02 março 2014

carne viva










Construíram uma igreja perto de casa. E já está em pleno funcionamento. Mulheres cantam. Não há vozes masculinas. As mulheres cantam aleluias e rezam alto. Com meus tímpanos pagãos eu ouço com muita atenção o que elas cantam. Sinto até vontade de ir à igreja. Mas certamente não me sentiria bem estando lá, ao lado das mulheres que cantam. Porque eu desafino. Não comungo, não leio a Bíblia e converso com Deus como se Ele fosse um amigo muito íntimo. Eu o chamo de você. E escrevo em letra minúscula. E, para completar, eu desejo o que não é meu. Eu peco. Tu pecas. E ele, possivelmente, pecará. Há um certo ar de conforto nestes dias. As ruas estão vazias. Como sempre estiveram, devo salientar. Abro a janela e as cortinas. Observo os vizinhos jogarem lixo quando ninguém mais os vê. Eles não querem sujeira em suas casas. Por isto arremessam sacos de lixo na rua em dias que não haverá coleta. Tantas vezes a palavra lixo é seguida de luxo em alguns poemas modernos. E por falar em poemas, recebi conselhos para ler os românticos. Baudelaire era romântico? Baudelaire contraiu sífilis. Ele morreu. Mas deixou um legado incrível. Flores de todos os aspectos. Leio um trecho que me investiga. Aliás, é um verso. "E por dominares tudo é que nada te interessa". Isto é verdade. Mas também pode ser mentira. Tudo é via de mão dupla. Assim como as vozes das mulheres que exaltam Deus. Talvez elas estejam competindo entre si para saber qual delas canta melhor. Eu já vi isto acontecer. Nos tempos de escola de freiras, as irmãs costumavam elevar suas vozes e declamavam cânticos. Cada uma mais soberba que a outra. Eu gostava de ver suas caras sorridentes e cheias da malícia bíblica que tanto evitamos. Todos pecam. Todos erram. Fecho a janela e penso no homem que amo. Ele quase não fala. Ele quase não sorri. Ele é paciente. Transborda compreensão quando digo que não, que nunca, que prefiro estar só. Ele me diz que ninguém está sozinho por completo. Ele fala de forma filosófica, mas, no sexo, urra como um bicho cujos demônios cantam. Ele sorri perverso. Ele fala de minhas curvas. Ele bebe de minhas águas e sequer agradece. Será este o papel da mulher moderna? Eu não quero ser moderna. E não quero dialogar a respeito de todas as complexidades. Eu não quero ser a mulher esperta a qual todos agitam bandeirinhas de admiração e fazem carinho na cabeça como se fosse uma espécie de cria doméstica. Eu quero apenas o que ainda não sei se realmente quero. A dúvida é o meu anseio. E quando digo ao homem que ele é belo demais para se perder em palavras, estou na verdade dizendo que o quero, urrando seus cânticos maliciosos, enfiado entre minhas pernas e seios.










5 comentários:

Cinthia Maria Bezerra disse...

Excelente! Parabéns! :D

Luis Eme disse...

contradições humanas e muitas vezes dos próprios deuses (ou de como nos apresentam...).

(Letícia, talvez o problema maior das mulheres, seja haver tantas que não querem sair do registo de outros tempos. a bajulação masculina apetecida faz esquecer outras coisas...)

Daniela Delias disse...

O melhor de te ler, narcisicamente falando, é que a gente se lê. Eu me leio. Mundão cheio de espelhos, este. Te ver no espelho é das coisas mais bonitas.

Beijo

Anna Apolinário disse...

Violento e verdadeiro, como tem de ser, a vida.

Camilla disse...

Garanto que as mulheres que cantam não pensam em nada que vc disse. Será que o certo mesmo é deixar o cabelo crescer, colocar um roupa comprida, pegar um biblía e correr pra a igreja mais próxima. E cantar, cantar muito.