06 agosto 2011

duque de caxias, 402, centro








Enquanto tem gente que pensa em aparelhos telefônicos, penso em minhas sombrinhas que são modernas bailarinas e tomam Prozac. Minha preguiça acordou de mau humor e me mandou pastar. E já estou pastando nos verdes campos olhando o tempo e pensando em minhas sombrinhas. Ativamente passiva. Desnorteada não. Apenas pensativa. Já pela manhã, bem cedinho mesmo, pastei entre minhas plantas e vi dois pássaros no fio de alta tensão. Pensei de novo nas tais sombrinhas e, desta vez, meu pensamento efusivo colorido me trouxe a sensação de que ando cortando linhas da versão atemporal das coisas. Sinto muito, Tempo, mas a solidão invade o excesso de ser natureza e ainda sair para comprar pão. Vida simples? Não diria isso. Diria apenas que simplicidade é um trajeto curto através da cidade e ainda um disco antigo. E inventei de limpar armários. Os tais armários embutidos que parecem aprisionar nosso corpo à nossa casa e às memórias e já esqueci as sombrinhas. Embutida em meu apartamento na longa rua que segue em direção ao grande centro, decidi arrumar coisas. Porque elas precisam de mim ou eu preciso delas. Posso ser negligente, mas nunca com as minhas posses. E segui limpando cada canto escondido e as traças, que são tropas de elegantes soldados que não portam armas, tão singelas e tão ingênuas larvas, fugiram de mim e de minha incansável vontade de ficar só. Enfrentei as tropas. Flanela na mão e litro de querosene. Dizem que elas morrem assim. Uma tristeza tipicamente humana me veio à boca, mas eram as traças ou eu e minhas coisinhas. Lembrei logo daquele dito sobre ovos e omelete. É triste, mas devo ser firme. Limpar armários exige de mim uma firmeza intermitente. Aí me deparo com minhas histórias. Gosto de sofrer. Caixas cheias de coisas que não uso. Minha existência me trouxe tudo em demasia. Roupas, viagens, perfumes, fotografias e tudo o que me prende ainda aos embutidos. E agora me perco em fotografias. Pedindo perdão, dia de missa, batizado de sobrinhos, festas em que fiquei tão alta e minha embriaguez era um alarde. Alguém sempre me trazia pra casa e acabava embutido também. E outras fotografias. Liquidações, sorrisos, primeiros tempos, lógica em dia de domingo. E minha vida me encheu os olhos. Até então estava calma e até poderia deixar em paz as traças. Mas depois de rever minhas glórias, decidi acabar com todas. Uma a uma. Decerto que vivi e vivo meio engasgada, levando tapa na cara ou enchendo o embutido de remendos, mas sou feliz que nem reparo. Chega um dia em que a gente sente que é feliz ou abrasivo ou um candelabro antigo e de certo valor e é um tal de amor reflexivo que tudo recebe sentido. Até fotografias. E pensar que tudo começou em sombrinhas, traças e termina o dia e eu aqui, contando em pares, meus afetos e prefácios. 





Image by Thalweg

2 comentários:

ediney disse...

Um texto que me gostaria ter escrito, uma vida atada de tal maneira a solidão que coisas simplórias como sombrinhas servem a calma companhia.
"ando cortando linhas da versão atemporal das coisas"

Eder Asa disse...

Quem faz a direção de fotografia de seus textos? Porque, só sendo...

Mas, sabe Letícia?, as 'coisas' nos são inerentes... uma personagem da Silvia Orthof diz "o que a gente não precisa mas ama, isso é que é lindo!"

E lindo foi o texto... Ainda me comove e intriga essa sua sensibilidade simples (ou simplicidade sensível, que seja)...

Beijo!!!