17 janeiro 2014

estrangeira















Dois escritores me escreveram. Isto é redundante? Creio que não. Eles me escreveram e agiram de forma muito amável, pedindo que eu os lesse. Aliás, fora eu quem pedi para ler seus escritos. E ainda estou lendo. A escritora, uma contista, escreve em detalhes. Nada lhe escapa. Perfeita como costura de fina agulha. Preciso ler com olhos de lupa. O escritor é romancista. Ácido. Forte. Eu seria assim acaso eu não fosse quem eu sou. Estou lendo os dois livros e digo que eu já os amo. Ligo a TV durante o jantar: Jovem morto espancado. Vinte e duas pessoas morreram (na Síria?). A copa promete. De novo a mesma mentira (tantas vezes dita). A xícara de café quase entorna quando vejo viciados em crack varrendo ruas para que se distanciem do vício ou para que façam algo de produtivo na vida. Quem engana quem? Fumar faz mal, mas eu acendo um cigarro enquanto a lua exagera no céu do jardim. Cada lugar tem o seu céu particular. O meu é escapista. Viajei para respirar novos ares. No entanto, ao desfazer malas na pousada em que me hospedei, lá estava eu comigo. Eu me carrego o tempo todo. Como posso me enganar e pensar que irei respirar novos ares se estou ali, sendo a mesma, requentando resto de sobremesa e pensando somente em meu umbigo? Estive, por alguns dias, em um lugar paradisíaco, embora já tenha sido descoberto por todos. Muitos estrangeiros, muitos pescadores, lugares exóticos e praia mais praia versus praia. Eu gosto do mar porque ele é sempre o mesmo e nunca é o mesmo. As ondas fazem com que ele se renove. Fiz uma pequena ligação entre o mar que vi e o livro As Ondas, de Virginia Woolf. Viver é isto: enquanto o mar se renova em ondas, nós vivemos, adquirimos nossas responsabilidades, nossos amores e envelhecemos. Envelhecer não deve ser amargo. Deve ser algo como o murchar de um fruto que, ao amadurecer, se torna melhor. Será? Saberei disto? Não me envolvo em questões tão amplas. A lua se move e eu ainda a observo. Quem estará mudando de lugar, a lua ou eu? Eu ‘é’ sempre tão falado. Mudarei de pronome, de nome, cortarei o cabelo, sairei por aí e, quando eu voltar ao meu lugar, ainda serei eu. Não há fuga. Escrevi uma carta imensa, mas, como há palavras que são secretas, não enviarei. Logo, não escrevi carta alguma. Uma senhora muito bondosa me disse que sou gentil. Adoro este adjetivo. Ele é açúcar. Não suportaria ser somente educada. Ser educado é dietético. Eu prefiro ser o adjetivo diabético. E, no fim da noite, ele me beijou e disse que sou a mulher mais bela que existe. E isto foi há séculos. Pois, para o bem ou para o mal das coisas, meus dias são eternos.











2 comentários:

Luis Eme disse...

a espaço pensei em Pessoa, a ler-te...

Germano Xavier disse...

"Eu seria assim acaso eu não fosse quem eu sou."

Um recorte pleno de nós todos.