13 julho 2014

mutilada e otimista










Acordo. Abro a janela. Chuva e céu nublado. Estou meteorológica e cínica. Meu rosto está ressecado. Creme para as mãos e para os olhos. É preciso ser otimista. Por isto, passo creme na cara e me deixo vestida de pijama pela casa, enfrentando a limpeza da qual sou íntima. E do silêncio. Minha geração está doente. Não somos como nossos pais. Nossos pais vivem bem (aos trancos e solavancos). Mas nós, não. Sofremos de doenças que sequer existem. Males psicológicos. Paranoias imensas. Insatisfação que de nada se alimenta. A não ser de nós mesmos. Esqueço. Agora voltei aos óculos. Comprei. Óculos enormes. Esverdeados e lilás. Ou será outra cor? Estou daltônica. Óculos que preenchem além dos olhos que leem notícias de guerra, de sabotagem, de ódio. O mundo deveria acabar, dizem os mais revoltados. Eu não digo nada. Apenas leio. Bombas que não trazem alegria. Palestina mutilada. E ainda dizem que futebol é importante. Qual o peso disto na vida de um humano mutante e cheio de dramas espetaculares? Zero. Não me importo com futebol. Só em tempos de Copa. E logo teremos teorias que provem que tudo não fora comprado. Tudo fora vendido. A copa foi vendida para nós que a compramos por um preço muito alto. Bebida, infartos, brigas, terrores mínimos. Nada me surpreende tanto quanto a reação humana que é tão singular na derrota. Dizem que não sabemos perder. Mas como perder se nunca ganhamos? Não diga isto. Ganhamos vida a cada hora. Eu ganho. Aliás, eu recebo: amor, beijos e elogios. Mas ainda estou vazia como um cômodo de uma casa na qual não mora ninguém. Estou preenchida de oxigênio e várias outras substâncias nocivas. Dizem que ioga cai bem. Tudo cai bem para esta indigestão de consciência. Como pude me deixar levar por conversas tão tolas? Como pude, desde minha infância, acreditar em tamanhas mentiras? Fácil. A gente sempre escolhe o alimento que a mandíbula irá mastigar sem que haja muito esforço. A gente sempre escolhe o caminho mais aberto. Ou mais próximo. Ou mais risonho. Meu rosto está ressecado. Passo creme e olho no espelho. Minha geração sorri de graça e sofre por uma caça que ainda não se mostrou. Volto ao cinismo que é próspero. E à hipocrisia que é otimista, dizendo que tudo ficará bem no fim de cada dia. E só me resta dizer amém. 











2 comentários:

Luis Eme disse...

sim. :)

a culpa é da realidade, que faz quase sempre doer, Letícia.

Thales Nascimento disse...

Que texto legal! Perceber o próprio vazio, e se espantar com ele, talvez seja um grande passo para preenchê-lo.