31 maio 2014

bonus track











Há extrema beleza em relações que são mais curtas do que o pavio que não alcança a pólvora. Melhor desertar. Melhor não recriar a história. 

(Flora Conduta)







Perigo. Mulher em cúmulo de TPM, portando cartão de crédito, vasculha sites de roupas e calçados. Minha mãe costuma dizer que TPM não existe. Ela diz que é frescura. E eu concordo. Não existe TPM, nem alienígenas. E também não existe isto que eu escrevo. É invenção besta. Genocídio particular. Matar ideias que não valem muito. Elas apenas valem o momento, que já não é lá essas coisas. De novo, enchimento para o travesseiro. Fula da vida com nada, a mulher liga a tevê. Pesquisas Revelam. Pesquisas estão sempre revelando algo. Deveriam, só por novidade, dizer que ocultam. Pesquisas ocultam. Assim como pessoas que ocultam. Assim como orações que ocultam o sujeito. Eu admito ter uma queda por orações deste porte. Por esta razão, eu nunca indico o sujeito. Posso até anunciar endereço, mas não aponto o dedo. Sou discreta. Igual cisco no olho. Eu incomodo, mas não me mostro. É preciso, para que eu seja vista, uma boa revirada em gavetas, rever álbuns antigos ou reler alguma anotação escrita por razão estúpida. Assim, talvez eu surja: a intrusa radiante. O cisco aparente. Salto agulha oculto por vestido longo. Liquidação virtual engana. Nada vale o preço que se cobra. É sempre mais ou menos. Não sei subtrair. Logo, sou levada a adicionar. E daí eu me ferro: adiciono até coisa que não sinto. Isto é absurdo. Exercito a indiferença. Mas, até com aqueles que jogam sujo, minha atitude é educada. Nunca desejo o mal. Desejo felicidade, passe bem, boa tarde e um punhado de culpa em dias de solidão. E a casa está vazia, Bruce Springsteen canta Thunder Road. Roy Orbison singing for the lonely. Trecho perfeito da trama. Mas ninguém é tão solitário assim. Todo mundo é múltiplo de um baita inventário de gente que vai e vem. E de gente que não volta. Gente que escapa pelos vãos. Gente que a gente inventa de enfiar em nossa história. Gente que nem estava no script. Somos palco estreito. Melhor poucos personagens a multidão que apenas enfeita a paisagem. Por fim, a mulher desiste da compra, pensa na importância de outros assuntos e se enfia nas cobertas de sua cama. E ela diz que sente muito por tudo que disse sentir. Ela nunca soube ficar calada. Do dicionário, a mulher sempre quis usar todas as palavras.













3 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Basicamente um texto que me define.
Sim, tenho TPM. Não é algo que preceda um ciclo menstrual por motivos óbvios, mas tenho. E não suporto, porque me desestabiliza.
Minha melhor amiga, mulher, não tem. A invejo de ser mulher, menstruar e não se alterar com isso.

Lê, tem dias que são assim mesmo, a gente inventa de ser e desiste.

Beijo.

Luis Eme disse...

sim. :)

Anônimo disse...

A minha fidelidade aos texto de Letícia Palmeira, levou-me a propor uma análise em grupo de várias viagens dela (estórias)nas quais pegamos carona e não é que rendeu pano pra manga!