23 janeiro 2015

misérias mínimas









O perfeccionista é o último a lavar as mãos.

(Flora Conduta)






Virginia Woolf está me matando. De página em página, caio em receios mais tensos que meus desejos intrigados. Perco peso e senso de direção quando leio Ao Farol, narrativa cujos personagens morrem e renascem ao ir e vir de barcos e ondas que o tempo engole. Lily Briscoe já envelheceu e rejuvenesceu mais de muitas vezes. Na contracapa alguém diz que se trata de uma obra super prima da literatura. O super é meu. O resto, é coisa de editora. Não sei de todas as coisas, mas, das poucas que sei, me atrevo a dizer que sei muito. E digo, com a cara de pau típica com a qual atravesso a rua, que estou estranha. Aranha de vulva vulgar. Trapaceio o medo ao arrancar da ferida sua casca. Esta é a dor. Enfrente-a. Não curto oblíquos e canso muito fácil de gente que fala muito. Outro dia, em um hotel, fugi da camareira. Percebi que ela iria entrar em alguma conversa. Talvez falasse dos filhos, da família, do gás de cozinha. E a culpa foi toda minha. A mulher estava séria e calada, até que eu, a impostora de mim mesma, abri meu sorriso de gentilezas. Este é o perigo. Não quer ouvir, tente não falar. Burra! A camareira fez seu trato com a linguagem falada e narrou parte de seu dia. Eu a ouvi como quem espera por um ônibus enquanto conversa com algum estranho. Usei muito sim e muito eu entendo. Só que, de verdade, eu não entendo nada. Não sei de misérias mínimas e pouco me adentro no máximo das aflições. Vou rasteira em tudo que vivo. Pois, de uns tempos pra cá, nos profundos eu não respiro. E quanto ao livro, irei terminar.












2 comentários:

Luis Eme disse...

é engraçado que pensava que o perfeccionista era o primeiro a lavar as mãos...

perdoa a minha ignorância, Letícia, mas nunca li nada de Virginia Woolf (como não li tantos escritores "obrigatórios"...).

todas as personagens são tramadas, se as levarmos muito a sério (inclusive nós próprios...).

e acho que este mundo está longe de ser para perfeccionistas...

Anônimo disse...

Perfecionismo é encarado como algo pejorativo,mas creio eu que todos(no sentido geral)mostra algo belo,esplendido e eficaz..sendo perfeccionista.pois se o ser humano nao for atras da perfeiçao,ele ficara estagnado.perfeitos?nunca seremos..mas perfecionistas e buscadores da perfeiça,sim,por que nao?