13 fevereiro 2014

incoerência











as pessoas correm da chuva mas
sentam
em banheiras cheias
d'água.

(Bukowski)






Tevê ligada. Padre fala em salvação. Eu apenas ouço. Acredito que ele terá de falar muito. Porque muitas coisas estão perdidas. Meus óculos se perderam. Minha fé está partida. E os carteiros estão em greve. Hoje a vida me expôs mais um dia de coisas comuns. Comuns porque eu as aceito. Mas não porque o sejam. Não houve aula na escola em que leciono. Não havia comida para as crianças. A verba para a merenda se perdeu. Onde está a salvação, senhor? Se salvar refere-se ao fato de fazer voltar ou alinhar algo que se desvia, creio que a política já está nos infernos. Eu teria vergonha caso eu trabalhasse com política. Mas quem disse que não trabalho? Tudo é política. Desde a hora em que desperto à hora em que me despeço e adormeço, tudo é política. Atitudes, palavras, reis na barriga, pessoas que passam, pessoas que mendigam. Tudo é política. Até a moça do jornal que fala em meteorologia. De saia e saltos altos, ela diz: sol quente aqui, sol quente ali, pancadas de chuva ao leste e tudo às boas no sul do Brasil. Mas será que está tudo bem? Tento mentir para me sentir melhor. Há tempos perdi minha fé no país. Que é nação. Que é gente. Não falo do país Praia e Carnaval. Isto é outro assunto. Falo do país em que um certo presidente barbudo jogou tudo sob o tapete e agora, meu deus, tudo está tão aparente. Até as rachaduras nas caras ricas que antes eram tão contentes. Tenho pena de quem é brasileiro. Logo, tenho pena de mim. Mulher, brasileira, negra e leitora de Mário de Andrade. Que, aliás, tem sido minha companhia nos últimos dias. Estou lendo Amar, verbo Intransitivo. Estou apaixonada pelo modernismo que esconde as cenas de sexo entre Carlos e Elza. Tudo tão bonito. Livro é o melhor esconderijo e, também, a melhor forma de enxergar o quanto estamos perdidos. Leio e penso. Penso e sinto vontade de fugir. Fujo e dou de cara comigo e me revolto ao me perceber incoerente. Mas será que sou incoerente? Pessoas não me parecem coerentes. Sou pessoa também. Falei a respeito disto com uma amiga. Chegamos ao ponto g da questão máxima: quase todo mundo age de forma contrária ao que diz. Comunistas vestem Adidas. Mulheres berram por liberdade, mas imploram que seus homens (ou amores) não as abandonem. Quase todo mundo diz que ama, mas na hora do amor, dorme na cama. Entende? Isto é metáfora? Isto é bobagem? Estou farta. Quero apenas Sartre de volta. E uma boa dose de verdade para que tudo em mim se salve. Eu tenho amor, a dama da noite perfuma a casa, faço tudo que gosto de fazer. No entanto, ainda engulo esta acidez de infelicidade. Ainda a verborrágica revolta me invade. E todo dia eu volto para casa cheia de tanto viver nesta cidade.










4 comentários:

Luis Eme disse...

a "insatisfação de viver" não devia ser tão natural, nem a vida nos devia parecer igual todos os dias...

A. Everton Rocha disse...

sinto bastante essa insatisfação que cita no texto. lio-o de baixo para cima porque achei-o grande e assim para mim o texto se torna pequeno e depois lá em cima desci, lendo duas vezes. só mesmo uma pessoa estranha, mas que bom que achei esse espaço tão parecido comigo, lirico e que mostra a bestialidade do mundo, um espaço que me faz escapar. Muito bom. continue a escrever sempre....

Lucas - Blog: Overture disse...

A inquietação que lateja no texto é por salvação. A que o padre na tevê anuncia ou alguma. As coisas são bem melhores rotuladas. Se rotulássemos do quê queríamos tanto ser salvos, ficaria melhor. A infelicidade é um despropósito, mas qual o propósito da felicidade? Três coisas, matam: a vida sem sentido, o sentido sem a vida e sabe-los. Sabe o que salva? Alguém! O sentido da vida começa com alguém e se aperfeiçoa a cada dia compartilhado. Beijosssss

Camilla disse...

OOOpssss vomitou. Tadinha, vou dar meu sal de frutas pra ela. To viciada nesse treco.