18 março 2011

hormônio intacto





Pensar em excesso entorpece os sentidos. E, de instante, torno-me fria, calculista, radical em exagero ao deparar-me com amigos e já não faço parte das conversas de comum acordo. O poeta bem disse: "Pensar é estar doente dos olhos". Acredito não existir alma neste mundo que esteja pronta para enxergar o fato, o putrefato, o micróbio que se alimenta de nós. Eu estou doente há séculos de minutos. Nem à missa me permito porque sinto zombarem de mim o padre, os discípulos, a mãe, e a trindade com suas histórias de perdão e humildade. Eu tenho me preparado para o combate. Admito, em fina voz de hormônio intacto, eu tenho me preparado. Tento, sem muita energia, coagular o sangue que inferniza as veias para poder, com maestria, alegrar estranhos e estar sempre de acordo com as leis que aprisionam meu comportamento. Eu que sou mulher que posso fazer diante de um mundo-homem senão chacoalhar minha calda e exibir a vergonhosa vagina que serve de fonte? Devo freqüentar salões de beleza e conversar asneiras com as burras que amamentam suas futilidades? Devo inflar meus seios para provocar libido e atenção? Não há respostas. Uma vez tendo decidido servir de abrigo as palavras e enxergar de olhos bem abertos, tanto o céu quanto o inferno, que não me venha a cegueira hibernar meu juízo. Não me basta o leviano embalsamar de meu corpo em alfazema para diluir-me fêmea. Pois há um embrião de mágoa e sede incorporado ao útero que toma de mim a suavidade herdada por minha sorte. Sou mulher. Não sou uma fenda que serve apenas de depósito à oferenda seminal que rege meu gênero sem talento, sem tato, sem biológica característica para o disfarce. Leio poesia em tom abrasivo de constante rebeldia. Há quem leia um poema e queira recitá-lo. Há quem leia um poema e queira lamentar-se. Há quem leia um poema e queira incendiar-se. Esta é minha opção. Não tenciono agradar, pois minha pele sofre de repulsa alérgica a qualquer ato de resignação. Compactuo com a vida da mesma forma que registro palavras em letra cursiva. Não rastejo. Não vibro. Não celebro. Apenas observo o sapo engolir formiga que engole açúcar que devora a vida que poliniza o feto.









Image by Snyder

17 março 2011

mudez atônita da verve






E nada mudou. Sempre espero, de ingenuidade que sofro, que algo de novo aconteça. Que portas se abram de forma mais obesa — exageradamente escancaradas. Porque, de frestas, já basta a vida que espanca a rotina que dela nasce criança e cresce adulta a caducar. Ainda vejo praças e o caminhar da gente. Chafariz ateando água em meu fogo e que sufoco viver do lado oposto onde nada acontece e tudo que fora vivo fenece de poeira e esquecimento. Quisera eu viver ao vento. Ser poeta ou enamorado das coisas de simples aspecto. Mas adoeço todo dia desta agonia de ser complexo. E novamente à espreita. A vida não nos respeita e canso de falar. Amarguras tantas sofro e calcifico minhas devotas multidões de mim. Caço à margem dos simbolismos minha identidade que fora tão minha e nunca furtada e é verdadeiro o medo de cada um. E alcançou-me a mudez atônita da verve. Enclausurado não é somente aquele que adormece entre quatro paredes e grades em pequena janela de onde o sol ensaia humilhar. Sou também prisão de órbitas e minhas poucas e parcas alucinações não me fazem mundo. Apenas solidão. Se me demora a alegria que é dita pela vida, a tristeza vem a mim forte tenaz feito pássaro de voo raso que me faz mergulhar fundo ainda mais em meu deserto. De olhos maciços o exército vem ao meu encontro. O confronto não é brutal, embora ecoe em mim aversão que se nutre de minha vertical masculina fonte. Debruçadas nos degraus de minha casa elas se armam. Sorridentes entre meus pertences elas me ameaçam ofuscar. Penitentes de tantos santos oram minhas vidas antigas que me fazem vivo enquanto existo. E se aproximam a me esnobar. Acordo em grito de flagelo, abraço a mulher que tenho e meus filhos dormem no segundo andar. Essas memórias de ontem me inquietam e não vivo do presente porque glória não há neste tempo de agora. Minha mulher não entende a vida que um dia deixei passar. A vida que tentei sufocar de tanto tentar esquecer. E me julga louco? Portanto, declaro óbito de minha lucidez e ainda à espreita a vida a me desgovernar.







Image by pesare

13 março 2011

hermália





Hermália, datilógrafa e balconista, sabia muito bem o que queria da vida: sossego. Não se importava com homem, com dinheiro, com nada. Hermália queria apenas trabalhar e ficar em casa deitada de banho tomado com os pés na frente do ventilador pra sentir o ar fresco tomando conta de seu corpo. Hermália era solitária desde cedo. Nasceu como nasce qualquer um. Saiu da mãe e herdou do pai os olhos, os cabelos e os ombros largos. Hermália sempre soube de si como mulher forte, batalhadora, órfã logo criança e comedora de fígado acebolado para não ficar anêmica. Ela vivia em paz. Mas acontece que a vida não dá descanso a ninguém, e Hermália viu-se, um dia, importunada por carta de gente distante. Alguém havia partido: uma tia, ou tio ou alguém que nunca havia conhecido. Logo, Hermália, datilógrafa e balconista, teve de fazer viagem por pedido em carta: Compareça à leitura do testamento. E ela foi. Seguiu longa viagem para Araçagi. Nem sabia que cidade era aquela. Mas foi. E lá dando as caras Hermália conheceu a desgraça. Ela tinha família. Uma ruma de gente que nunca tinha visto. Gente que sabia de sua mãe, de seu pai, de como Hermália vivia e de sua mania de viver sempre distante. A datilógrafa surpreendeu-se com tal fato, pois fazia o máximo do impossível para não ser encontrada. Chegando ao cartório, local onde seria dito da herança de seu falecido tio, Hermália sentou-se de vestido e unha feita e esperou impaciente porque só queria ir embora e descansar antes de enfrentar trabalho no dia seguinte. A parentada, toda unida pra saber quantos grãos cada um iria receber do falecido, falava cochichando que o tio era rico e isso e mais aquilo. Disseram até que o velho era sovina. Hermália só pensava que aquela gente era ruim, que nada tinha deles e que não queria contato com tanta gente feia que mal sabia respeitar o tempo de luto e já fazia partilha de bens. Chega então um advogado que passou a ler o que o velho tinha escrito. E era tanto ó e á que o povo dizia que Hermália não via a hora de sair daquele lugar infestado por sua recém-conhecida família. E houve surpresa grande. O velho havia deixado o bem mais valioso para Hermália ― o que é bastante óbvio em dada narrativa. Porém, entretanto, todavia, o óbvio nem sempre é fidedigno. Hermália herdou do velho tio um belo e acobreado trombone antigo.







Image by Nacho Tamez

11 março 2011

mal de andrade






Andrade é um sacana. Tinha nada que morrer, Andrade? Logo agora? Veja bem meu caso. Após 45 anos de vigília, morre o Andrade. E como eu fico senão assombrado por este desgraçado? Vai morrer pra outro, Andrade. Eu já tinha avisado que aquele hábito não ia dar em boa coisa. Eu tinha dito. Não dizem que quem avisa amigo é? Fui seu amigo, Andrade. A vida inteira. Sei lá quanto. Aguentei de tudo. Até sua mulher que me enchia os ouvidos com as lamúrias de ser deixada em casa. E, como bom amigo, tratei dela. Fiz bom trabalho, eu acho. Ela se acalmava quando eu passava pra conversar com ela. A mulher passou a entender. E nunca mais lhe deu canseira. Não foi assim, Andrade? Fale, Andrade. A morte engoliu sua língua ou o quê? Este meu amigo, que agora descansa deitado dentro deste caixão, nunca foi boa coisa. Mas sei lá o que dá no povo que idolatra gente que não presta. Ele era ruim. Lembro agora de uma história que ouvi. Tempos atrás. Li e lembrei-me do Andrade. "mijo gelado ― mijo de gente ruim". Seu mijo era gelado, Andrade. Quando você se esgueirava pra urinar, eu sentia o gelado consumindo tudo. Subia pelo teto aquele gelo e eu sabia o tempo todo que você era capaz de tudo pra arruinar a vida de qualquer um. Ruim que só o diabo. Andrade foi criado por Dona Maria que ralava coco pra fazer cuscuz. Ele aperreava muito a velha que, gorda que só ela, passava o dia a ralar coco e fazer cuscuz. Era uma vida desenganada de triste e ainda tinha o Andrade pra criar. Dona Maria morreu faz tempo. Sei lá quanto. Mas deixou Andrade pra acabar com o mundo. Ele costumava matar gato. E eu dizia: Isso dá azar, Andrade. Ele ria de mim. Dizia que o medo acabava comigo. Mas era medo não. Era outra coisa. Um dia você vai saber o que era, Andrade? Nunca tive medo de você. Nem de você nem de suas coisas. Eu acompanhava Andrade pra cima e pra baixo. Era feito um homem e a capanga embaixo do braço. Nunca largava o Andrade. Meu costume era ficar perto dele. Acho que era pra tomar cuidado de quem se aproximasse dele. Eu sentia que era minha obrigação proteger o mundo contra o mal de Andrade. Mas, por mais que me esforçasse, Andrade acabava com tudo. Fazia mulher chorar, batia em criança, roubava gente idosa, comprava fiado e nunca pagava e sempre fugia das dívidas. Andrade se esgueirava por cima do copo e se acabava de beber em boteco e ainda era de brigar. Houve tempo de Andrade andar armado. Era um 38. Mirava muro e atirava. Bêbado e caindo, mas nem isso abalava a maldade de Andrade. Era de berço ou quê? Dizem que ele foi se tornando assim. Dizem que era criança boa. Não lembro. Quando me dei conta Andrade já era maior que eu e só me lembro da crueldade dele. Era ruim até com ele mesmo. Soube que atropelou gente de propósito, catava mulher de amigo e comigo foi assim. Houve um tempo em que Andrade ficou bom, sei lá o que lhe deu, e passou a fazer bondade. Todo diabo tem direito de errar. E eu levei Andrade pra dentro de casa. Dei cama, dei televisão e comida. E Andrade passou tempos sem roubar, sem beber, sem arruinar vida alguma. Mas era engano. Ele ficou quieto porque ambicionava o que eu possuía. Quando dei por mim, Andrade já tinha carregado minha mulher. Era mesmo o cão dos infernos. Foi aí que me tornei ainda mais preso à Andrade. Ele levou minha mulher e isso eu não suportava. Então fiquei por perto. Minha mulher entrou na fila de querências de Andrade e eu não pude fazer nada. Admito que tinha por ele algo de grande valor. E minha mulher era boa. Disso não posso reclamar. Mas Andrade falou grosseiro com ela e mulher gosta desse tipo de tratamento. E não tive segunda chance. Chego em casa um dia e só encontro o vazio e o bilhete. Andrade levou a mulher com ele. E, como nunca fui de vingança, fiquei por perto. Mesmo sendo tratado mal por amigos e familiares, mesmo que todo mundo me chamasse de frouxo, eu não poderia deixar que Andrade ficasse longe e acabasse amando de verdade minha mulher. Andrade era ruim que só merda. Foi assim desde o começo, no beco, na casa de meus pais. Andrade me quis, eu quis Andrade e era preciso forjar a vida pra ficar com ele. Casei e me vesti de homem íntegro. Mas o fato é que eu morria de amor por Andrade a vida inteira. E hoje ele morre de ir embora e deixa clara minha viuvez de homem sério. Você não valia nada, Andrade. Mas eu sempre amei você. Não era medo nem nada. Era necessidade que não se acaba mesmo quando a gente ama um traste que morre e deixa fila de mulher tudo dependente de um homem que só conhece quem sente. Por Andrade eu engolia vergonha, vontade e toda a maldade dele. Sempre.







Image by MiquelAngel

09 março 2011

alegórica






Perdoa se falo Drummond, mas o fato é que a vida estancou. Parou de funcionar. Arrebentou tudo quanto foi coisa e o saldo alegórico é crítico. Bateu vontade e liguei pro terapeuta. Alô daqui, alô de lá. Pedi algumas informações. Eu só precisava saber de algumas coisas que me travam a compreensão. Conversei por hora e meia com a doce voz do terapeuta que me ouvia e tentava respostas. E ele me disse pra ter calma, pra cuidar do andor, do santo de barro. E eu não havia dito nada. Eu estava bem. Parece que é preciso estar mal, doente, triste. Eu não estava triste. Eu só queria respostas. Por que calçar sapatos em quem já morreu? Resultado foi que a doce voz ao telefone deu sermão existencialista citando parábolas freudianas que não combinam com minha fantasia. Só pode ser um complô. E acho que esta palavra deriva do Francês. Mas achar não significa estar certo. Vide palavras cruzadas. Então peguei uma nesga de papel e escrevi um poema:

Amor é feito cartão de crédito
Tem limite, cobrança e data de vencimento.

Isto não é poema. São apenas dois períodos. E gostei muito da nesga de papel. Dá vida ao inanimado. Percebo agora que somos aquilo que parecemos. Bom slogan. Você é o que parece. Desliguei o telefone e decidi me enfrentar ao espelho. Mulher, seios, mãos e a coisa malcriada que não entra em extinção. Sou vulcão em erupção? E fazia tempo que não varria o oitão. Peguei vassoura, chuva caindo com força e eu lá, varrendo o oitão. O chão ficou limpinho. Molhado, mas limpo. E chegou a hora do café. Solidão não mata. Pode endoidar alguém. É uma verdade. Porém, doideira não mata. Há quem faça uso de sua loucura para coisas bem úteis. Vide enciclopédias. Eu, por exemplo, fico louquinha observando aviões. Quem poderia imaginar que um dia poderíamos voar em toneladas de alumínio? Risada frouxa de pés no chão e camisa quadriculada. Entra o homem. Como foi de carnaval? Não fui. O carnaval quem veio. E ainda carregou meio mundo com ele. Mais de duzentos. É muita gente, muita cama vazia e muita missa pra rezar. O homem sentou, perguntou coisas de mim, muita trivialidade, falou em trabalho e depois desatinou a falar que eu te amo e que sentiu saudade. Eu disse apenas que muita coisa perde efeito quando da soma se faz subtração. E, daí em diante, a conversa interrompeu-se abrupta e partimos pra luta. Porque a violência é grande da fome passada a pão e água e de abstinência não morro. Posso até desvairar lunática. Mas dessa coisa me farto, me infarto, me torturo, e, toda dúvida se dissipa quando o corpo exercita o que a mente maliciosa e indecente acumula.







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08 março 2011

voz de retórica






Quero poesia com salada e me traga o melhor vinho para que o destino faça cumprir o tardar das palavras. Castas vastidões de minha transgressão adversa. Muda minha linha de questionadora inocência. Quero poesia e um cigarro e também o brilho frio dos metais que habitam a estante da sala. Quero poesia de bons tempos. Remotos ou não. Controlados tempos por súbitas ondas de nossa auto-afirmação. Quero poesia ao som dos ventos, tardios em colóquios de cotidiano, fazendo de tarde o que se faz à noite e beijar escandalizando as capas de vinil. Quero poesia com a vontade etílica do homem e seu copo e sentir a difusa coragem entre o salto e a textura que toca a face do alto abismo e o leão devorador. Quero poesia boca-a-boca, trovadores emancipados caindo dos céus em milagres. Quero poesia em qualquer língua, já que a arte não repele com barreiras o sentir dos palavrões. Quero poesia com café, clichê e margarina. Poesia cretina, despida, aterrorizada de vontade e uma tensão de pele e flor rasgando e calando o meu senso disperso de vulvas e formas de fêmea pecando ao ler em tom de inocência o que de mim já é adulto e sedento indolor. Quero poesia intercalada e ruborizada de tanto que fere a doçura discreta da meretriz de meigos olhos amando intenso o falso que renuncia amor de corpo e vela. Quero poesia à moda escrava, fazendo sexteto e calando segredos que tempo é tudo e amor é pouco. Quero poesia de toda cor. Quero poesia em grandes goles e sentir o êxtase de cada escritor. A plosiva poesia da rua escorrendo da língua minha e sua e de toda a rima duvidosa que dispara e recomeça as vias de correr livre em nós. Angélica poesia transversal. A voz que une as mãos em castidade e a devota linguagem dos animais.








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05 março 2011

um weekend com você





Final de semana entre amigos e um namorado no fio da meada. Arrumamos mochilas, levamos comida (Algo que fosse de fácil preparo ― sanduíche com patê de atum, pipoca, salgadinhos, e, para beber, refrigerante e a maldita garrafa de Martini). Pior bebida não há. Mas fomos. Ficaríamos em uma casa na Praia tal, esquina com o mar e assim por diante que o ônibus anda. Marcamos de nos encontrar na lagoa. Todo mundo com cara de vamos fazer e acontecer. Meu namorado já estaria lá, na casa, a espera, a espreita, com cara de desespero. Um amor. Lindo mesmo. Menino, 17 anos, carinha de propaganda de iogurte. Minha amiga reparou: Você fez depilação? Corei. Fiz. Um mundaréu de risada porque depilação e final de semana com namorado só dá naquilo: Jogo de xadrez, diálogos inteligentes e muita citação boboca que não chove nem molha. E lá fomos nós, ruas adentro, à casa da praia. Final de semana inteiro de muita música e bebida. Chegamos, disse um amigo que estava conosco. Percebi que ele estava com medo que algo acontecesse. Algo estranho pode acontecer entre quatro pessoas bêbadas trancadas o final de semana inteiro em uma casa de praia: Jogo de baralho, responder questionário e tomar leite condensado no furinho da lata. Bobagem ter medo disso, pensei. Estamos todos seguros. A casa era grande e quase pequena. Sofá, janela, quadro mofado, mesa faltando cadeira. Ou seja, típica casa de veraneio: quase abandonada, empoeirada e a geladeira vazia. Mas tinha gás. Podemos cozinhar, alguém disse. Eu não cozinho nem juízo e estava muito apaixonada para pensar em comida. Chegou então a hora de começar a curtir. Música, Martini e salgadinho Elma Chips de consolo aos solitários amigos que estavam na sala, enquanto, sorrateiramente, meu namorado e eu fomos ao quarto. O que faz um casal de namorados adolescentes, febris e cheios de ideias, sozinhos dentro de um quarto com cama de casal e tudo? Resposta: cooper. Deitamos e a vergonha tomou conta de nossas caras. Eu nunca tinha visto você assim. Eu nunca tinha visto você assado. E, no meio da conversa cheia de nada, um beijo de romance e bactéria, nos fez tirar tudo que nos aprisionava: Tênis Nike, samba canção e o escapulário do pescoço porque Deus não permite pecado. E a música atolava meus amigos que estavam na sala. Soube, tempos depois, que eles muito discutiram a respeito do preço de certos produtos, contaram algumas desventuras sofridas em dias de aula e falaram a respeito de carteira de estudante e cobradores de ônibus. Eles estavam se armando de cultura e eu e meu namorado estávamos verificando se a cama era realmente resistente. O colchão era bom. Ao menos isso. Aí começa o idílio. O namorado, lindo que só deus, beijava, sorria, contava até três, inspirava, prendia o ar no diafragma, expirava e começa de novo todo o processo. Beija, faz aquilo, conta até três, inspira, diafragma, expira e conta até três, beija, coisa a coisa, inspira, diafragma, expira e conta até três e coisa mais a coisa e diafragma expirado e beija mais a coisa e, neurótica com tanta conta, decidi perguntar o que era aquilo. O namorado explicou que era comum porque, do contrário, ele poderia ficar com dor desviada. Sou atleta e sei me exercitar. É bem melhor assim. De apaixonada, tornei-me, em um minúsculo segundo, uma pista de corrida ou ginásio de esporte ou esteira de academia de ginástica. O cara estava se exercitando em cima de mim. Depois de encerrada a longa série de exercícios e respiração boca-a-boca, eu queria tudo, exceto o belo namorado perto de mim. A vida não deveria começar assim. Eu não deveria estar aqui. E, enquanto meus amigos entediados sorriam na sala, o rádio dizia as horas, meu namorado tomava uma chuveirada, eu, de bruços e calada, olhava a lua da janela e pensava: Não era bem assim que o filme se passou enquanto eu sonhava. Voltamos daquele final de semana com a barriga cheia de fome, a cara cheia de nada e nunca mais falei sobre isso. Sorri ao reencontrá-lo anos depois. O belo ex-namorado agora vende carros, exibe ainda o mesmo sorriso de encrenca, mas não pude deixar de notar que sua barriga tornou-se imensa e mal cabe no aperto da camisa de botão. Acredito que ele deixou o cooper de lado e esqueceu-se de beijar e inspirar diafragmático como fez um dia em uma casa em certa praia ao céu azul de mais um dia de verão.








Image by Aaron Jasinski

04 março 2011

violeta putrefática





Violeta, exausta e derrotada por sua necessidade de limpar a casa, percebeu-se louca. Era dia e muito cedo quando Violeta sentiu, através de suas dilatadas narinas de bicho farejador, um cheiro que, além de perturbador, era insuportável aos ares de Violeta. A mulher tomou posse de si, sacudiu-se da cama, vestiu um roupão por cima de seu corpo alvo e besuntado de hidratante, e saiu Violeta a caçar o terrível odor que ousava ameaçar sua existência aromática floral. Piso brilhante em cada cômodo. Uma maravilha. E vai a louca neurastênica checar de onde poderia estar vindo tamanho mau cheiro. Cheira daqui, cheira acolá, abre a geladeira e verifica se todos os potinhos estão devidamente lacrados para que a comida não se torne a imundície azeda que despudoriza a vida de qualquer um. E debanda Violeta pela casa, pelos quartos, cheira as toalhas, respira o ar da rua, inspeciona ralos, sanitários, vasos, flores, gavetas, sapatos e Violeta sente desgosto por ter em sua casa medonho odor espalhado na atmosfera que sempre fora cuidadosamente neutralizada contra qualquer espécie maléfica de sujeira. Violeta sente-se tonta, furiosa, e, chocada, culpa o marido, seus filhos, os vizinhos. Violeta culpa deus por ter criado o fungo, o musgo, o putrefato, o fel que dilacera todas as belíssimas coisas. A mulher sente o mal irrigar suas veias, invadir sua clara essência de limpeza, e, no ápice do esguicho de sua fúria, Violeta encontra a fonte de seu pavor. A podridão. A lascívia que entorta as vigas de seu santuário. Violeta surpreende-se ao ver o reflexo no espelho. A fenda cospe o pútrido amarelado do plasma da bactéria. Lá estava a raiz de toda sua dor. Um enorme furúnculo explode sob o nariz de Violeta que, exausta e derrotada por sua necessidade de limpar a casa, percebe-se imunda feito um rato morto e entregue ao chão.









Image by wholba

01 março 2011

pavio curto





A gente é cativo de si mesmo.
E o mundo é um só.



Manoel de Barros, amarra com força os cadarços, lápis e península, mão no bolso e nada de cigarro entre os lábios. Trafega entre uma linha e outra e, descafeinado, o tempo me olha. Se eu fosse criança um dia bem que poderia entender todas as coisas que não existem. O belo de tudo que não existe. Mas nada. Adulteraram todos os planos de ser para sempre infantil e ainda espero a velha reunião de família. Sorriso de avó e manda lembranças ao resto do povo todo. Hoje estou solidária e desejando sorte. Ligaram do trabalho. Ando faltando demais. É gripe, sinusite, ovo mal passado e sempre me esqueço de pegar atestado médico e já cortaram meu ponto dezenas de vezes. E cortam meu dinheiro também. Aos solavancos. Vida desprotegida que não aceita renúncias. E chove mais e eu me encolho no tempo que não está frio. Lembro de minha última viagem ao Rio. Quase morri de calor. Ipanema é um bairro caro, bonito, cheio de gente pelas calçadas e adorei as lojas. Só de estacionamento paguei preço de pecado e ainda fiquei arrependida porque estava em péssima companhia. Mas é preciso dar a cara pra ver. Não se vive a vida sem passar por certos atos trágicos e aguentar gente que só olha o caminho da frente é parte da romaria. E já chega de ser propícia. Não sei se estrada de ferro ou avenida. E ando a fazer terapia. Tanta conversa e o fio da meada é mais longo que a Avenida Paulista. Cruzes, Ave Maria e me vejo no espelho porque preciso analisar minhas atitudes. Fiz um esboço de minha vida e me diagnostiquei. Meu calibre não tem limite, minto tanto quanto exibo meu riso e acordo e durmo de pavio curto. Minha língua ardida passeia em minha boca feito vingança na mente de um bandido e quero mais é andar na contramão do que exibir vitalidade e não esqueço meus ares de bestialidade. Já chega de ser só minha. Horas são, amar em vão e eu entro em desacordo com a tal calmaria que não me acaricia. Vou de encontro ao estrondo porque quero o absurdo de tudo e, sob o excesso que o tempo esconde no pó de café de ontem, caduca minha pseudo-tentativa de evolução.









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