19 outubro 2014

carta para ninguém











Esta é uma carta que não será enviada a ninguém. Porém, o ato de escrevê-la faz com que se torne lida. Não pelo destinatário. Mas pelas memórias que trago de tudo que perdi o rastro. Acho que foi chá de sumiço. Ou não. Ao entrar no blog de um amigo e notar que há quatro semanas não publico nada no afeto, me senti descabelada e sem jeito. Pois não vivo sem escrever. Aliás, vivo. Mas não da forma como quero. Escrevo para me enfrentar. Sou malvada demais comigo mesma e, ao me entregar às palavras, me dou um bom puxão de orelhas. Ou me convido para o mais secreto de mim. Enfim. Estive lendo. Li muito. Fiz lista dos livros que li. Desde Virginia Woolf a Osman Lins, estive lendo e me encontrando. E, dentre as obras lidas, uma me tomou atenção especial. O livro é de autoria de Jorgeana Braga. A casa do sentido vermelho. Me joguei em cada página, pois é isto que a autora me convidou a fazer: mergulhe nos sentimentos que surgirão nas páginas a seguir. Trata-se de um livro de amor. É. Amor mesmo. Personagens que amam e se deixam levar fluidos, em uma linguagem ritmada, como pensamentos que não precisam de pontuação. Assim que terminei de ler, escrevi algo. Daí, depois de escrito, guardei. Percebi isto em meu tempo de ausência. Escrever é um ato tão completo de fazer com que algo aconteça que, após deitar cada palavra em uma página, após acolher tudo, dando forma e sentido ao que antes era só pensamento e construção, a vontade que se tem é de guardar tudo. Porque já aconteceu. Estarei sendo egoísta? Talvez. Somos todos egoístas (Graças a Deus). Imagine um mundo cheio de gente altruísta e bondosa. Imaginou? Estranho, não? Sou tão egoísta que me maltrato apenas para poder, eu mesma, reparar o estrago. Mas entenda: não sou tão má quanto digo. É apenas artifício que uso para inflar ainda mais meu próprio sentido. Estamos em horário de verão e é primavera. Ou seja: nada está exato. Uma coisa se une a outra e, logo, tudo é toda coisa. Já desisti de tentar dividir-me para me entender em partes. Decidi viver de forma larga. Vasta mesmo. Calma e transparente, levada pela mais próspera paciência, espero que tudo me console de vez ou que me acabe em uma dor triste de fazer escoar cada gota de sangue que há nas veias que se enroscam nesta essência física na qual me faz de forma a natureza. Mas estou enrolando. O que gostaria mesmo de dizer nesta carta para ninguém é que sonhei com você. E foi perfeito o sonho. Ao acordar, quase telefonei. Porém, me lembrei: não tenho seu número de telefone. Nunca anotei. E nunca pedi para que me desse livre acesso ao seu mundo particular de raridades tolas. Aliás, ninguém pede permissão para isto. Mas sonhei. E, em meu sonho, foi como ter você por escrito. Belo, por mim grafado, e nítido.












3 comentários:

Aline Gouveia disse...

Fico aqui lendo e relendo este texto e não me canso. Sinto que ele tem sempre algo mais a me dizer. Vou repetir: meu coração ainda o está remoendo.

BeijO

Luis Eme disse...

é no mínimo curiosa essa coisa da carta não ser para ninguém e ser para toda a gente.

mas percebo, às vezes preferimos utilizar outro tipo de "carteiro", para fazer chegar palavras.

e fiquei curioso pela Jorgeana.

(desta vez não disse nada, mas tinha saudades de ti, das tuas palavras, Letícia)

Grã disse...

"em meu sonho, foi como ter você por escrito", só isso já bastaria, há um romance inteiro nesse trecho.