze, rádio de pilha e sabe que eu nem estaria aqui se acaso eu tivesse seguido outro rumo? Tateando em desculpas entupidas de culpa e compaixão, iremos nos banir. Sucumbir. Morrer em duas metades que se partem. Desordenadas pela bagunça da casa. Idiota eu que tirei retrato pra colorir sala. Idiota você que não me viu sair. Poderia ter me detido. Me tido. Metido. Pela garganta abaixo. Mas parece que covardia é feita em contágio. E ficamos dois medrosos prepotentes cheios de ódio. Cobiçamos tanto o que o outro era, que já era, que já não sou mais, que já se foi. Romance baseado em raros dias de contato. E hoje é feriado. Ou dia de quebra de contrato. Falho, mísero, invejoso; o amor, demônio descuidado, cai da escada, sofre em pranto e cala. Faz mala, escreve dedicatória em livro, joga fora maço de cigarro e, convalescente, morre de um gozo solitário. A estrada é de asfalto e do amor fica o rastro, o descaso, o silencioso temor do alarme falso.





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gênero explícito




Frágil
(qual destroço de um mito)
Busco me concretizar




Medo de dizer às amigas que gostava daquilo.

Que me faz bem.

Gosto de sonhar.

À noite, quando todo mundo dorme ou faz sacanagem ou mata ou morre, eu fico na cama pensando mil abobrinhas. Nem queira que eu te diga o que se passa em minha cabecinha purgante de menina sonhadora que finge ser maluquinha.

Minha atitude é para agradar.

Na Grécia, minta feito os romanos.

E nada é mais importante do que deitar e pensar. Passo o dia inteiro de gracinhas com minhas coleguinhas mestrandas e leitoras de Alfredo Bosi. Poesia é isto. E salta um verso da Adélia. Poesia é mais isto. E vem uma enxurrada débil mental de versos cortados e muita poesia marginal para suprir a necessidade de exibir quilate.

Eu faço parte do número.

Falo que falo que falo.

E, bem no fundo, não digo é nada. Volto pra casa e olho as ruas. Vejo casas, janelas abertas e adoro ver pequenas casas e pessoas abrindo geladeira. É reconfortante saber que escapo (gato escaldado) e volto ao meu pensar romântico.

(Mas romantismo não é bem isso. Veja no livro tal, capítulo tal, supracitado não sei onde. Romantismo nada tem a ver com teu ritual de pijamas, diário, cigarro apagado e uma fornalha querendo incendiar tudo que é coisa).

E eu ainda me espanto. Liguei a TV, minutos atrás, e vi o Carpinejar de unhas pretas, falando muito, rindo tonto e tenho vergonha ao dizer que cato ídolos fora do horário nobre.

(Cato estrelas no céu, no mato, no coração acidentado do rei despreocupado).

Estou praticando versos.

Cadernos e mais cadernos cheios de rabiscos.

Eu escrevo todo mundo.

Na cara de pau.

Agora estou na fase de tentar criar personagem que seja igual a mim. Estatura mediana, mente imunda de tão suja, perversa e quieta feito cobra antes do bote.

Descrever personagem, polegada à polegada, dá trabalho.

É árduo.

Preciso de um manual.

E comprei um livro que ensina a criar personagens. Uma cartilha para escritores iniciantes. Coisa mais vestibular. Comprei e escondi o livro. É o meu segredo. Há regras, macetes e tento evitar a questão física. Isso fica a cabo de quem lê. E eu escrevi um conto inteirinho depois de ler o tal livro. Sempre que tenho alguma dúvida, recorro a ele.

É o meu santo padroeiro.

Mas nunca faz milagre.

Agora redijo uma página de um romance malcriado. Um conflito, duas epifanias, um amor (talvez mais), mortos e feridos e durmo tarde. E, feito coruja espionando através das árvores, escolho meu plano de voo, meu destino e meu desastre.




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09 outubro 2010

burrocrática





Marina não ligou. Aposto que ela vai ligar quando eu não quiser falar. Sou vidente. Vejo o futuro na palma das mãos. Arcanos, arcanjos e o café desce quente abrindo minha voz. Calor absurdo. Mulheres falam feito marrecos. Eu estou quieta esperando que ela termine de fazer minhas unhas. Que esmalte? Qualquer um. Que seja claro. Ando cansada de escuridão. Chamei a Laura pra arrumar meu cabelo. Laura chega. Laura ri. Dispenso trocadilho de dizer que bom te ver, Laura. Não é bom. É comum. Assim como muitas outras coisas. Pipoqueiros e carros de som. Cansei de fazer espetáculo pra pouco brilho. Agora sou espalhafatosamente quieta. Nem um suspiro porque agora estou sob controle. Eu sempre soube que terminaria assim: irremediavelmente controlada. Enquanto se espalha pelo ar o cheiro sintético do esmalte, observo um quadro bem a minha frente. A moldura não combina com a imagem. Mas é bonito. Uma casa, uma igreja, e, refletida em uma poça d’água, a imagem da casa. Quase igual. Detalhe por detalhe. Alguém serve chá. Pra lá com este chá. Cansei de chá desde que passei a procurar cura para o incurável. Dizem que ando me contando demais. Dizem assim: "Você se expõe muito. Todo mundo te conhece. Tua vida não é segredo". É aí que se enganam. Minha vida é como a poça d’água no quadro. Quase reflete a verdade. Mas é só pintura.


Meu olho cartesiano ainda funciona e contabilizo meus gestos. Agora sou burocrata contando cada passo (até os falsos). Penso no homem que amo. Olho o quadro, Laura fala e eu penso no homem que amo. Não tenho vergonha alguma em dizer que amo. Ontem mesmo, na varanda, tomei sermão de um amigo. Ele parecia minha mãe berrando às três da manhã quando eu voltava estridente das noitadas. "Muda, menina. Olho pros lados. Faça isso e mais isso. Organiza-te". E falou assim: "Arruma outro macho". Quê? Outro macho? O que sou? Leoa? Animal de zoológico a tempo de acasalar? Louca? Eu ouço meus amigos por educação. Não discuto nada. Concordo à cappuccino. E não fora este o trato feminista? Dar as caras, enfrentar, ser mulher? Estou sendo mulher. Pago minhas contas, me divorcio, amo outro que ama outra que o ama e devem estar felizes. Um pouco de sangue escapa de um de meus dedos. Desculpa se te machuquei. Tudo bem. Acredite, já fizeram bem pior. Minha infância foi assim: "Por que ele é violento? Por que grita? Por que existe?". Já sofri. Sou free. Canto música dos anos 80. E o homem não me fez sofrer. Eu me fiz sofrer. Não caio no desfiladeiro de me postar de vítima. Não sou vítima e também não culpo a tábua das marés. Laura talvez tenha suas culpas e a surdina também. Tudo que acontece sem avisar. Se ele tivesse me dito: "Estou indo. Amo outra. Vive tua vida". Mas ele disse. Eu que não vivi. Não quis. Não era tempo. Se viver signifique sair dando a três por quatro como se isso me fizesse sentir Malu mulher, prefiro ser fraude. Freira. Meu homem será Jesus Todo Piedoso. Salve Castidade. E farei visitas a um grupo de apoio. Preciso ver como vivem as pessoas. Preciso olhar mais o céu, contemplar o tempo. Não é isso que dizem os amigos quando você está por baixo da malha? E ainda te mandam ficar feliz. Escreva feliz. Quer felicidade? Erotismo? Tenta Ziraldo, Garfield, Bozo ou Danielle Steel. Estou me rindo. Decido aceitar o chá. Teimaram tanto em me oferecer que aceito. Aceito até conversa do diabo. Mas alguém me faça o favor de tirar este maldito quadro daqui. Ele me denuncia. Ele me flagra. Ele não me ama. Vou chegar em casa e despejar libido no banheiro. Bidê ainda vale. Masturbação é coisa de criança, dizem. Não é não. É ver-se entalado na solidão. Há quem escolha o que já fora dito: "Seja banco de praça mal frequentada". Não quero isso pra mim. Entro em casa, me dispo, me sirvo do Chuveiro Homem que não me ama mais e gozo trêmula de insatisfação. Quase choro, mas me controlo bruscamente. Vivo me interrompendo. O telefone toca. Marina, hoje quero ficar só. Desculpa. A vida pode esperar, Marina. Tenha calma. Amanhã te jogo tarô. Marina mal sabe que cartas lidas nem sempre nos fazem obedecer. Mal sabe a Marina que vida é estilingue e nem sempre cumpre o trato. Marina não sabe nada. Marina, pelo amor de Deus, vá dormir. Sei que ela não irá dormir. Vai chorar, penar, vadiar, mas não vai dormir. Eu durmo. Mas, antes de cair em pleno sono, penso muito. E vou pensando até ficar dormente. Até começar a esquecer. Até não sentir mais calor. Até acordar na outra manhã.




03 outubro 2010

o pato e o tempo





A necessidade quem dita é o tempo. E já estava mais que na hora de algo ser feito. E o tempo não conta conversa. Não molenga e não capenga. Ele vem e dá seu recado. E era segunda-feira do mês tal, sol danado na calçada, radio de pilha nas alturas e aconteceu. O menino chegou. Preparou tudo como se fosse ritual. Água de mão cheia. Abriu a torneira e era chuá que não se acabava mais. Escorria água pela borda da banheira de plástico, cor de azul, comprada na feira de quarta-feira na barraca de Dona Matilde que muito entendia de diversão. A banheira era a alegria do menino e a mãe dele sabia. E não só isso. A mãe sabia de tudo. Comprando a banheira, compraria também sua horinha de vadiagem pra assistir novela. Coisa simples. A mulher pega a banheira e coloca no centro da sala e mergulha o menino lá e deixa a criatura se esbaldar na água. E o menino estava feliz. Não tinha somente a banheira. Tinha um pato amarelo de plástico com apito e tudo e iria brincar com o pato e o pato iria nadar na banheira enquanto o menino imaginava que era barco e a banheira, o mar. Banheira cheia, Chega Menino, gritou a mãe. O menino veio e mergulhou. Ô banho bom. E fazia era calor. A mãe ainda fingiu participar do evento. Imitou voz de pato (e pato tem voz?), fez  carinho no menino e se jogou na cadeira de balanço pra ver novela que imita a vida tão bem imitada que a vida nem tem mais graça quando se liga a televisão. Era o menino feliz, a mãe contente e eis que o outro surgiu. A trindade estava feita. O pai sempre se sentia cansado de tanto aguentar a mulher reclamar da vida e das coisinhas mínimas que não fazem diferença alguma e também aguentava o moleque pedir coisa, pra comprar coisa e fazer brincadeira. O pai estava cheio da vida. Mas chegou em casa, segunda-feira de um tempo bom, viu a mulher rindo da novela, menino navegando pato na banheira e era tanto riso na casa onde só havia reclamação que o homem sentiu estranhamento. Sensação de perda de chão. Olhou as alegrinhas criaturas que se divertiam, cada um à sua moda, ainda tentou ser visto, mas agora era invisível e sentiu-se inútil o homem. Entrou no quarto, de porta aberta pra sala, novela plim-plim e o homem viu que sua existência era nada. Procurou o fim. Abriu a gaveta, tambor carregado, matou-se o personagem que mal se explicou. A vida falha, capenga, mas não tarda. A mãe e o menino choraram de preto ao lado do caixão.







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