15 maio 2014

os pés pelas botas








Que horas são? Pergunto. A resposta está no carro que passa e atropela sapo que saltava em poça d’água. O céu está azul e, certamente, há pessoas aproveitando o sol que se deixa estampar em alguma praia. A campainha toca. É o carteiro. Ele arremessa um envelope imenso que não abro. Apenas verifico se estão corretos endereço e destinatário. Enquanto isto, há um pequeno aparelho ao meu lado. O aparelho não para de vibrar; ele insiste, ele coexiste. É o celular. Lembro ainda o tempo em que telefone só servia para telefonar. Era bom. A gente dizia alô, ouvia alô, falava alguma coisa e dizia até mais ou tchau. Hoje não. Ter um telefone é como estar ao lado do mundo inteiro de gente falando e contando histórias ou praguejando ou chamando atenção. Não me lembro disto no passado. Era tão difícil ver alguém irado ou fulo da vida ou pelado. A vida era mais discreta. Hoje em dia dizem que ganhamos liberdade de expressão. Acho que não. O que ganhamos, por nosso excesso de liberdade, é o avesso dela: estamos aprisionados. Envidraçados. Agimos de acordo com as normas: Não diga o que você está pensando. Diga o que você deveria estar pensando. É isto. A verdade se traduziu no ato de fingir. Ou mentir mesmo. E, quando o fingimento transborda, a corda arrebenta e alguém acaba metendo os pés pelas botas. Entende? Repare bem que eu estou dizendo o que eu penso, mas de forma que pareça que estou pensando em algo que não seja isto. Inventei de criar uma conta em um aplicativo de fotos. Um horror. Sempre que vejo as tais fotos (que são minhas), digo: Mas eu estou tão diferente aqui, nesta imagem. E o aplicativo ainda informa o tempo. 16 semanas atrás. Socorro! Estou mudando muito rápido. Estou envelhecendo. Estou engordando. Estou acontecendo. Estou morrendo. Estou tão tempo. E as notícias surgem instantâneas. Arrastão ocorre agora, multidão grita por seus direitos, tente não enfrentar o tráfego na Avenida Dom Pedro II — tudo está engarrafado. Só agora perceberam? Este engarrafamento vem se formando há décadas. Tudo começou pelo começo, quando a gente se esqueceu de ser de verdade e passou a agir feito ponteiro despencado que desrespeita a lógica dos números inteiros. Eu tenho medo de abrir meu e-mail. Eu evito telefonemas. Eu ligo a tevê e não consigo mais ver tanta barbaridade que ocorre enquanto a gente sorri em fotos que sequer são de verdade. Se estou fugindo? Não creio. Estou apenas observando o céu que está azul. E não sei bem no que estou pensando. Talvez eu esteja apenas elaborando. Sem pressa. E, com todo respeito ao tempo, estou apenas vivendo uma fase silenciosa que não berra ao fervor da chaleira. Penso que somente quando pararmos é que saberemos o que o tempo está nos fornecendo: se morte, vida, alegria ou fartos instantes de arrependimento.












2 comentários:

Luis Eme disse...

também, Letícia.

somos mais condicionados por tudo.

começa a ser "areia demais para a nossa camioneta". :)

Aline Gouveia disse...

Tenho pensado nisso ultimamente, Vizinha. Parece que a nossa vida tem girado em torno de uma vida que inventamos. É triste isso. Nunca ser o que se é.

Amei o texto.

BeijO