03 junho 2011

jukebox





Há muitas formas de dizer a verdade.
Talvez a mais persuasiva seja a que tem a aparência de mentira.

(José Américo de Almeida)





Escrevo, logo insisto. Ou será o contrário? Muitos pensamentos passam por mim quando leio livros ou textos avulsos ou blogues escritos pelos mais variados tipos de escritores. Mas quem escreve blogue é escritor? Bastando-me da simples definição de que escritor é aquele que escreve, afirmo que sim. Independente do gênero literário.

O que vejo quando leio textos em sites voltados à produção literária é um tipo de caos organizado em que muitos escrevem, poucos conseguem continuar escrevendo e muitos fazem de seus sites verdadeiras competições para ver quem escreve mais. Li em algum lugar (não me recordo o autor da seguinte assertiva) que, na pressa de publicar algo e demonstrar que realmente tem habilidades dignas de um Dostoiévski, o escritor de um blogue lança diversos tipos de publicações (poemas, crônicas, contos, ensaios, letras de música entre outros) e logo se torna uma jukebox ― termo que me veio enquanto lia A Bagaceira, de José Américo de Almeida.

O escritor jukebox tende a escrever vários tipos de composições textuais: desde poesia a narrativas longas, narrativas curtas, romances, cartas, ensaios ou resenhas. Este tipo de escritor é aquele que toca o trombone e ainda consegue, milagrosamente, pilotar um avião. Tudo ao mesmo tempo.

Isto é humanamente impossível.

Caso o seu objetivo seja o aperfeiçoamento em um tipo de gênero textual, é preciso foco para seguir escrevendo e não cair no abismo de falar a respeito de tudo e não conseguir dar um nó no cadarço. Há quem acredite em inclinação ou dom para se tornar escritor. Há quem acredite em exercício e prática. Eu prefiro acreditar que existam os dois. Talento e Prática. Você, como escritor, possui as ferramentas para escrever sua obra, porém, é preciso, antes de qualquer outro impulso, praticar e aperfeiçoar seu trabalho para, com a sorte que poucos alcançam, encontrar uma voz que seja original ou, ao menos, a sua voz (e não o ressoar de algum outro autor que já passou ou ainda está em alta na literatura de cada dia).

Dos escritores que leio e acolho como favoritos, observo em suas obras a busca por uma identidade literária que o faz singular entre tantos outros. Cortázar é um de meus escritores de cabeceira. Li alguns de seus livros e não acredito que ele tenha atirado em todas as direções para, finalmente, escrever sua obra. Cito também Virginia Woolf como uma escritora que se manteve em terra firme e construiu sua vasta narrativa baseada no fluxo de consciência. Nunca li um poema escrito por Virginia Woolf e não anseio por isto. Sua obra é completa e uma das mais respeitadas quando o assunto é Literatura Inglesa. Admiro também a obra de Sylvia Plath. Nitidamente confessional e autobiográfica, ela trava em seus poemas, eternos conflitos da mulher que vivia cercada por filhos, marido omisso e a memória de um pai alcoólatra. Nunca li um romance escrito por Sylvia e isto não a torna menor que outros escritores. Ela é poetisa. Ou poeta.

Eu, assumidamente escritora em fase de aprendizagem, me sinto pressionada quando muitos me dizem para seguir outros passos. Escreva poesia. Escreva textos cômicos. Escreva mais conflitos. No meio deste tiroteio de conselhos, observo algo escrito por mim, analiso, penso mil vezes, reescrevo, rasgo tudo ou publico. Acredito que o fato de um escritor não enveredar por todos os tipos de composições literárias não o faz estacionado no trabalho que tenta fazer contínuo. Admito que em minha pequena obra, ainda imatura em fase de crescimentos, há falhas, há acertos, mas, a despeito de tudo isso, há um caminho escolhido e por ele traçarei minhas histórias. Mas de algo tenho certeza. Eu não sou uma jukebox. E não pretendo ser.






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8 comentários:

Roberto Denser disse...

Você não é, não pretende e nem PRECISA ser, Letícia. Seus textos estão assim, ó: completinhos. Bjs.

NDORETTO disse...

Argumento perfeito. Ninguém traça o perfil ou o estilo de uma escritora. Ninguém traça o estilo. Ele nasce junto com você.Você é a escritora.
Beijo :)
Neusa

Eder Asa disse...

Eu, diante da sociedade me assumo e me retraro um Jukebox.
Não é desculpa, mas sou um Jukebox por coação, por necessidade. Experimento, pesquiso, nem tudo da certo (a maioria de fato não dá), mas veja lá, não me caibo em um estilo só. Até porque, sou muitos.
Talvez um dia encontre um caminho, talvez só ele possa me levar em diante, mas não sabendo qual escolher, aposto em muitos até decidir.

Mas, é ótimo ler-te e concordo, que bom que você não é, até porque, você é única.

Beijo, Letícia!

Zélia disse...

Que tipo de escritora serei eu? Serei, até mesmo, escritora? Vc sabe como minha cabeça anda ultimamente. Questionário para tudo que é lado...

Eu, mais uma vez, teria um tratado para escrever aqui mas, minha cabeça não deixa.

Acredito e concordo com tudo que vc disse aí. Escritor que segue uma linha só, não é menos capaz que outros. Cada artista no circo tem uma habilidade. Estariam os artistas de circo estacionados? Será que grandes escritores, com reconhecimento de pares e tudo recebiam diretrizes de outras pessoas? Escreva isso, depois aquilo... o.O

Para não me alongar, minha opinião sobre os blogs. Eu acredito na liberdade dos blogs. Cada um faz aí o que quer e como quer. Sabe por quê? Porque lugar de Escritor não é em blog. Vc, Letícia, não precisa ter um blog para escrever. Muito menos do reconhecimento, SEM QUERE OFENDER A NENHUM BLOGUEIRO (eu me incluo na lista), de blogueiros para ser Escritora, ofício que vc abraçou de coração. Just do your job and think about it. ;)

Beto Canales disse...

Perfeito.
É um excelente caminho.

Devir disse...

empáfia! você me deu a definição e obrigado, mas não é para acariciar a sua vou fazer esse comentário.
sinceramente acho uma tremenda asneira quem fica tentando estreitar a utilização dos blogues,faz-se qualquer coisa, foto, poema, texto, bem ou mal escrito, qualquer merda você vai poder postar alegre da vida!
esclarecido isso, aqui nesse escrito, você aprofundou o assunto para o patamar das ambições particulares do gênero artístico, porque, você quis dar um puxão de orelha em um bando de leitor que não sabe elogiar sem exigir sempre mais. de fato nenhum blogueiro aprendiz de carpinteiro está tão cotado para mandar seu fiel leitor tomar no cú, ainda que carinhosamente, mas de modo geral um escritor quer escrever as safras de sua vida, e faz aquilo que lhe parece aprazível, seja poema, musica ou teatro. se quiser fazer algo bem feito será ótimo e dai sim ele precisa estar na busca de conhecimento para aprimorar sua técnica, mas do contrário a essência deve mesmo ser o puro deleite.
Especificamente a seu respeito, se quer mesmo saber, acho que você quer ser uma escritora desse estilo que tanto me agrada ler, e você precisa ser a melhor nisso, já ultrapassou a fase de escrever tudo pra descobrir com o que realmente se identifica, mulher, você já se identificou, é tempo de evoluir em si.

Letícia Palmeira disse...

Tadeu,

Então é asneira. Cada um tem a sua verdade. Seria chato se todos pensassem da mesma forma. É bom saber que coisas divergem. E, caso eu quisesse viver de elogios, escrever seria minha última opção.

Ana Cristina Cattete Quevedo disse...

Penso que cada um tem sua maneira de criar. Pode ser que ser uma junkbox dê certo para alguns.
Talentos acima do mediano, talvez, para ter escritos de qualidade e não ferir sua sensibilidade ou a do leitor.
Não rotulo ou critico quem o faz.

Pois há de se ter gosto e identificação para tudo. Ou quase tudo :)

Voce é uma escritora maravilhosa. Sua coerência e carinho em cada linha é palpável. Admiro tua postura, sua entrega.

Beijo