01 setembro 2014

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A vida de Edgar


Estava tudo por um fio. De linha, de querer morrer. O gato, Tertúlio, estava morto. A mulher, Dionísia, havia fugido. A geladeira, Brastemp, estava vazia. E, para arrematar, seu time estava na zona de rebaixamento. Era muito para Edgar aguentar. Porém, como todo bom homem, ele decidiu que seria forte. Em nome de Deus, catou um gato na rua, foi ao supermercado, enchendo, então, a geladeira de porcarias enlatadas e ligou para um serviço de acompanhantes. Mande-me uma que seja jovem, ordenou Edgar. E, neste piscar de olhos, sua vida estava novamente por um fio. A única dúvida que permanece é quem estará controlando tão precário exemplar de marionete?


(antes, ficção)








Um mês sem escrever (no blog). Daqui a pouco, irão dizer que estou desaparecida. Então, dou as caras. Talvez eu tenha medo de sumir. Admito. Mas vivo sumindo. Percebo que pratico tudo que me causa medo. Um exemplo: tenho medo da verdade. Porém, ando com a minha sempre exposta, pensando o que acho que não devo esconder de mim mesma e acreditando que estou agindo certo. E isto é um diário. Só me falta dizer o que fiz durante o dia. Já percebeu que todo mundo tem necessidade de dizer o que está fazendo da vida? Todo mundo enfatiza o que faz e deixa de fazer como prova de que não está vivendo em pleno ócio. Talvez seja pecado. O ócio. E eu, que evito religião, falo em pecado. E digo mais: não confio em gente que diz amém a cada enunciado que transmite. Há (quase) sempre muita sujeira na cabeça e na língua de quem faz isto. Ou que fala demais em Deus. É como repetir algo para si mesmo até que se possa acreditar no que se diz. Entende? No mais, percebi que a sola de um de meus sapatos favoritos está se soltando. Pensei em colar. Mas, se eu colar a sola, não será mais o mesmo sapato. Será outro. Será um sapato colado. Não gosto de enchimento, de tingimento e duvido de muita maquiagem ao meio dia. É sinal de ruga imprópria. Das leituras, li muito mês passado. Autores que conheço e autores que já morreram. Gostei de quase todos os livros. Não citarei o título. Não vejo necessidade. Um deles me tirou a paciência. Quanto mais eu lia, mais o livro se alongava. As páginas brotavam. Eu cheguei a calcular quantas páginas eu conseguia ler por dia. Decidi deixá-lo de lado. Tenho uma pilha de livros que caracterizei como "livros que desafiam minha paciência". Eu os organizo por ordem alfabética e, se o tempo permitir, irei ler todos eles quando eu estiver com maturidade suficiente para dizer que estou serena. Há desafios que suporto. Porém, há outros que eu pulo. Como se fosse um tabuleiro de jogo, eu pulo casas, escondo dados e roubo, se for preciso. Nunca fui muito honesta. Será honestidade ou santidade isto que digo não possuir? Em meio às dúvidas, parou de chover. E esqueci pessoas. Esqueci tanto que sequer as menciono. Como diria uma amiga, veja só como ela está mocinha. Estou mocinha e encabulada. Sinto mais vergonha do que vontade. E amor mais do que necessidade. E estou escrevendo para dizer que parei de apostar em cavalos. Agora só aposto em tartarugas. Pois estas sempre chegam ao destino. Cavalos, muitas vezes, se desviam no meio do caminho.









2 comentários:

Luis Eme disse...

olá Letícia, que bom ver-te aqui na rua da "blogosfera"!

no outro dia vi alguém que podias ser tu, mas estavas um pouco distante e de costas, para que eu gritasse teu nome (e olhassem todas as Letícias da rua...).

mas hoje és mesmo tu, as tuas palavras não enganam (que bom começar o dia a ler-te)

Camilla disse...

Ócio não é pecado. Gostei da mocinha que aposta em tartarugas.