26 março 2014

sobrevivente









Aos amigos
Que estão vivos







Eu nunca admiti, mas eu tenho medo de gente. E principalmente de gente que julga. Mas daí que todo mundo julga. Logo, eu tenho medo de todo mundo. Sinto-me tão infantil ao dizer isto. E medo é coisa de criança, né? Então eu sou criança. E hoje não é dia de brincar no parquinho nem arremessar pedrinhas na água até que elas formem grandes círculos. Hoje é dia de brincar de espelho, olhar bem nos olhos e tentar entender o que temos feito. Antes, bem no começo, tudo o que me importava era escrever. Eu só queria escrever. Eu lia muitos livros e escrevia. Dia e noite. Anotava tudo que eu sentia ou queria sentir. E escrevia. Eu transformava a vida no que eu queria que ela fosse. A vida era minha. Dentro de minha casa, de paredes forradas de quadros, eu estava protegida de qualquer agonia que fosse real. Os únicos conflitos que eu vivia eram os de meus personagens. Este era o meu perímetro de conforto. Ou zona de conforto. Mas daí eu inventei de viver. Inventei de conhecer o mundo e as pessoas (das quais eu disse sentir medo). Foi só tirar meu corpo de minha redoma de livros e ideias, que entendi o quanto eu me escondia de tudo. Porque era seguro o esconderijo. Era sexo feito de voyeurismo. Agora é a hora em que digo que viver é foda, igual dizia o Renato Russo. E é foda sair da zona de conforto. Eu nunca me sentia pronta para lidar com as realidades todas. Sempre fugi. Porque o contágio humano é perigoso. É arriscado. E sempre sobra algum estilhaço que fere a gente. Quando decidi largar minha casa e meus papeis de contos inventados, foi o momento exato de sentir que era preciso viver um pouco. Mas quanto é pouco? Fui vivendo e conhecendo gente. Gente boa, gente não boa, gente que mente. Todo mundo igual, mas tentando parecer diferente, com opiniões grandiloquentes e muito medo. Todo mundo sente medo. Ao perceber isto, que é muito fácil de se notar, eu passei a observar com maior humildade a atitude das pessoas. A forma como falavam, as formas como amavam e odiavam. Uma coisa que percebi ao sair de minha proteção é que há amor demais no mundo, embora haja tanta gente sofrendo. Isto é do Bukowski, né? Que seja. Mas é assim. Todo mundo de bandeira na mão, cantando revolução por um mundo melhor, "mas ninguém quer sair para comprar o pão". Pessoas querem velocidade ao sentir e ao se relacionarem, mas não possuem paciência alguma ao elaborarem seus afetos. Eu também sou assim. Acendo lâmpadas e quero luz. Naquele instante. Se tudo me demora, desisto e volto a contar histórias. Mas isto não é certo. O adequado para a idade que me contamina de experiências seria a tolerância com as coisas e com o tempo. Tolerância e esforço para que tudo se transforme em algo melhor. Estamos em crise, todos dizem. Mas ninguém conserta os erros que suas atitudes produzem. E nem sei por que escrevo isto. Talvez seja medo de me perder na multidão de gente que conheço. A gente se perde em outra gente, sabia? A gente se esquece em outras pessoas. E, talvez, quando isto acontece, seja a hora de voltar ao abrigo. Mas eu volto sobrevivente. Aprendi que nem tudo pode ser meu, mas o que tenho é meu somente. Ouvindo a música que um amigo me enviou, eu escrevo. E a este amigo eu digo que só estamos inteiros por termos tido coragem, por termos perdido algumas lutas, por termos nos deixado partir em pedaços. É por tudo isto que estamos intactos. Você entende? Eu ainda tenho medo. Mas agora posso ir e vir mais segura de meus passos. Ou não. Quem sabe? O futuro sempre será mais tarde.









3 comentários:

Luis Eme disse...

gostei de te conhecer um pouco melhor, Letícia, embora como dizes, sejas igual a toda a gente... da mesma forma que também és diferente, única. :)

Aline Gouveia disse...

Também morro de medo de gente. Gente é muito perigosa. Inclusive eu.
Mas como você disse, é preciso viver. Viver requer superar ou até mesmo fingir que não sente medo.
Excelente texto, Vizinha.

BeijO

Germano Xavier disse...

Construíram-me o medo muito cedo em mim.Por isso tanta luta interna.