15 junho 2013

bukowski










Um alemão que se tornou americano e sobreviveu aos anos mais decadentes dos States e seu universo de grandes talentos hollywoodianos.


Comecei a ler Bukowski há dois anos (ou mais — eu nunca lembro a data exata). Refiro-me a ler de verdade. Antes disso, eu apenas lia alguns trechos escritos por ele e considerava que aquilo havia sido escrito por um grande ESCRITOR. Mas eu estava enganada. Bukowski, ou Hank, como costumam denominá-lo, não era somente escritor. Ele era homem. Escrevia como homem e falava como homem, civilizado e cafajeste. Sempre verdadeiro em sua prosa ou em seus poemas, o velho safado diz exatamente aquilo que está entalado. Estou falando de mim. Pois eu busco escritores de acordo com minha necessidade de entender o mundo. Ou, talvez, esquecê-lo de vez.

Em meu último aniversário ganhei de uma amiga o livro Amor é tudo que nós dissemos que não era, organizado e traduzido por Fernando Koproski. Não o li de imediato, assim como fiz com outros livros do Bukowski. Este eu deixei esperando por minha leitura. Livros também têm seu tempo, acredito.

Decidi começar a leitura semana passada (junho de 2013 — em casa — na varanda). Trata-se de um livro de poemas. Poemas? Esta interrogativa sempre me inquieta porque eu leio poemas de todos os tipos e tamanhos. Porém, em Bukowski, não é poesia. É toda a vida. Escancarada e dilatada. Nunca um poeta me cativara tanto quanto o Hank.

Em Amor é tudo que nós dissemos que não era há comparação entre pessoas e flores, mulheres e tulipas, cavalos de corrida e toda gente que anda pelas ruas. É um livro vivo (assim como tantos). O homem Bukowski me fascina a cada leitura porque não teme. Ele se diz e não espera aceitação. Ele mesmo se dignifica em sua poesia denominada marginal. Não há regras na poesia bukowskiana. Aliás, há. No poema Então você quer ser um escritor?, ele diz:

"Senão estiver explodindo em você
apesar de tudo,
não faça."

Este é o conselho do senhor ébrio aos que desafiam o ato de escrever. "Se a coisa tiver de ser polida demais, não faça. Se tiver que usar dicionários, não escreva". Assim como no poema Roll the dice, Bukowski encoraja mostrando o que há a se perder e ganhar. E ainda fala a respeito de escritores que buscam a literatura por fama ou por aqueles que buscam mulheres para sua cama. Eu me deleito e sorrio ao ler Bukowski. Porque, além de ser um marco da literatura contemporânea e blablabá, ele diz tudo o que eu preciso (e gostaria de) dizer. Mas será este meu objetivo ao ler um livro? Creio que não. Eu leio livros para saber mais a respeito de mim também. Bukowski não escrevia apenas para escrachar uma sociedade cheia de escritores comedidos, engajados, que bebericavam espumante em festas elegantes. Ele falava (ou fala) do cotidiano que fere tanto ao ponto de causar cegueira. Porque muitos fogem da realidade (e não adianta dizer que existem várias realidades — só existe uma — que é esta — acordar, trabalhar, trepar, mentir e, com sorte, ter algum dinheiro para futilidades). O poeta-romancista Bukowski também fala de amor como quem fala de algo que existe. Ele não foge em lirismos excessivos. Ele não cria belas musas. Bukowski, em seus livros, ama a mulher comum, engordurada de tanto cozinhar, fétida de cigarros ou bebida, e desamparada por si própria ou pelo marido (que seja). Mas é a mulher que pisa no chão. Não há delicadezas excelentes e celestiais em sua poesia. Há sexo e saliva. Há pênis e vagina. Há tudo que se esconde em casas de família. Eu me recomendo uma dose de Bukowski todos os dias. E sem gelo (que é para aguentar a vida).




E termino com um verso do poema Uma Definição.

"amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu"

(Bukowski)


Ou seja: a culpa é sempre alheia.
É isto.